NOTÍCIA
A alfabetização é um processo complexo. A escolha de um único método não responde às múltiplas realidades presentes nas salas de aula
Por Thelma Tavares Dias| O Compromisso Nacional Criança Alfabetizada (CNCA), lançado pelo MEC, prevê que todas as crianças do Brasil estejam alfabetizadas até o final do 2º ano do Ensino Fundamental. Dados recentes do Indicador Criança Alfabetizada apontam que, em 2024, 59,2% dos alunos matriculados em instituições públicas estavam alfabetizados ao final dessa etapa. O avanço é relevante, mas reforça a necessidade de ampliar o debate sobre as condições e estratégias de aprendizagem nos primeiros anos escolares.
Com a expansão do acesso à escola ao longo do século 20 e a consolidação da educação pública como direito, a alfabetização passou a ocupar papel central, tornando-se o ponto de entrada para a escolarização. Nesse contexto, a discussão sobre métodos ganhou força. Como apontou a saudosa Magda Soares, historicamente observa-se uma alternância entre métodos considerados inovadores e aqueles vistos como tradicionais.
Entre os caminhos adotados estão os métodos sintéticos, que partem das unidades menores da língua para chegar às maiores. Aqui, a aprendizagem começa pelo reconhecimento das letras e de seus sons, avançando para sílabas e palavras. Desse conjunto de práticas derivam os métodos fônicos e silábicos.
Em sentido oposto, surgem os métodos analíticos, que iniciam o processo a partir de unidades dotadas de significado, como palavras ou textos curtos. Dessas estruturas maiores, a criança passa a identificar sílabas, letras e relações sonoras.

Cada sala de aula reúne crianças com trajetórias, repertórios culturais e experiências distintas com a leitura e a escrita (foto: Getty Images)
Apesar das diferenças, ambas as abordagens têm um princípio comum: a alfabetização envolve compreender que a escrita representa os sons da fala e que o domínio do sistema alfabético depende da relação entre letras e sons.
A partir da década de 1980, pesquisas de Emília Ferreiro e Ana Teberosky demonstraram que a criança constrói hipóteses sobre a escrita ao longo da aprendizagem. O foco desloca-se do método de ensino para a compreensão de como o aluno aprende, ampliando o debate sobre letramento.
Leia: A alfabetização sob a perspectiva de Emilia Ferreiro
Se a alfabetização está ligada à aprendizagem do sistema alfabético, o letramento diz respeito aos usos sociais da leitura e da escrita. Esse conjunto de discussões mostra que a alfabetização é um processo complexo, que envolve diferentes dimensões. A escolha de um único método não responde às múltiplas realidades presentes nas salas de aula.
“Em vez de escolher um método e se agarrar a ele como único, o professor deve ter consciência de que não existe um método ideal para todos os alunos. O que há, sim, é uma diversidade de formas de ensinar e de aprender, e cabe ao professor conhecer a ‘cartela’de opções e selecionar ou combinar estratégias com intencionalidade pedagógica alfabetizadora, de acordo com a realidade e a necessidade de seus alunos”, afirma Millyane Moreira, pedagoga e editora executiva da área de Linguagens da Moderna.
Cada sala de aula reúne crianças com trajetórias, repertórios culturais e experiências distintas com a leitura e a escrita. Assim, diferentes estratégias pedagógicas podem contribuir para o avanço de todos na aprendizagem.
Confira a palestra ‘Combinando os métodos para uma alfabetização efetiva’, ministrada por Renan Sargiani e Mara Mansani e mediada por Millyane Moreira, no Planejar 2026, realizado pela Editora Moderna:
Planejar 2026 – Combinando métodos para uma alfabetização efetiva