Educação: Dilemas, não Violência e Inovação

É preciso resistir à tentação de habitar as ilhas das certezas

Por Rodrigo Bueno de Abreu*: A ilusão de que sabemos qualquer coisa sobre o futuro da educação tem se dissolvido diante de nossos olhos. É difícil manter a resiliência, diante do cenário que se apresenta.  A título de contribuição para esses tempos de grande incerteza, gostaria de compartilhar três de meus mais estimados aprendizados.

O primeiro devo ao professor António Nóvoa que afirma que na educação – e por que não dizer na vida? – todos os dilemas são falsos. Entre ensino ou aprendizagem, entre teoria e prática, entre alta cultura e cultura de massas, entre educar para a sociedade e educar para o mercado, a pedagogia deve orientar-se não por um dos polos, mas justamente na tensão entre eles A sabedoria reside muito mais no percurso, no fluxo, que no destino. Me emociono sempre que lembro do pai, do conto, que decide viver na canoa e com esse ato revolucionário, recusa as margens e reinventa a vida. A arte nos socorre diante dos binarismos estáticos que entendem muito pouco da realidade. A pedagogia e a vida são caminho, tensão. São a terceira margem. São o rio.

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O segundo adquiri no livro do Dr. Marshall Rosenberg, criador ou sistematizador do que se conhece hoje como Comunicação Não Violenta (CNV).  Para viver no rio é preciso saber escutar. Os sons da vida, do corpo, das palavras. E saber procurar entre as muitas camadas de proteção que utilizamos, em vãs tentativas de esconder do mundo nossa fragilidade, nossa vulnerabilidade. A energia preciosa que move nossas ações é a mesma. Somos todos humanos vivendo no mesmo rio. Sobrevivendo no mesmo rio. Empatia, dizia ele, não é se colocar no lugar do outro. Isso é impossível, porque cada um navega como pode. Cada um aprendeu de um jeito. O mesmo rio pode ser muitos. Empatia é reconhecer o valor do encontro. Acolher o aprendizado que ele traz. É poder fazer a mágica de estar na própria canoa mas também na canoa alheia. E entender que a violência é o calar, é atracar a canoa. Parar de navegar por medo, culpa e vergonha. Por maior que seja a dor que o jeito de navegar do outro me provoque, por mais trágico que seja o encontro, existem nele muitas possibilidades. Marshall me ensinou que por trás de cada forma trágica existe a beleza, a pulsão de vida de uma necessidade não atendida.

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Foto: Shutterstock

O terceiro veio do mestre José Pacheco. Assim como navegar é preciso, inovar é preciso. É preciso resistir à tentação de habitar as ilhas das certezas. Estar nas ilhas não é o mesmo que estar no rio. Por mais que tenhamos acreditado que ser educador é o mesmo que educar o outro. Por melhores que fossem nossos métodos e técnicas de aprender e ensinar, é preciso aceitar que nada mais eram que ilhas. Estar no rio é entender que o aprendizado ocorre na conexão, na comunicação. É preciso cuidar dela como se cuida da própria canoa. É preciso abrir espaços, cuidar dos espaços, multiplicar, diversificar os espaços. É preciso facilitar o diálogo humano, democrático e horizontal.  É preciso se debruçar sobre as problemáticas reais, próximas, locais e globais. Ver o rio como parte e como todo.  Entender que nele a conexão supera a razão. No rio quanto mais depressa aprendemos a navegar juntos mais chances temos de sobreviver. Porque aprender é um ato contínuo, dinâmico, permanente e coletivo. É uma postura diante da vida que queremos honrar. É um reconhecimento da nossa incompletude e ao mesmo tempo da importância da arte de viver no rio.

*Rodrigo Bueno de Abreu é professor e mestre em História. Iniciou os estudos sobre CNV com Dominic Barter, aprendiz de Marshall Rosenberg.

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