NOTÍCIA

Academia Líderes de Educação

Autor

Sandra Seabra Moreira

Publicado em 18/09/2026

Encontro de Líderes discute educação antirracista e inclusiva

A necessidade de protocolo de atendimento para casos de racismo, o acolhimento às crianças indígenas e imigrantes e as barreiras à aprendizagem para as pessoas com deficiência são aspectos debatidos durante a tarde, no Ciclo 2

Episódios de racismo são recorrentes nas salas de aula e pátios de escolas de todo o país.  Às vezes, têm  suas características escamoteadas. Bullying, ‘brincadeira’, ‘foi sem intenção de’. E, embora recorrentes, “não podem ser tratados como uma ocorrência comum, como se dois estudantes tivessem se desentendido  por causa de uma caneta”, alerta João Gilberto Almeida, gestor escolar, professor, filósofo e escritor. Ele defende que a escola precisa ter um protocolo de atendimento, um dos pilares da educação antirracista, para esses episódios.  

Diogo Dionísio, pesquisador, mestrando em educação e saúde nas infâncias e adolescências pela Unifesp e formador de professores em história e educação para as relações étnico-raciais da rede municipal de São Paulo, conta que a rede lançou seu protocolo no final do ano passado. “O nosso protocolo acabou servindo de inspiração para o governo federal, que também criou um protocolo de prevenção e combate ao racismo. Outras prefeituras também começaram esse movimento.”

Os dois especialistas estarão juntos na Roda de Conversa sobre educação antirracista, no Encontro de Líderes, evento da Academia Líderes de Educação, com realização da revista Educação, que acontecerá em 7 de outubro. A roda abrirá o Ciclo 2 do evento, a partir das 14 horas, e trará como tema principal a pergunta ‘o que a escola precisa fazer em episódios de racismo?’. 

Por mais bem-intencionadas que sejam, há medidas para lidar com os episódios de racismo que não surtem efeito positivo para a criança ou adolescente que os sofre, tampouco tem caráter educativo ao estudante agressor.  João Gilberto exemplifica. “Colocar a vítima e o agressor juntos é  um erro. Muitas vezes o agressor vai se justificar. Imagine alguém na sua frente chorando e pedindo desculpas. Há comoção, mas e a vítima? Essa situação vai causar mais constrangimento para a vítima, que toda hora tem de falar daquele assunto, e o agressor vai se vitimizar. E às vezes a própria vítima vai se sensibilizar e aceitar que é brincadeira.”

 

Leia: O racismo na escola que ninguém quer ver

 

O gestor lembra que toda intervenção na escola é pedagógica, “mas também é educativa. O estudante que comete racismo não será tratado como criminoso, mas ele precisa saber o que fez”. Diferenciar episódios de  bullying e de ‘brincadeiras’ de episódios de racismo é fundamental e também será tema da roda de conversa. Nas formações para professores, João Gilberto enfatiza a responsabilidade da escola, também, em episódios de xenofobia, gordofobia, homofobia.  

Avanços e resistências

“Educação antirracista não é um favor, é um direito que os estudantes têm”, afirma Diogo. As bases estão nas leis 10639, de 2003, que tornou obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana em todas as escolas públicas e particulares do ensino fundamental e médio no Brasil, e 11645, de 2008, que acrescentou a obrigatoriedade do ensino das culturas indígenas.

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Episódios de racismo na escola não podem ser tratados como uma ocorrência comum, alerta João Gilberto Almeida, gestor e professor (Foto: arquivo pessoal)

Nas últimas décadas, os avanços são reais. Por exemplo, na prefeitura de São Paulo há o currículo de educação antirracista, “algo que nem  vislumbrávamos nos anos 1990. Ao mesmo tempo, muitas editoras e livros estão abordando a educação antirracista em todos os componentes curriculares. Muitas prefeituras têm investido em acervos literários de autores negros. É extremamente positivo”, detalha. 

Os retrocessos vêm por conta do enfrentamento à educação antirracista, diz Diogo, “porque passamos a ter uma visão decolonial em relação ao que era ensinado décadas atrás”, explica. “A figura das pessoas pretas, que outrora era retratada no contexto da questão da escravidão, agora é retratada trazendo a herança histórica e cultural, que é parte da nossa matriz afro-brasileira.” Um exemplo é destacar o papel da mulher negra na formação da sociedade brasileira. “Lélia Gonzalez, Djamila Ribeiro e Carla Akotirene são referências que já estão dentro das escolas”, pontua.

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Diogo Dionísio, pesquisador e formador de professores, lembra que a educação antirracista é um direito dos estudantes (Foto: arquivo pessoal)

A religiosidade é outro aspecto que provoca resistências. Diogo lembra do ocorrido na escola paulistana EMEI Antônio Bento, em novembro do ano passado, quando a escola  sofreu denúncias infundadas e de caráter racista, por conta de atividades pedagógicas com o livro Ciranda em Aruanda.  “O livro explica os Orixás da mesma maneira que explicamos a mitologia grega, por exemplo, falando dos elementos da natureza que compõem os Orixás, a importância deles. Não tem como falar de educação antirracista sem falar da religiosidade, que é parte deste contexto.”

 

Leia: Que aprendizagem queremos tornar possível?

 

Desafios da inclusão na educação

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Mariana Rosa abordará a identificação e superação das barreiras à participação e à aprendizagem, em painel do Encontro de Líderes (Foto: Arquivo pessoal)

Mariana Rosa é conselheira do Conselho Nacional de Educação (CNE), militante de movimentos sociais, integrante do Coletivo Feminista Helen Keller e fundadora do Instituto Caue. Pessoa com deficiência, é assessora de escolas das redes pública e privada no tema da educação inclusiva. Ela participa do Encontro de Líderes às 14h50, proferindo palestra em que discutirá os desafios da construção de uma educação inclusiva na escola básica. 

O foco, ela conta, é na identificação e superação das barreiras à participação e à aprendizagem das pessoas com deficiência. “A partir dos princípios de equidade e do direito à educação, serão discutidos os limites de respostas individuais e pontuais diante das demandas dos estudantes. A proposta é pensar como a gestão pode transformar essas demandas em uma política institucional, fortalecendo o trabalho coletivo, a organização dos apoios e as práticas pedagógicas inclusivas.”

Crianças que vêm de outro lugar 

A criança indígena vem de uma cultura em que tudo é feito junto, as pessoas se conhecem, os parentes se visitam.  “Quando chega na escola, os alunos tratam diferente, é difícil fazer amizade e precisa da intervenção do educador, como se ele fosse pai ou mãe mesmo, acolhendo a criança como filho ou parente próximo para a sua socialização”, afirma Cristino Wapichana, escritor, músico, compositor, cineasta e contador de histórias, autor do premiado livro A Boca da noite (Zit Editora, 2018). 

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Para Cristino Wapichana, a autonomia da criança indígena pode ser ensinada às outras (Foto: arquivo pessoal)

No painel Estamos aqui! Como incluir crianças indígenas e imigrantes num lugar novo?, às 16 horas,  Cristino estará com Maísa Zakuck, radialista, autora de Eu estou aqui (Panda Books, 2019), que traz histórias de 12 crianças imigrantes e refugiadas, que deixaram suas casas para viver no Brasil.

Na escola, o educador precisa de traquejo para orientar os alunos no sentido de que a criança que chega vem de uma cultura diferente e que precisa ser respeitada, aponta Cristino. “Aquilo que é errado numa cultura na outra não é. O que consideramos ruim, para outros não é. O educador precisa dessa clareza para tratar sobre isso com as crianças, com os pais, dentro da escola.” Ele destaca que a escola tem papel fundamental na formação do indivíduo, pois “quase um terço do tempo dessas crianças se passa entre educadores”.

A autonomia da criança, característica da cultura indígena, reflete em comportamentos na sala de aula que precisam ser compreendidos. A educação formal, lembra Cristino, na maioria das vezes, é voltada à formação de pessoas que, quando adultas, deverão produzir para outras pessoas. “É uma educação para a competição, as crianças crescem ouvindo isso dos pais e do educador. Nós, indígenas, não. Nós temos autonomia, quando trabalhamos é junto. Não há essa alienação.”

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A radialista Maísa Zakzuk trará a vivência de crianças refugiadas no Brasil (Foto: arquivo pessoal)

Assim, trabalhos e tarefas escolares têm de fazer sentido. “Precisa ser bem explicado para quê o trabalho vai servir,  porque senão a criança pode não aceitar fazer ou fazer pela metade e perder o interesse. A criança indígena é muito autônoma.” Para Cristino essa autonomia pode ser ensinada às outras crianças. 

O Encontro de Líderes

Saúde mental na escola e na vida e diversidade e inclusão são os dois ciclos temáticos do Encontro de Líderes 2026, que acontecerá em 7 de outubro, das 8h às 17h, no Centro Britânico de Pinheiros, na capital paulista.

O Ciclo 1 acontecerá na parte da manhã, com  especialistas debatendo temas da saúde mental, como a hipótese da medicalização da educação, o cyberbullying digital e a epidemia de laudos para transtornos mentais que acomete a escola na contemporaneidade. O temas aqui elencados e comentados fazem parte do Ciclo 2, que acontecerá às tarde. A mediação dos painéis estará a cargo de Natacha Costa, diretora do Colégio Vera Cruz e conselheira da Academia Líderes de Educação. 

Apenas gestores de escolas públicas e particulares membros da Academia Líderes de Educação podem se inscrever gratuitamente em um dos ciclos, ou nos dois. Para conhecer a programação completa e ser inscrever, clique:

Encontro de Líderes 2026

 

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