O que a reportagem me ensinou

Logo que chegamos à Escola Municipal Padre Cipriano Douma, em São Gonçalo
(RJ), a fotógrafa Renata Mazzini e eu estivemos com a turminha da professora
Fernanda Oliveira, do 1° ano do ensino fundamental; entre os alunos, o autista
João Matheus, auxiliado pelo professor de apoio especializado Jéferson Oliveira.
Fernanda havia proposto uma atividade de pintura, a fim de ensinar às crianças
as cores primárias e secundárias. João Matheus estava especialmente interessado
no amarelo, que já identifica e nomeia: ‘malelo’. (Vim a saber que, no período
da tarde, o garoto estava trabalhando as cores, com a professora Verônica
Machado, durante o atendimento educacional especializado.) Num dado momento,
João Matheus se distraiu, levantou-se, veio até mim e me abraçou. Ficamos assim,
naquele terno abraço, durante um tempinho, até o sorridente João se desvencilhar
e voltar para perto de Jéferson. Foi a minha recepção de boas-vindas.

Todos podem aprender
Num
passado não tão distante, as crianças com deficiência mal circulavam fora de
seus ambientes familiares. Foi um período marcado pela invisibilidade e pela
rejeição. Muitos dos preconceitos e das ideias equivocadas que ainda existem
hoje vêm daquele tempo. Aos poucos, surgiram instituições especializadas que
passaram a oferecer atendimento de saúde, tratamentos específicos e assistência
social a essas crianças. Apareceram também as classes e as escolas especiais,
como uma tentativa de proposta pedagógica. Os pais passaram a contar com um
apoio profissional, e meninos e meninas ganharam nova perspectiva de vida. Foi,
certamente, uma conquista.

Mas as duas últimas décadas trouxeram avanços incontestáveis, tanto no
conhecimento científico sobre as potencialidades das crianças com deficiência
quanto na discussão dos direitos delas. Por isso, agora, é preciso avançar.
Vários mitos relacionados ao tema têm sido derrubados gradativamente.
Antigamente se acreditava que a permanência de uma criança autista, cega ou com
síndrome de Down na sala de aula comum “atrapalharia” o aprendizado dos demais
alunos; por isso, seria melhor que ela estivesse “entre iguais”. Hoje já se sabe
que a segregação não beneficia uma criança com deficiência – e não beneficiará
jamais. Ela pode necessitar de tratamentos específicos e de acompanhamento
médico realizados em um estabelecimento exclusivo, e até participar de
atividades lúdicas e artísticas ali; mas, em termos pedagógicos e acadêmicos,
para que tenha suas aptidões reconhecidas e se desenvolva como indivíduo, a
escola comum se revela a melhor opção. Toda criança pode aprender. Daí o grande
desafio atual da educação inclusiva, que não diz respeito só a alunos com
deficiência, mas a todos os estudantes, ao corpo docente e à própria sociedade.
Precisamos, portanto, de novos paradigmas, porque a inclusão vai além da mera
matrícula; significa comprometimento de todos. É o futuro que estamos
construindo que se encontra em jogo nesse processo.

Proposta
revolucionária
Durante a apuração da reportagem, visitei
algumas escolas e constatei que a educação inclusiva é, sim, possível. Encontrei
alunos incluídos de fato – como os casos descritos na edição impressa e também
as histórias de

&gtLuan e Eduardo, por exemplo. Conheci educadores bem-preparados e
sobretudo atentos às necessidades de todas as crianças e comprometidos com um
ensino que contemple a todos. Também tive a oportunidade de estar com gestores
muito conscientes e ouvir depoimentos emocionados das mães. E pude bater longos
papos ao vivo com duas autoridades brasileiras em inclusão, a professora Maria
Teresa Mantoan, da Unicamp, e a advogada carioca Cláudia Grabois, além de
profissional competente e ativista ardorosa, é mãe de quatro filhos – a terceira
deles, Raquel, tem síndrome de Down.

Sou muito grata pela oportunidade de ter acompanhado, de modo tão próximo, um
processo tão revolucionário quanto a inclusão de crianças com deficiência. Sei
que há ainda muita gente bastante reticente quanto ao tema; talvez porque a
concepção de escola, para essas pessoas, seja baseada em ideias estanques,
imóveis, refratárias a mudanças. Se a escola não se aprimora, não absorve o
fluxo da própria dinâmica social, tende a se tornar um espaço excludente, porque
vai admitir apenas aqueles que se encaixam em suas premissas. Tenho esperança de
que continuemos avançando em prol de uma sociedade mais justa, digna e
verdadeiramente comprometida com os direitos humanos. Conviver com as diferenças
é parte inerente à condição humana; foi-se o tempo em que se acreditavam em
discursos sobre a superioridade de certos grupos em relação a outros. Não faz
sentido conceber um mundo de guetos, em que o convívio seja restrito aos ditos
“iguais”. Que bom que as novas gerações já têm contato com a diversidade na sala
de aula logo cedo.