NOTÍCIA
Com mais da metade dos docentes das redes estaduais contratados de forma precária, modelo expõe desigualdades, fragiliza a carreira e impacta a aprendizagem
Depois de tentar outros caminhos — inclusive fora da educação —, foi na sala de aula que Silvana*, professora da rede pública de Pernambuco, encontrou sentido para sua trajetória profissional. “Não me arrependo um segundo disso, amo minha profissão”, conta. Mas a decisão de permanecer veio acompanhada de um cotidiano marcado por incertezas. Sem estabilidade, com contratos que precisam ser renovados periodicamente e poucas garantias de direitos, ela resume a contradição que vive: mesmo com algumas melhorias salariais nos últimos anos, “a realidade em sala de aula é bem mais difícil”. Ainda assim, não cogita deixar a docência.
A história dela não é exceção. Pelo contrário: ajuda a explicar um movimento que vem se consolidando nas redes públicas de ensino brasileiras. Dados do Censo Escolar 2024 mostram que, pelo terceiro ano consecutivo, professores contratados por tempo determinado são maioria nas redes estaduais, representando50,04% do total de docentes — superando, portanto, o número de efetivos.
O avanço desse modelo de contratação, que deveria ser exceção, acende um alerta entre especialistas. Para Andressa Pellanda, coordenadora-geral da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, trata-se de “um grave retrocesso na política de valorização docente e um risco à qualidade da educação pública”.

Tal modelo é “um retrocesso na política
de valorização docente e um risco à qualidade da educação pública”, diz Andressa Pellanda,
da Campanha Nacional pelo Direito à Educação (Foto: Arquivo pessoal)
A insegurança que marca a trajetória da professora pernambucana não é pontual e se justifica pela forma como o trabalho docente vem sendo organizado. Na rede estadual, onde atua há quatro anos, os contratos têm duração de seis meses a um ano. A cada ciclo, recomeça a incerteza. “Vivemos com esse fantasma”, resume.
Sem estabilidade e sem perspectiva de continuidade, o impacto vai além da permanência no cargo. “Não há planejamento de carreira”, afirma. A cada novo processo seletivo, surge também o risco de interrupção do trabalho, inclusive no meio do ano letivo.
Esse cenário ajuda a explicar por que a contratação temporária, prevista na legislação apenas para situações excepcionais, vem se tornando recorrente. “A contratação de professores deveria ocorrer por concurso público, mas, como os contratos temporários custam menos, muitos gestores acabam tomando a exceção como regra”, explica a professora da PUC Campinas e pesquisadora Andreza Barbosa, doutora em Educação Escolar.
Além da questão financeira, há um problema mais amplo: a baixa atratividade da carreira docente. Com salários pouco competitivos e condições de trabalho desafiadoras, muitos professores deixam a profissão — e as redes recorrem a vínculos mais frágeis para recompor rapidamente o quadro de profissionais.
A instabilidade dos contratos não afeta apenas a trajetória dos professores — ela chega diretamente à sala de aula. Com mudanças frequentes de escola e vínculos de curta duração, Silvana relata dificuldades para consolidar o trabalho pedagógico. “É comum que a gente precise trocar de escola várias vezes, o que impossibilita a construção de vínculos duradouros com a comunidade escolar”, explica.
A rotatividade também interfere na relação com os estudantes. “Não dá tempo de desenvolver o trabalho de forma eficiente. Precisamos conhecer as turmas, entender suas particularidades, e isso leva tempo. Quando conseguimos avançar, muitas vezes o vínculo é interrompido”, reforça. São recomeços constantes tanto para professores quanto para alunos.
Segundo Andressa Pellanda, esse cenário compromete um dos pilares centrais da escola pública: a continuidade do processo educativo. A substituição recorrente de professores efetivos por temporários “fragiliza a construção de projetos pedagógicos de longo prazo nas escolas”, avalia.
A coordenadora reforça que a precarização das condições de trabalho também impacta diretamente a permanência e o engajamento dos profissionais. A instabilidade, somada à ausência de direitos e perspectivas de carreira, contribui para o adoecimento e o desalento docente — fatores que repercutem no cotidiano escolar e na qualidade da educação oferecida.
Embora exerçam as mesmas funções em sala de aula, professores temporários e efetivos convivem com realidades distintas dentro das redes públicas. Isso significa salários desiguais, ausência de estabilidade e restrições no acesso a políticas de formação e valorização profissional.
“Temos os mesmos deveres, mas não as mesmas condições”, resume a professora da rede estadual de Pernambuco. Segundo ela, apesar das especializações ou formação continuada, muitos docentes temporários seguem recebendo apenas o salário base da categoria, sem reconhecimento adicional pela qualificação. Além disso, a falta de estabilidade impacta diretamente o planejamento de vida e de carreira. “Não há planejamento possível. Nossos contratos são curtos e a insegurança da não renovação é constante”, afirma.

Há uma grave distorção dentro da própria carreira docente, avalia a pesquisadora
Andreza Barbosa (Foto: Arquivo pessoal)
A pesquisadora Andreza Barbosa reforça o que Silvana relata: o cenário revela uma distorção grave dentro da própria carreira docente. “Apesar de realizarem o mesmo trabalho, esses profissionais têm acesso a direitos diferentes, o que gera insatisfação e prejudica o próprio trabalho pedagógico.”
Na prática, essa desigualdade se desdobra na organização do cotidiano escolar. Muitos professores temporários acumulam vínculos em diferentes escolas — ou até fora da educação — para complementar a renda, o que amplia a sobrecarga e dificulta a dedicação integral ao trabalho docente.
Nesse contexto, a instabilidade deixa de ser apenas uma condição contratual e passa a atravessar a experiência profissional como um todo. Com o fim de mais um contrato, Silvana* já precisou participar de um novo processo seletivo para tentar permanecer na rede. Ainda assim, o resultado é incerto. “Como um professor sem estabilidade pode orientar seus alunos sobre a importância da educação para o futuro se ele mesmo vive uma realidade tão instável?”, questiona.
Especialistas apontam que o enfrentamento da precarização passa por mudanças estruturais. Entre elas, a realização de concursos públicos regulares, a valorização da carreira docente e a garantia de direitos básicos também para professores temporários, enquanto esse modelo ainda for adotado. Para Andressa Pellanda, é preciso ainda avançar no financiamento e no planejamento das redes, de modo a reduzir a dependência de vínculos precários e fortalecer a continuidade do trabalho pedagógico.
*Nome fictício
Apesar de exercerem as mesmas funções em sala de aula, professores temporários e efetivos enfrentam condições distintas nas redes públicas de ensino.
Entre as principais diferenças, estão:
• Estabilidade no cargo
Professores temporários podem ter seus contratos encerrados a
qualquer momento, mesmo durante o ano letivo.
• Plano de carreira
Enquanto efetivos contam com progressão estruturada,
temporários não têm perspectiva de crescimento ou continuidade
profissional.
• Remuneração e valorização da formação
Nem sempre há reconhecimento financeiro por titulações como
especialização, mestrado ou doutorado no caso dos temporários.
• Acesso a políticas e benefícios
Programas de formação continuada, incentivos e distribuição de
recursos podem não incluir esses profissionais.
• Garantia de direitos trabalhistas
Em muitas redes, temporários não têm acesso integral a direitos
como licença-maternidade, férias ou 13º salário.
• Vínculo com a escola
A rotatividade e a atuação em múltiplas unidades dificultam a
construção de vínculos duradouros com a comunidade escolar.