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Autor

Sandra Seabra Moreira

Publicado em 08/05/2026

O racismo na escola que ninguém quer ver

“A escola é o primeiro lugar em que as crianças pretas vivenciam o racismo. Isso acontece na escola pública e privada. Mesmo em região periférica, em que a maioria é preta e parda, há a reprodução do racismo pelo aluno, professor e gestor”, afirma a especialista Elizabete Scheibmayr

A desigualdade  racial da sociedade brasileira incide sobre a vida escolar de crianças e jovens negros. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2024, mais de 8 milhões de jovens de 14 a 29 anos não haviam completado o ensino médio no Brasil. Desse total,  72,5% eram negros. 

O Censo Escolar 2025, divulgado em fevereiro deste ano, aponta que a distorção idade-ano  o atraso de dois anos ou mais  reduziu, mas ainda existe e incide mais sobre jovens e crianças negras. No ensino médio, a distorção atinge 19,3% dos estudantes negros e  10,9% dos alunos brancos.  

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As barreiras são muitas, entre elas, a reprodução do racismo na escola, um fenômeno nem sempre detectável pela comunidade escolar, mas que persiste e afasta  os estudantes das oportunidades que realmente podem mudar suas vidas.

É preciso mudar a cultura, o comportamento. E mudança assim não se faz da noite para o dia, é um processo, são anos para que aquilo seja incorporado”, afirma Elizabete Scheibmayr, fundadora da Uzoma Diversidade, Educação e Cultura

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Elizabete Scheibmayr palestrará na Bett Brasil, que acontece  no Expo Center Norte, em São Paulo. Ela participa do painel Educação e território: a desigualdade que a escola ainda não quer ver, no último dia do evento, em 8 de maio, às 13 horas, na plenária.

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Confira a entrevista com Elizabete Scheibmayr a seguir: 

racismo na escola

“Falar em diversidade é fácil, mas quanto se está disposto a incluir?”, questiona Elizabete Scheibmayr (foto: arquivo pessoal)

Caracterize esse contexto em que as crianças e jovens negros têm mais dificuldades na escola.

O  Brasil é um país em que 55% da população se declaram pretos e pardos. Essa população está, em sua maioria, na periferia. Então há a incidência de raça e de classe. O jovem negro não se enxerga no espaço escolar. Além de não se enxergar, tem outras necessidades primárias   se manter, ajudar a família   e ele não enxerga na escola um lugar onde pode ter um crescimento profissional rápido, inclusive porque, hoje em dia, para os jovens é tudo muito imediato.  

A educação transforma, muda a vida, é consistente, mas esse jovem não quer esperar. A escola, então, não consegue mais atrair esse jovem. Tudo lá fora parece ser muito mais ágil do que a escola. 

 

Mas esse fenômeno é geral, não é?

Sim, mas o impacto na população periférica e negra é diferente. Veja, eu sou mãe, acompanhava meu filho na escola porque tinha essa disponibilidade. Eu trabalhava, mas sempre enxerguei a importância da educação e estava alí o tempo todo. Mas o  dia a dia massacra a família desse jovem negro. Você acha que uma mãe que sai às cinco da manhã, pega ônibus, vai trabalhar, sofre violência, consegue dar o respaldo de que a criança precisa, de falar ‘tem lição? Tem trabalho? Vamos fazer juntos?’. Essa família é mastigada e espremida pela sociedade o tempo todo. A família não tem energia para fazer a criança permanecer na escola. É muito desafiador isso.

 

O ambiente escolar também interfere? 

A escola é o primeiro lugar em que as crianças pretas vivenciam o racismo. Isso acontece na escola pública e privada. Isso afeta muito, muito. Mesmo na escola periférica, em que a maioria é preta e parda,  há a reprodução do racismo pelo aluno, professor, gestor. Na escola, há um estrato da própria sociedade, portanto, o racismo se reproduz.

 

Mas isso não deveria acontecer na escola.

Não deveria. A escola era para ser um lugar em que a inclusão fosse vista efetivamente. Ali não é um espaço para reprodução do racismo, homofobia, não é um lugar para preconceitos. Mas se reproduz o que se vivencia e o racismo é vivenciado dia a dia na loja, no ônibus, no mercado. 

Veja como a história reproduz esse lugar da pessoa preta. O lugar da pobreza, da carência, da pouca inteligência. É isso que é reproduzido. Por exemplo, eu e minha irmã fizemos matemática. As pessoas se espantam quando sabem que há pessoas negras formadas em matemática, como se fosse algo totalmente desconexo.

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Por causa dos estigmas, estereótipos?

Exatamente. E as pessoas não enxergam, mas a reprodução do racismo na escola sempre existiu. Lembro muito disso na minha infância. Levantava a mão, o professor ignorava, não respondia a pergunta; quem senta na frente, quem sai na foto da escola,  quem é a rainha não sei de onde, quem vai falar, quem vai ler o poema… Essas reproduções ainda existem hoje. Venho de uma família de ativistas do movimento negro, meu pai é um dos fundadores do Movimento Negro Unificado. Então, meu pai  me perguntava ‘professor falou o quê?’, via foto tirada na escola e indagava ‘por que você não está na frente? Não vem com a desculpa de que você é alta’.

Fiquei internada num hospital por volta dos oito, nove anos. Na época, os pais não ficavam junto na internação. Meu pai chegou pela manhã para me visitar. A primeira pergunta dele foi ‘quantos médicos passaram aqui para te ver? A enfermeira passou?’. Ele já trazia para nós a existência do racismo, do ficar largada, esquecida. 

 

Então, as famílias têm um papel importante nessa mudança? 

Pais deve atentar às falas, aos comentários. As denúncias aumentaram porque hoje o filho chega em casa e conta, a mãe vai lá tomar satisfação e cobra da escola um posicionamento. Isso vem muito do empoderamento das pessoas negras. Você começa a valorizar quem você é, a sua força, e não tem medo. 

É necessária a inclusão da família dentro do processo da escola. Às vezes, é a escola também que leva a discussão da questão racial para a família, pois  nem toda família tem letramento racial. Não é porque é negro que tem letramento racial, e muita gente não tem. 

 

As leis que inseriram as culturas afro-brasileira e indígena no currículo não colaboram para a diminuição do racismo na escola?   

Faço parte do Conselho Municipal de Promoção de Igualdade Racial da prefeitura de São Paulo. Acompanho e há material, treinamento. Há, sim, um trabalho para a valorização da cultura afro-brasileira e indígena, para o cumprimento da lei. Mas ainda é pouco. Penso que esse trabalho precisa começar no professor, na sua formação. Por exemplo, a cultura afro não se restringe à capoeira. É muito além. 

 

Ainda falta formação para questões étnico-raciais nas licenciaturas?

Sim, porque começa com o professor, para ele entender como trazer essa cultura em tudo, inserir essa população em tudo.  O Geledés [Instituto da Mulher Negra]  tem uma cartilha de como o professor pode  agir no dia a dia. Como inserir a cultura, os brinquedos, bonecas, então tem ali um trabalho profundo. Mas ainda precisamos de muito.

É preciso mudar a cultura, o comportamento. E mudança assim não se faz da noite para o dia, é um processo, são anos para que aquilo seja incorporado. Percebemos que o aluno que teve essas questões durante sua formação chega à universidade com uma consciência racial maior, um olhar para o outro, um olhar não só para a diversidade, mas para a inclusão. Porque falar em diversidade é fácil, mas quanto se está disposto a incluir?

 

Em relação às cotas: é uma revolução?

Total, a mudança é gigantesca. Hoje vemos o que as cotas trouxeram de mudanças nas universidades federais, nas públicas. É impressionante. E abriu uma perspectiva para o jovem negro que hoje entra na escola pensando ‘vou fazer uma federal’. 

Hoje, a base de pesquisa vem se ampliando cada vez mais. Meu filho estuda economia na Unicamp. Lá, os professores cobram autores africanos, outras fontes, para entender economia de outra forma.  Mas é um processo, e que não pode parar. Processo de aprendizado, de mudança de consciência. Inclusive no processo de entendimento de que aquele conhecimento que não veio de uma escola europeia  é importante. Vamos mudando a cultura, dando valor aos conhecimentos produzidos por outros corpos, outras vivências. 

 

É fundamental que as escolas enfrentem essa realidade, mesmo a mudança cultural sendo desafiadora. Como isso pode ser feito nas escolas particulares? 

Nas escolas privadas, há iniciativas como a contratação de professores negros e bolsas para alunos negros. Mas não adianta só colocar o aluno lá dentro da sala de aula e não incluí-lo no espaço. A inclusão tem de ser constante porque as realidades são diferentes. Quando coloco esse aluno dentro da escola privada, por meio de bolsas de estudos, é tudo: uniforme, material, lanche, a festa, as amizades, porque faz parte o convívio.

 

Muitas escolas têm projetos antirracistas.

Sim, mas temos de tomar cuidado para não cair no assistencialismo. Acontece de se trazer o mesmo peso   estou fazendo um trabalho social e assistencial e estou falando de questão racial. Precisa tomar cuidado para não se transformar nisso. As pessoas têm histórias diferentes. Se está combatendo o racismo, pode até ter uma questão social, mas estamos falando de raça. Carrega-se muito na questão do assistencialismo   estou fazendo um favor. 

Por exemplo, nas empresas, às vezes em projetos de Jovem Aprendiz, escuto ‘ah, eu quero muitos jovens negros aqui dentro’. Eu pergunto   para quê? Você vai dizer que aquele lugar é para ele, que ele tem uma possibilidade de crescimento, transformação de vida, complementação de formação, ou está fazendo trabalho social, em que dá bolsa, paga um salário e depois manda embora? 

Novamente, tem de ter esse cuidado e não confundir com assistencialismo. Porque será uma intervenção que fará uma transformação, que vai afetar a questão social, logicamente, mas que está associada  à possibilidade de aquele jovem sonhar com coisas que ele nunca sonhou: ser CEO numa empresa, ser executivo, ter uma carreira internacional. A possibilidade de ter esse espaço para construir sua carreira, seus sonhos.  Se não for assim, não há mudança. 

 

Na escola particular, como a gestão interfere nas questões das desigualdades, para criar um ambiente inclusivo?

Dividiria em algumas etapas. A primeira etapa é a gestão realizar seu próprio letramento, depois vai para a parte pedagógica, revisão de currículo e então começar a incluir as pessoas. 

Importante: tolerância zero para qualquer tipo de preconceito. E fazer o letramento para os pais também. Não adianta a escola falar e, em casa, o racismo ser reproduzido dia a dia. Em casa está a  empregada negra, o porteiro negro.  Assim a chave não vira, porque fica só no discurso.

As pessoas falam ‘eu sou antirracista’. Eu digo ‘que bom, porque precisamos de aliados’.  Mas daí eu pergunto   no seu dia a dia, por exemplo, na festa de aniversário, vamos ver a foto, quantas pessoas negras aparecem? Seu médico, seu dentista, ou o pediatra do seu filho são negros? É preciso buscar ativamente. Isso muda. Um professor particular? Busca o professor particular negro. É o movimento ativo que fará a transformação.

Bett Brasil

*A Bett Brasil é um dos maiores eventos de inovação e tecnologia para a educação da América Latina. Acontece de 5 a 8 de maio, no Expo Center Norte, capital paulista. E nós, da Educação, estamos fazendo uma cobertura especial. Clique aqui para ficar por dentro de tudo.

Nossa cobertura jornalística tem o apoio das seguintes empresas: FTD Educação, Santillana Educação e Multiverso das Letras.

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