Primeira sul-americana finalista do Global Teacher Prize, prêmio que a colocou entre os 10 melhores professores do mundo
Publicado em 06/03/2026
Da tela à intencionalidade pedagógica — desafios e caminhos para 2026
Ao iniciar mais um ciclo letivo, a educação enfrenta uma encruzilhada: não se trata apenas de levar dispositivos para dentro da escola,mas de transformar o modo como esses recursos são usados para efetivar aprendizagens profundas, acolher alunos e reconfigurar o trabalho docente. No Brasil, iniciativas de inclusão digital avançam em infraestrutura e conectividade, mas ainda esbarram em lacunas nas práticas pedagógicas e no preparo de educadores para promover o uso intencional das tecnologias.
Nos últimos anos, a presença de computadores, tablets e internet nas escolas tornou-se mais comum, sobretudo no ensino médio e em grandes centros urbanos. No entanto, dados indicam que menos da metade das redes estaduais brasileiras oferecem disciplinas que abordam especificamente cultura e cidadania digital, fundamentais para o uso ético, seguro e crítico das tecnologias por parte dos estudantes. Isso revela que o mero acesso às telas não é suficiente; a escola precisa construir um ambiente pedagógico que articule essas ferramentas com objetivos educacionais claros.
A transição de uma educação analógica para uma cultura digital exige mais do que equipamentos conectados:demanda planejamento cuidadoso, formação continuada de professores e integração curricular. Em muitas instituições, ainda predomina o uso reativo da tecnologia —quando surge um problema ou uma dúvida, em vez de integrar-se a um projeto formativo contínuo. Para 2026,essa transformação passa por três eixos fundamentais:recuperação de aprendizagens, planejamento em tempos de incerteza e acolhimento socioemocional.
Primeiro, recompor e ressignificar aprendizagens fragmentadas nos últimos anos exige um olhar sensível. A pandemia de Covid-19 expôs a fragilidade de sistemas educacionais que não estavam preparados para integrar tecnologia e pedagogia de forma orgânica. Estudos mostram que ignorar o desenvolvimento socioemocional durante o ensino remoto aprofundou as perdas de aprendizado, impactando mais fortemente em português e matemática. Assim, iniciativas que combinam suporte emocional com práticas pedagógicas mediadas por tecnologia são essenciais para recuperar competências e restabelecer o vínculo entre estudantes, famílias e escola.
Em segundo lugar, o planejamento pedagógico em tempos de incerteza deve equilibrar currículo, acolhimento e inovação. As escolas precisam definir com clareza quando e como usar ferramentas digitais para que se tornem meios e não fins. Por exemplo, programas que incentivam rotinas de leitura digital crítica, produção multimídia e resolução colaborativa de problemas podem potencializar o engajamento sem fomentar dependência excessiva dos dispositivos. Ao mesmo tempo, políticas que restringem o uso de celulares em momentos não pedagógicos evidenciam uma tendência global de buscar equilíbrio, estimulando interações humanas no convívio escolar.
Por fim, o acolhimento socioemocional não pode serum evento isolado no início do ano; deve fazer parte da estruturação do currículo. O retorno às aulas é uma oportunidade de fortalecer competências como autorregulação, empatia e resiliência — aspectos tão importantes quanto as habilidades cognitivas tradicionais. Em contextos em que a tecnologia é integrada com sensibilidade, os professores atuam não apenas como mediadores de conteúdo, mas também como orientadores de experiências de aprendizagem que contemplam a mente,as emoções e a sociedade.
Um exemplo concreto dessa convergência entre tecnologia e pedagogia ocorre quando escolas promovem projetos que articulam a aprendizagem digital com a resolução de problemas reais, como a produção de podcasts, o jornalismo escolar digital ou simulações colaborativas online. Nesses ambientes, a tecnologia atua como ferramenta que amplia vozes,enriquece narrativas e sustenta experiências contextualiza-das — e não apenas como objeto de consumo passivo.
Para que a cultura digital seja verdadeiramente transformadora, é preciso também garantir formação contínua para educadores, alinhada às demandas reais das salas de aula e às diversidades socioculturais dos estudantes. A tecnologia deve servir de apoio à criatividade e ao pensamento crítico, e não como substituto de práticas pedagógicas sólidas.
Olhar para 2026 com otimismo exige que tenhamos clareza: a cultura digital na escola só cumprirá seu potencial quando for intencional, integrada ao currículo e sensível às necessidades afetivas dos estudantes. Assim,mais do que dispositivos conectados, precisamos de prá-ticas conectadas — práticas que acolham, desafiem e em-poderem estudantes e professores, para que a tecnologia amplifique, e não substitua, a essência da educação.
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