Anos finais do fundamental precisam de resgate

A distância do nível de aprendizagem entre as etapas educacionais nas avaliações, como o Ideb, não é aceitável. Especialista chama os anos finais de ‘patinho feio’ e pede atuação federal, ao mesmo tempo que educadoras relatam possíveis causas dos anos iniciais da rede municipal de Maceió terem boa avaliação

De maneira geral, o país tem observado avanços nos últimos 10 anos, ainda que lentos nas metas de avaliações educacionais, como é o caso do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), tido como o principal termômetro que mede a qualidade de aprendizagem dos alunos da rede pública e particular. Contudo, ponto curioso e que acontece por todo o Brasil é a diferença entre as etapas educacionais de uma mesma localidade.


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Falando especificamente da rede pública, em Maceió, enquanto o Ideb de 2021 para os anos iniciais constatou 4.9, os anos finais atingiram 4.1, e o ensino médio 3.4. Professoras da rede municipal da capital alagoana escutadas nesta reportagem e especialistas acreditam que uma das respostas desse contraste está na professora polivalente, presente apenas nos anos iniciais, e que acaba criando um vínculo maior com seus alunos e com a própria família. Essa polivalente leciona em diferentes disciplinas e dá aula para menos turmas.  Já o professor dos anos finais é focado em uma disciplina e tende a lecionar para mais turmas.

A dificuldade na transição

Para Cesar Callegari, presidente do Instituto Brasileiro de Sociologia Aplicada e presidente por dois mandatos da Câmara da Educação Básica no Conselho Nacional de Educação (CNE), as crianças sentem um baque na passagem dos anos iniciais para os finais, tanto de organização curricular como da própria escola. Ele reforça que a queda de aprendizagem em avaliações dos anos iniciais para o ensino médio é gerada pelo esquecimento dos anos finais, em que se observa a existência de poucos projetos.


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“Essa etapa educacional é considerada o ‘patinho feio’, há um abandono e negligência do nosso país. A estrutura é muito diferente. Os anos finais possuem muitos professores que acabam atuando de maneira desarticulada. Claro que o ensino médio tem barreiras, mas carrega uma herança de problemas construídos e aprofundados durante os anos finais”. afirma Cesar Callegari.

Reorganizar os anos finais

Quando foi secretário municipal de Educação de SP (2013-2014), a gestão de Callegari reestruturou os anos finais, para, principalmente, as crianças não perderem o contato com o professor referência, esse polivalente, que a partir da reestruturação passa a ser articulador de diferentes disciplinas.

“Um dos problemas sérios é a quantidade de professores de diferentes disciplinas que raramente se comunicam e se articulam. Os alunos perdem a referência e isso gera um processo de ensino fragmentado que dificulta o desenvolvimento educacional dos adolescentes”, alerta o ex-secretário.

Cesar Callegari conclui que a reorganização dos anos finais precisa ser desenvolvida em larga escala como política pública, com um grande apoio do governo federal principalmente na estrutura de funcionamento.


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Maceió, destaque para os anos iniciais

A preocupação com a frequência escolar pode ser um dos motivos que fez a capital de Alagoas ultrapassar em duas edições consecutivas do Ideb as metas dos anos iniciais do ensino fundamental. Em 2017, Maceió alcançou 5.0 no Ideb e em 2019 chegou a 5.3, se colocando como a quinta capital do país que mais cresceu no Ideb nos anos iniciais naquele período. Na edição de 2019, a nota mais alta de uma capital nos anos iniciais ficou com Teresina, que atingiu 7.4. Já Aracaju ficou com a nota mais baixa, 4.8. Contudo, cada região possui as suas especificidades e os dados não podem ser colocados em competição.

“Existe uma forte busca ativa. Se a criança falta um dia, observamos, no segundo dia ligamos para a família querendo a justificativa”, conta Ana Maria da Silva, professora dos anos iniciais da rede municipal de Maceió. Ela também enxerga como positivo o programa Conquista Maceió, espécie de reforço escolar no contraturno para estudantes do 2º ao 9º ano do fundamental desenvolverem habilidades de escrita e leitura.

Ideb anos finais
Contação de história para as crianças da Escola Municipal Luiz Pedro da Silva IV, uma das escolas mais bem avaliadas de Maceió
Foto: arquivo pessoal

Garra, amor e superação

A rua da Escola Municipal Luiz Pedro da Silva IV não possui asfalto, ainda é de barro. Localizada na Cidade Universitária, um dos maiores bairros da capital, educadoras constatam que o índice de violência por lá é alto. Mesmo assim, a escola está entre as mais bem avaliadas de Maceió no Ideb, tanto que em 2019 atingiu 6 pontos nos anos iniciais e como estímulo a escola ganhou 10 mil reais da prefeitura.

“Trabalho na escola dos meus sonhos. Com esse valor investimos em infraestrutura tecnológica. Toda sala de aula tem Smart TV. Já no Ideb de 2021 fomos para 5.2 e recebemos 8 mil reais”, conta a vice-diretora Cláudia Coimbra, que atua na escola há 10 anos.

Cláudia sabe a importância do Ideb, mas entende também que a avaliação não pode ser apenas objetiva. “Precisamos olhar o aluno como um todo porque ele não é só nota. Tem que ter avaliação subjetiva”, esclarece.


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Valorização da leitura e proximidade com a comunidade

Com 260 alunos e 12 professores, Sou mais leitura é um dos projetos da escola da vice-diretora Cláudia para os anos iniciais. A proposta é desenvolver o gosto pela leitura a partir do contato da criança com o livro. “Tentamos fazer a diferença na vida dos nossos alunos. O recurso é usado adequadamente para o desenvolvimento da criança. Priorizamos as compras de materiais de apoio pedagógico. O nosso programa de leituras tem autores como Ruth Rocha”, completa Célia Bernarde, coordenadora pedagógica

A aproximação com a comunidade escolar tende a ser outro ponto de referência da escola. “Quase 99% dos pais confiam na nossa equipe. Damos respaldo a eles. E há muita troca de conversas entre professor, coordenador e gestão. Mostramos que todos os atores são importantes. Isso faz com que andemos juntos, até porque não construímos nada sozinhos”, pontua Cláudia Coimbra.

A vice-diretora se recorda de uma aluna que pediu para levar um livro ao pai que está preso. “Como não pode entrar metal na prisão, encadernamos um livro originalmente com espiral”, finaliza.

*A repórter viajou a Maceió a convite da Trakto

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