Falta de incentivo nas escolas contribui para o desinteresse dos estudantes com a política

Colégio com ações ativas demonstra que os jovens tendem a se engajar politicamente, quando estimulados para isso

Em ano de eleições presidenciais e um contexto de grande polarização política, as campanhas de incentivo para que os jovens de 16 e 17 anos tirem o título de eleitor se intensificaram. Ações de conscientização ganharam força em uma tentativa de estimular essa faixa etária a desempenhar um papel político mais ativo dentro da sociedade.

O Girl Up Elza Soares, movimento que atua na zona norte do Rio de Janeiro, organizou eventos nas escolas C.E. Paulo de Frontin e Nossa Senhora de Bonsucesso para ajudar os jovens a tirarem o título. Na ação, que faz parte da campanha #SeuVotoImporta, o grupo pede para que a direção do colégio participante comunique os alunos interessados sobre quais documentos são necessários. Assim, durante o intervalo das aulas, as voluntárias recebem os alunos no pátio da escola com computadores, tablets e celulares para que, junto a eles, possam preencher os dados necessários no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).


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A estudante e membra do Girl Up Elza Soares, Lily Montano, de 15 anos, acredita que a escola deveria estar mais envolvida nas questões políticas.

“Não tem como a gente votar sem fazer a mínima ideia do que está acontecendo. E não apenas em relação às pautas da política, mas também sobre como a gente pode atuar nela, porque eu não vejo muitas escolas falando que a gente tem a opção de ser político no futuro”, critica Lily.

É preciso envolver

Bruna de Mendonça, 19 anos, que também faz parte do movimento, conta que muitos estudantes relataram durante essas atividades que ainda não haviam tirado o seu título por falta de incentivo. “Estarmos lá foi o que motivou eles a tirarem. É superimportante que as escolas motivem seus alunos a tirarem o título e a votarem. E, mais importante ainda, que expliquem a importância disso. Somos nós que, no futuro, vamos colher os frutos dessa eleição”, salienta.

Até o momento, foram cerca de 60 estudantes que decidiram tirar o documento durante as ações. Nesta quarta-feira, 4 de maio e data final do prazo para que os jovens tirem o título, o Girl Up Elza Soares ainda realizará um evento no Colégio Qi Metropolitano, na unidade do Méier.


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A falta de incentivo nas escolas é apontada por Bruno Dourado Garbi, de 17 anos. Estudante da rede pública em São Caetano do Sul, SP, Bruno explica que passou a estudar política por conta própria. “Sinto bastante falta [de incentivo por parte da escola]. Muitos adolescentes com quem convivo não têm interesse. Eles realmente não são obrigados a gostar de política, mas, quando fazem 18 anos, são obrigados a votar”, lembra. “Esse processo da formação para que a pessoa desenvolva sua própria opinião deveria ser papel da escola e não de um tweet, como muitas vezes acontece”, enfatiza.

Quando há preparo

Em uma realidade que se difere da descrita por Bruno, a disciplina de Ética e cidadania é oferecida na grade curricular da Escola Móbile, instituição particular em Moema, SP, para os estudantes do ensino médio. “A ideia dessa matéria é trazer para o aluno os grandes acontecimentos do âmbito político nacional e internacional”, explica o professor Roberto Candelori, 64 anos. 

Roberto Candelori é professor de atualidades da Escola Móbile (foto: arquivo pessoal)

O educador, formado em filosofia pela USP, ressalta que, quando se tratava de política nacional, era notável o pouco conhecimento das turmas de 1º ano em relação ao seu funcionamento. Para despertar o interesse do voto nos estudantes, além das aulas, o colégio também realiza eleições entre as turmas de 6º ano do ensino fundamental e 3º ano do ensino médio.

Roberto relata que, entre as turmas para as quais leciona, a maior parte dos alunos irá votar. “Eles se interessam porque, de certa forma, têm contato com essas temáticas”, reconhece. Ao falar sobre a importância da introdução do jovem à política, o profissional ressalta que a função da escola é de qualificar e formar cidadãos “que possam contribuir para que tenhamos uma sociedade melhor”.

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