Professores: saúde mental fragilizada e a desvalorização como regra

Sofrimentos psicológicos de educadores também são oriundos de sua vida profissional — ao invés da pessoal. Com o não reconhecimento, a sociedade agrava e torna ainda mais invisível essa dor

Saúde mental e educação é um dos temas principais dos estudos e pesquisas de Deise Juliana Francisco, que também o desenvolve em formação de professores, pesquisa e extensão universitária. Graduada e licenciada em psicologia, com mestrado em educação e doutorado em informática na educação, é professora na graduação e pós-graduação em educação da Universidade Federal de Alagoas (UFAL).

Deise Juliana faz parte do grupo de pesquisa Saúde mental, ética e educação, vinculado ao programa de pós-graduação em educação da universidade alagoana, que atua junto a professores e, recentemente, a alunos que manifestam sofrimento psíquico tanto no ensino superior quanto na educação básica. Inclusive, pesquisam sobre a saúde mental dos educadores que atuam com inclusão. Os resultados, segundo Deise Francisco, são interessantes, porque verificaram que trabalhar com inclusão é um fator de proteção à saúde mental do professor, pois ele se sente valorizado e reconhecido na sua atuação profissional, na medida em que percebe as aprendizagens dos alunos. Por outro lado, notaram que as atividades burocráticas e a falta de autonomia dos professores são fatores de risco para a emergência do sofrimento do educador no trabalho.

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“Como trabalhamos numa perspectiva social, acreditamos que o contexto afeta muito a saúde mental das pessoas e não podemos ver o sujeito dissociado de seu contexto laboral. Neste sentido, buscamos pesquisar entendendo as condições de trabalho aliada ao sofrimento, sem dissociar estes elementos. Até porque, poderíamos cair na psicologização do mal-estar, o que causa danos e mais sofrimento aos professores. Nosso sofrimento é social e criado nas nossas relações de vida e de trabalho. Por isso, a participação de sindicatos e de outras instâncias coletivas de defesa dos modos de trabalho e contra precarização do trabalho docente são tão importantes”, defende a doutora em educação.

Além disso, ela e os alunos da UFAL dedicam-se a atuar junto aos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) com pessoas em sofrimento psíquico. “Percebemos o quanto a educação está, ainda, afastada de muitos usuários de CAPS, o quanto vários estão afastados da escola e pensei em formar pedagogos para que pudessem alterar esta situação em suas práticas profissionais, em uma disciplina eletiva do curso de pedagogia da UFAL intitulada Saúde mental e tecnologias digitais e na pós-graduação, uma disciplina intitulada Saúde mental e educação.”

Deise Juliana Francisco ainda atua no programa de pós-graduação em cognição, tecnologias e instituições, da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA), no Rio Grande do Norte.

Confira, a seguir, a entrevista que ela concedeu à Educação e que destaca a realidade preocupante que vivem nossos professores. “Abraçar os educadores passa por entender que a problemática não é pessoal, é social”, alerta.

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Entrevista

Você afirma que ainda é um tabu falar sobre problemas mentais. Por quê?

Nossa sociedade foi construída a partir de algumas divisões, uma delas é entre a racionalidade e a irracionalidade, o mundo das paixões. A loucura foi sendo construída como algo perigoso, fora da norma e contra o capital. Michel Foucault discutiu a construção do conceito de loucura como um efeito de relações de saber-poder. Desta forma, o imaginário social está contaminado por ideias como: a pessoa que sofre é perigosa, precisa estar apartada da sociedade, pode causar algum mal. Isto permeou as práticas hospitalares nos manicômios. Além disso, temos um ideal de racionalidade como produtividade e excelência. Estes ideais sociais permeiam nossa subjetividade e fazem-nos não aceitar outras formas de ser e de viver. Este ideal pernicioso faz com que tentemos nos adequar a um ideal patriarcal e capitalístico, excluindo os que não se formatam a este modelo. Ora, com isto, gera-se sofrimento por não nos adequarmos a este ideal.

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Deise Francisco sobre saúde mental: “muitos professores não aceitam ou divulgam o CID de transtorno psiquiátrico para não ficarem estigmatizados na escola, para não serem chamados de loucos” (foto: arquivo pessoal)

Esse quadro gerou tabu, porque as pessoas sentem-se constrangidas, culpadas e com vergonha de ter algo que elas deveriam ser, imaginariamente, capazes de controlar e superar. No ambiente de trabalho alia-se a isto o medo de perda do emprego e da competência profissional.

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Muitos professores não aceitam ou divulgam o CID [Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde] de transtorno psiquiátrico, para não ficarem estigmatizados na escola, para não serem chamados de loucos. Este é, ainda, um problema a ser encarado de forma coletiva pelas instituições de ensino.

Além disto, tem a questão do período de tratamento, em que algumas pessoas começam a fazer atividades de lazer e de práticas esportivas e podem ser vistas pelos colegas de trabalho como não tendo problemas, sendo vistas como preguiçosas. Este é outro desafio a enfrentar. E isto não é privilégio do Brasil não.

Como integrantes do grupo de pesquisa Saúde mental, ética e educação da UFAL, o que tem chamado a atenção de vocês nos últimos tempos?

Temos visto o aumento espontâneo de pessoas que relatam sofrimento na educação, seja alunos, professores, técnicos. Nas redes sociais também acompanhamos casos de professores com exaustão, aumento de ansiedade e insônia, dentre outros sintomas.

Se olharmos mais atentamente, veremos que os relatos são feitos mais frequentemente por mulheres, negros, homoafetivos, transgêneros e outras minorias. Então, vemos que há recortes de gênero, raça/etnia e classe social. Dar visibilidade a isto, neste contexto de pandemia, é muito importante. Sair do registro da meritocracia é também uma necessidade. Seriam estas pessoas mais frágeis? Ou seriam as mais atacadas pelo sistema social? Como dar visibilidade às estratégias de fragilização, de exclusão e de morte social e simbólica que certos grupos sofrem?

A medicalização para quaisquer sintomas é também reflexo de nossos tempos em que não há tempo para sofrer, há de se produzir. A metáfora do corpo como uma máquina para trabalhar perpassa também a saúde mental, pois, se não podemos “perder tempo” com dor de cabeça, poderíamos “perder tempo” com outros sintomas?

Vemos, também, casos de suicídio, de ansiedade em situações de avaliação, especialmente, surtos e outros episódios para os quais a comunidade escolar e universitária não se encontra preparada ainda.

Por que os professores, sejam eles da educação básica ou superior, estão com a saúde mental fragilizada?

A Organização Internacional do Trabalho aponta a categoria docente como sendo a segunda a apresentar doenças ocupacionais, sendo os sintomas psiquiátricos bastante representativos e presentes nos afastamentos do trabalho. Sendo assim, esta não é só uma questão para a educação, esta é uma questão de saúde pública.

A literatura tem apontado que o trabalho docente tem passado por uma precarização e desvalorização crescente por parte da sociedade, com reflexos em baixos salários, grande carga horária de trabalho e muitas tarefas para realizar nos momentos de lazer, diminuição de autonomia no trabalho, excesso de tarefas burocráticas e administrativas. Aliado a isto, cresce o número de funções delegadas aos professores, que antes eram da família ou de outros profissionais, gerando sentimento de desqualificação e, também, sobrecarga de trabalho. Os contratos temporários, a perda de garantias trabalhistas, a falta de autonomia para planejar as aulas, bem como dificuldades no trato com pais e alunos também geram sofrimento, aliados à violência escolar.

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No contexto da pandemia, esta situação se torna mais visível. Espero que a sociedade possa ter sentido “na pele” a importância da educação e da escola na formação dos cidadãos.

A produção do sofrimento é coletiva e a forma de encarar o problema deve ser, também, coletiva.

De forma rápida, como abraçar esses educadores?

Não adianta encaminharmos o professor para atendimento psicológico individual se, após o atendimento, o professor voltar para as mesmas circunstâncias que criaram o quadro de sofrimento. Abraçar os educadores passa por entender que a problemática não é pessoal, é social. Como bem diziam as feministas, “o pessoal é político”, ou seja, as condições de vida são tramadas política e socialmente, mas as sentimos como pessoais, como um efeito dos jogos de poder. É comum ouvirmos “o problema sou eu”, “eu não sou capaz”, etc.  Para abraçar o educador, podemos começar desconstruindo esta proposição, ao colocar que as condições de trabalho são políticas, mas vivenciadas individualmente, entre as paredes do dito mundo privado e psicológico. Sentir o problema como seu é um efeito, um dos mecanismos da invisibilização do sofrimento ou da culpabilização daquele que o sofre.

As formas coletivas de fala, como oficinas, eventos, reuniões pedagógicas, discussões em sindicatos, são indicadas para ampliar a discussão e promover espaços de expressão e de discussão pública, bem como ações intersetoriais. Reforçar os fatores individuais, familiares, escolares e comunitários de proteção e tratar os fatores de risco é importante para fortalecer a rede de atenção à saúde mental.

A formação para a saúde é um campo a fortalecer na formação dos educadores, para que estes possam ficar sensíveis à detecção precoce de questões de saúde mental, não para diagnosticar, mas sim para encaminhar e discutir no coletivo escolar formas de promover saúde. Bem como para promover educação socioemocional para a comunidade escolar.

Pensando em longo prazo, como mudar esse quadro? Qual o papel das prefeituras e governos no caso da educação básica? E no ensino superior?

Temos que atuar de forma a promover a saúde mental na educação e abrir fóruns para criação de políticas públicas que envolvam a causa desde um olhar plural e interdisciplinar. Esta questão é intersetorial, precisando de uma atenção em rede para que possamos atuar no ambiente de trabalho, nas relações de poder instituídas, no fortalecimento do sistema de saúde, nas ações de lazer e arte, na formação universitária e em serviço.

Quando adentramos esta problemática, vemos que ampliar o olhar, pensar nas diferenças e nos modos de operação da exclusão social são tanto diferenciados quanto perniciosos. Envolver o movimento feminista, movimento negro, movimento de inclusão, dentre outros, pode ser uma via interessante, na qual a voz dos envolvidos deve ser ouvida e levada em consideração. Podemos pensar em saúde mental no trabalho da professora, da pessoa com deficiência, da criança, e de outros tantos. Além disso, uma discussão com a sociedade em geral também é relevante.

Com participação social, discussão ampla, divulgação das formas de atenção e busca de estabelecimentos de atenção, criação de políticas públicas, inserção da saúde nos projetos políticos-pedagógicos dos cursos, formação de equipe interdisciplinar e criação de políticas públicas podem ser um bom caminho para promover saúde nas instituições de ensino.

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Uma de suas batalhas é que as escolas também sejam vistas como provedoras de um ambiente de saúde para educadores, colaboradores, alunos e famílias. Você pode explicar um pouco mais dessa sua luta e dificuldades?

As escolas são estabelecimentos com potencial para serem promotoras de saúde mental. Por terem contato com os cidadãos ao longo de seu desenvolvimento, podem acompanhar a saúde mental, promovendo escuta dos alunos em seu desenvolvimento, criar espaços de formação para temáticas como bullying escolar, depressão, desordens alimentares, automutilação, sexualidade, autismo, transtorno de déficit de atenção e tantos outros que podem fazer parte do cotidiano. Da mesma forma, temas próprios aos professores como síndrome de Burnout, transtorno de ansiedade, relações de poder na escola, e outros pertinentes ao trabalho do professor.

Verificamos relatos de professores que parecem, inicialmente, pessoais, mas que vão encontrando eco nas vivências dos outros participantes.  Situações de violência verbal, de assédio moral ficam restritas, na maioria das vezes, aos envolvidos nos episódios. À medida que isto toma corpo e voz, podemos construir formas de encaminhamento.

A luta é para inserir essa pauta na comunidade escolar, para produção de políticas públicas nas quais todos possam ser escutados. As escolas têm um potencial de trabalho com a subjetividade muito grande, abarca muitas pessoas e instituições, podem ser promotoras de saúde mental.

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