NOTÍCIA
Se educar é formar pessoas capazes de fazer escolhas e conviver, o momento da refeição é, inevitavelmente, educativo
Por Letícia Thuller, coordenadora de nutrição pedagógica da Quitanda Escolas | Todo dia, no horário do almoço ou do lanche, a gente vê a mesma cena se repetir em escolas diferentes: uma criança olha para o prato, decide o que vai levar, prova algo novo ou volta para o que já conhece. Ninguém chama isso de aula, mas é isso que acontece.
Trabalhamos com nutrição pedagógica dentro de escolas e aprendemos, na prática, que a alimentação ensina o tempo todo, mesmo quando ninguém está explicando nada. É o ambiente, é a fila, é a curiosidade diante de um tempero novo. É também a possibilidade de escolher, experimentar, recusar, mudar de ideia e, aos poucos, construir uma relação própria com a comida. Se educar é formar pessoas capazes de fazer escolhas e conviver, o momento da refeição é, inevitavelmente, educativo.
Na Quitanda Escolas, buscamos transformar esses momentos em oportunidades de aprendizagem. Nosso método traduz os grupos alimentares a partir de suas funções no corpo, numa linguagem próxima do universo das crianças: Go para os alimentos que dão energia, Grow para os que ajudam a crescer e Glow para os que fortalecem e protegem o corpo. A proposta é tornar o conhecimento mais concreto e ajudar a criança a compreender o que está no prato, não apenas a comer.

Restaurante e lanchonete da escola: um microcosmo social (Foto: divulgação)
Mas nada disso funciona se a comida não for gostosa. Por isso trabalhamos com uma lógica de equilíbrio, sem radicalismo: comida saudável e comida saborosa nunca precisaram estar em lados opostos. É cozinhar utilizando alimentos frescos, testado e ajustado, porque educação alimentar também passa pelo prazer de comer.
O que vemos no dia a dia é que muitas vezes a criança repete um alimento não porque alguém mandou, mas porque teve contato com aquele sabor mais de uma vez, num ambiente sem pressão. Às vezes o problema nunca foi gosto. Era falta de intimidade com aquela comida.
O restaurante e a lanchonete da escola são um microcosmo social, e precisam ser pensados com a mesma intenção pedagógica que dedicamos a outros ambientes da escola.
No fim, a pergunta que guia o nosso trabalho é sempre a mesma: o que a escola quer formar? Se a resposta inclui autonomia, saúde e senso de comunidade, a alimentação não é detalhe de rotina. É parte do projeto pedagógico. Talvez, então, a pergunta não seja apenas o que estamos servindo às crianças, mas o que estamos ensinando a elas enquanto servimos.
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