Mudanças climáticas: ensinar para as crianças sem despertar medo

É provável que eventos climáticos severos se tornem mais comuns à medida que as crianças de hoje envelheçam. Especialistas dizem que os pequenos podem aprender sobre as mudanças climáticas usando exemplos locais e linguagem simples

Por Ariel Gilreath, The Hechinger Report*, nos EUA: Um número sem precedentes de desastres climáticos nos Estados Unidos aconteceu só em 2021, incluindo um congelamento profundo no Texas, crises de temperaturas escaldantes no noroeste do Pacífico normalmente temperado, uma continuação de incêndios florestais graves na Califórnia e inundações históricas em Nova York, área do furacão Ida.

E as crianças de hoje provavelmente passarão por eventos climáticos mais severos. Um estudo publicado na revista Science estima que meninos e meninas de seis anos de idade passarão por, em média, três vezes o número de desastres climáticos pelos quais seus avós passaram ao longo de suas vidas. 

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Especialistas dizem que é importante falar sobre mudanças climáticas para os pequenos. Mas quão jovem uma criança deve ser para iniciar essa conversa, e como os pais podem navegar na discussão sem assustá-los?

Jeremy Wortzel, estudante de medicina na Universidade da Pensilvânia, e Lena Champlin, estudante de doutorado em ciências ambientais na Universidade Drexel, publicaram recentemente um livro infantil sobre um jovem esquilo preocupado com as mudanças climáticas, produzido com o apoio do Grupo para o Avanço do Comitê de Psiquiatria do Clima. 

Chamado de Fogo de Coco: mudando a ansiedade climática em ação climática (em tradução livre), o livro demonstra como os pais podem conversar com crianças do ensino fundamental sobre o assunto. Abaixo, os autores e especialistas da obra abordam dúvidas comuns que os pais podem ter ao conversar com as crianças sobre o tema.

Lena Champlin pesquisa como os humanos
impactam os sistemas naturais

(foto: reprodução)

Por que os pais devem conversar com os filhos sobre as mudanças climáticas?

Abordar o tópico no início pode dar às crianças alguma clareza sobre as emoções de medo e ansiedade que sentem quando ocorre o aquecimento global ou desastres naturais, diz Wortzel.

“Este é um problema que afeta suas vidas inteiras e afetará as vidas de muitas gerações futuras”, enfatiza Wortzel. 

“É importante para nós informar às gerações mais jovens agora para que sua compreensão e interação com a comunidade científica e a comunidade da mudança climática sejam positivas, e para que sua relação com a ciência e este trabalho de ativismo seja enraizada em um lugar de amor e empoderamento ao invés de medo.”

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As crianças também podem ouvir sobre as mudanças climáticas na escola, na televisão ou de outras crianças – outro motivo importante para os pais iniciarem a conversa mais cedo, de acordo com Janet Lewis, copresidente do Comitê Climático do Grupo para o Avanço da Psiquiatria.

“Há muitos jovens e crianças que realmente se importam e sabem muito sobre as mudanças climáticas, ainda mais do que a população adulta agora. Eles conhecem tanto e têm tantos sentimentos sobre isso que são atores muito poderosos no ativismo pelas mudanças climáticas”, afirma Champlin.

Que idade se pode considerar para falar sobre mudança climática?

Para Wortzel, não há idade certa para as crianças começarem a compreender a mudança climática. “Mas a maneira como você aborda o assunto e a gravidade e a linguagem que você usa têm que mudar conforme [as crianças] crescem.” É igualmente importante, acrescenta ele, fazer com que os jovens se envolvam na natureza, “levando-os para fora o mais cedo possível e falando sobre a beleza e as maravilhas da natureza”.

A chave para falar com crianças pequenas sobre uma perspectiva assustadora, como a mudança climática, é usar uma linguagem que informa ao invés de amedrontar, orienta Lewis. Quando as crianças, e até mesmo os adultos, sentem medo e opressão ao pensar em algo, Lewis acredita que pode ser atraente afastar-se do que quer que esteja causando essa ansiedade. O objetivo é ser honesto de uma forma que não os faça recuar no assunto.

“Isso é o que precisa acontecer com as comunicações sobre as mudanças climáticas: eles obtêm os fatos, mas também estes devem ser comunicados de uma forma que as pes­soas possam se sentir esperançosas de serem capazes de se engajar”, ​​acredita Lewis.

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Qual é um bom exemplo de como falar sobre essas questões?

Pode ser tão simples quanto conversar com as crianças sobre por que não chove há algum tempo ou por que tem havido mais tempestades do que o normal. Isso ajuda a manter os exemplos locais, segundo Champlin.

“Historicamente, muito da educação sobre a mudança climática tem sido: ‘Este é um problema global’. Mas estamos pensando em tentar comunicar a mudança climática de uma forma que fale sobre exemplos locais e ambientes locais que amamos”, alerta Champlin.

Até os aspectos mais assustadores podem ser falados com as crianças, desde que seja feito de uma forma que não induza ao estresse. Deve ser semelhante ao modo como os adultos falam sobre outros assuntos difíceis com os menores, como a morte, de acordo com Elizabeth Haase, que também é copresidente do Comitê Climático do Grupo para o Avanço da Psiquiatria. A ideia é que as crianças que vivenciam a ansiedade climática, seja por causa dos desastres climáticos vividos ou pela exposição ao tema, sairão dela com um crescimento pós-traumático.

“Você passa por uma experiência profundamente dolorosa e, muitas vezes, precisa desmoronar um pouco para chegar ao lugar onde é mais provável que cresça”, acrescenta Haase.

Isso é modelado no livro Fogo de Coco: o jovem esquilo lê uma carta de sua tia, a qual relata que ela evitou por pouco um incêndio florestal. A pequena obra segue Coco e uma “pequena chama de ansiedade em seu estômago”, que acaba se transformando em uma centelha de esperança e ação, com a ajuda de seu pai e uma coruja cientista. O livro também imita maneiras simples de explicar tópicos complexos para crianças mais novas: em vez de dizer “gases do efeito estufa”, a coruja cientista fala com Coco sobre isso como muitas camadas de “cobertores” cobrindo a Terra. 

Na visão de Lewis, essas conversas serão imperfeitas e o mais importante é que a conversa aconteça. “A criança vai se sentir contida pelo fato de o adulto ser capaz de falar sobre isso de uma forma amorosa e honesta”, orienta Lewis. “O pai e o professor estão com a criança. E, dessa forma, a criança pensa: ‘Oh, isso deve ser tolerável. Isso deve ser tolerável porque, olhe, o adulto está tolerando’.”

Em última análise, as crianças devem sair com um senso de urgência sobre o problema, mas com a compreensão de que algo pode ser feito para lidar com a mudança climática – que o futuro não é sem esperança.

*Esta história sobre a compreensão das mudanças climáticas foi produzida pelo The Hechinger Report , uma organização nos Estados Unidos de notícias independente e sem fins lucrativos com foco na desigualdade e inovação na educação. 

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