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Revista Educação

Publicado em 31/08/2026

Anísio Teixeira é homenageado na nova Ocupação Itaú Cultural

Com cerca de 150 itens, a mostra percorre a vida e a atuação do educador e revela desde a sua intimidade familiar até as suas contribuições nas políticas públicas educacionais

A partir do dia 2 de setembro, até 15 de novembro, na Ocupação Anísio Teixeira, o público poderá conhecer a trajetória do educador, um dos signatários do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, de 1932, gestor público, intelectual e defensor de uma escola pública gratuita, laica e universal. Realização do  Itaú Cultural (IC) em parceria com o Itaú Social (IS), a exposição acontece na capital paulista. 

Em 1927, Anísio Teixeira (1900-1971) retornava ao Brasil após estudar nos Estados Unidos. Naquele país, ele absorveu as ideias de John Dewey, conceituado filósofo e inspirador da Escola Nova. Em alto-mar, escreveu ao pai Deocleciano que optava definitivamente por dedicar a sua vida à educação. O gesto marcou o início da trajetória de um dos principais formuladores da escola pública brasileira e precursor da educação integral no país. Em 2024, foi declarado Patrono da Escola Pública Brasileira. 

Nascido em Caetité (BA) no dia 12 de julho de 1900, foi uma pessoa católica e, se não fosse a pressão do pai, teria se tornado jesuíta. Acabou se formando como jurista e educador, tornando-se, mais tarde, escritor. 

“A filosofia da escola visa oferecer à criança um retrato da vida em sociedade, com as suas atividades diversificadas e o seu ritmo de preparação e execução, dando-lhe experiências de estudo e de ação responsáveis”, escreveu Anísio no texto Uma experiência de educação primária integral no Brasil, de 1962.

Anísio Teixeira

Visita de Anísio Teixeira ao Centro Educacional Carneiro Ribeiro, a escola-parque de Salvador (BA). Década de 1950 (Foto: Acervo do Arquivo Histórico do Inep)

 Para Valéria Toloi, gerente de Formação e Fomento do Itaú Cultural, este é um dos preceitos que embasam a educação integral pública como centro de atuação da Fundação Itaú. “Essa é uma das razões que nos estimulou a organizar essa exposição. Toda a construção e articulação de Anísio em torno do tema permanece vivo e pede amplificação ainda hoje”, diz ela. “Ao mesmo tempo, quisemos mostrar para o público a pessoa e a história que está por trás desse educador”, conclui.

“Cultura e educação são forças transformadoras e, quando convergem, potencializam o desenvolvimento de uma sociedade mais democrática, como acreditava Anísio Teixeira. Educação integral não significa simplesmente expandir o tempo na escola, mas, sim, garantir que o aprendizado em si seja integral a partir do desenvolvimento cognitivo, cultural e socioemocional dos alunos”, diz Sonia Dias, gerente de Desenvolvimento e Soluções do Itaú Social. 

A curadoria da mostra pesquisou os arquivos da família Teixeira e do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), no Rio de Janeiro, que abriga a quase totalidade de seu arquivo pessoal. Por fim, selecionou cerca de 150 itens para mostrar o caminho de Anisinho, como era chamado quando criança, da Bahia até sua morte aos 71 anos, no Rio de Janeiro. Cartas, fotografias, documentos, publicações, objetos pessoais e depoimentos gravados com familiares e parceiros apresentam aspectos menos conhecidos da vida do homenageado. 

Entre os destaques do acervo estão o chapéu usado em viagens internacionais, a máquina fotográfica que registrou sua última imagem em vida e a cédula de mil cruzeiros lançada em sua homenagem, que traz sua efígie e uma representação da Escola-Parque de Salvador. 

A exposição

Organizada em cinco núcleos, a mostra parte de uma característica que atravessa toda a sua concepção: a interação, amizade e respeito nutrida entre ele e seus familiares, amigos, intelectuais e autoridades da época. Seja por meio da correspondência trocada, seja por meio de dedicatórias dos autores em seus livros e outros documentos ajudam a construir a narrativa e oferecem uma aproximação direta com o pensamento, as relações pessoais e a atuação pública de Anísio Teixeira. 

 

Anísio Teixeira

Livro Educação como prática da liberdade, com dedicatória do educador Paulo Freire para Anna Christina Teixeira Monteiro de Barros, a Babi, filha de Anísio Teixeira (Foto: Acervo Família Anísio Teixeira)

 

Entre esses escritores, estão Érico Veríssimo, Monteiro Lobato, Thiago de Mello e Jorge Amado; o sociólogo e ensaísta Gilberto Freyre; o historiador e crítico Sérgio Buarque de Holanda; e o compositor e educador musical Heitor Villa-Lobos, entre outros.

 

Leia: A inteligência artificial chegou à escola. Mas quem está formando o professor?

 

O percurso da exposição tem início em Anisinho, núcleo dedicado à esfera familiar. Fotografias, depoimentos de netos e cartas enviadas à esposa, Emília Ferreira Teixeira, revelam um personagem reservado, afeito à convivência familiar e aos livros. Entre os destaques estão registros da casa de Itaipava, no Rio de Janeiro. Ela foi comprada quando as suas duas filhas engravidaram. 

Com a chegada dos netos se tornou o refúgio da família reunida. Entre outras cenas, este espaço é cenário de finais de semana em família, onde habitam as lembranças mais fortes da infância dos netos. Está ali, por exemplo, a última foto feita dele pelo neto Eduardo Teixeira.

 

Anísio Teixeira

Anísio com os netos Mario Celso Junior e Leonardo, que está em ambas as fotos, no colo, 1963 (Foto: Acervo Família Anísio Teixeira)

 

Na sequência, o núcleo Políticas Públicas apresenta sua atuação como formulador e gestor em diferentes momentos do século 20. O espaço apresenta sua participação no Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, de 1932, o trabalho à frente de órgãos públicos ligados à educação, sua passagem pela UNESCO e sua contribuição para a consolidação de instituições que seguem desempenhando papel relevante no país, como o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), que hoje também leva seu nome, e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

 Um dos eixos centrais da exposição é dedicado às Escolas-Parque, projeto que materializou sua defesa da educação integral. Por meio de documentos, fotografias, entrevistas e uma videoinstalação, o visitante acompanha a experiência na Escola Parque 307/308 Sul, em Brasília. O núcleo mostra como Anísio entendia a escola como um espaço de formação ampla, articulando ensino acadêmico, artes, cultura, esporte e convivência social.

 A rede de relações construída pelo educador aparece no núcleo Personalidades. Livros com dedicatórias e autógrafos, cartas e registros documentais evidenciam o diálogo mantido com figuras como Jorge Amado, Darcy Ribeiro, Paulo Freire, Manuel Bandeira e Villa-Lobos, entre outros nomes que participaram da vida intelectual e cultural brasileira ao longo do século passado.

Fechando o percurso, o núcleo Imortal aborda a candidatura de Anísio Teixeira à cadeira 36 da Academia Brasileira de Letras, em 1971. A partir de documentos e materiais inéditos relacionados ao processo, a exposição recupera um episódio interrompido por sua morte precoce naquele mesmo ano e propõe uma reflexão sobre a permanência de seu legado na educação brasileira.

Mais do que revisitar a trajetória de um educador, a Ocupação Anísio Teixeira convida o público a compreender a origem de ideias e estruturas que ainda hoje influenciam o debate sobre educação no Brasil. Especialmente aqueles relacionados ao direito à escola pública e à formação integral dos estudantes.

De 12 de setembro a 15 de novembro de 2026, a exposição permanece aberta das 11h às 20h; aos domingos e feriados, das 11h às 19h e acontece no Piso Térreo do prédio do Itaú Cultural, na Avenida Paulista, 149, próximo à estação Brigadeiro do metrô. A entrada é gratuita. 

 

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