NOTÍCIA

Academia Líderes de Educação

Autor

Revista Educação

Publicado em 03/08/2026

Pais e filhos: reconstruindo vínculos em tempos digitais

Estamos diante de uma geração que cresce em um mundo fragmentado, onde vínculos se desfazem com facilidade. Reconstruí-los exige coragem, presença e novas formas de diálogo

Por Cristina Favaron Tugas*, diretora escolar do Colégio Engenheiro Salvador Arena e educadora parental | O telefone toca. O número é conhecido: a escola do meu filho. Surge a dúvida imediata — atender ou não atender? O coração acelera. “Mais uma reclamação? Mas e se for algo mais sério? Como falar de meu filho quando já não sei como alcançá-lo?” Essa cena cotidiana revela um dilema profundo: estamos diante de uma geração que cresce em um mundo fragmentado, onde vínculos se desfazem com facilidade. Reconstruí-los exige coragem, presença e novas formas de diálogo.

O século XXI trouxe mudanças profundas. A revolução digital aproximou pessoas em diferentes partes do mundo, mas paradoxalmente ergueu barreiras invisíveis dentro das próprias famílias. Hoje, muitos pais relatam que só conseguem conversar com seus filhos por aplicativos de mensagens, incapazes de sustentar o vínculo olho no olho.

O ritmo acelerado dos dias atuais, somado à falsa sensação de bem-estar proporcionada pelas redes sociais, tem afastado pais e filhos. Uns pecam pela falta de atenção, outros pelo excesso, criando dependência emocional. O resultado é uma geração fragilizada, com dificuldades para enfrentar adversidades e resolver problemas.

O impacto das telas na infância e adolescência

O neurocientista francês Michel Desmurget, em A Fábrica de Cretinos Digitais, alerta para os impactos do uso excessivo de telas no desenvolvimento intelectual infantil. Segundo Desmuget, até mesmo exposições aparentemente moderadas, como 30 minutos diários diante de uma tela, já podem afetar esse desenvolvimento. A realidade, porém, é bem mais intensa.

 

Leia: Formação de líderes pedagógicos: aprender a liderar para transformar a educação

 

Levantamentos da Common Sense Media, publicados em 2022 e 2025, mostram que o tempo de exposição às telas cresce conforme a idade. Entre crianças de até 8 anos, a média diária é de cerca de duas horas e meia, chegando a quase três horas e meia entre aquelas de 5 a 8 anos. Entre pré-adolescentes e adolescentes, os índices são ainda mais altos: o uso recreativo de mídias digitais ultrapassa cinco horas por dia entre 8 e 12 anos e chega a mais de oito horas diárias na adolescência, sem considerar o tempo dedicado a atividades escolares.

Vínculos

Para a autora, a escola não pode mais se limitar ao ensino acadêmico e precisa assumir o papel de mediadora das relações familiares (Foto: Arquivo pessoal)

No Brasil, essas estimativas são confirmadas. Levantamentos recentes reforçam a preocupação com o uso precoce e frequente de telas, como na pesquisa da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, em parceria com o Datafolha, divulgada em 2025, que apontou: 78% das crianças de 0 a 3 anos e 94% das crianças de 4 a 6 anos são expostas diariamente a telas, com média de 2 a 3 horas por dia. Entre crianças e adolescentes de 9 a 17 anos, a TIC Kids Online Brasil, do Cetic.br/NIC.br, mostra que o uso da Internet já faz parte da rotina dessa população, especialmente em plataformas de comunicação, vídeo e redes sociais. 

Os efeitos são claros: queda no vocabulário, dificuldade de concentração, prejuízo na memória e até redução do QI em comparação com gerações anteriores.

O papel da escola como mediadora

Diante desse cenário, a escola não pode mais se limitar ao ensino acadêmico. Ela precisa assumir também o papel de mediadora das relações familiares, oferecendo suporte e orientação aos pais.

Investir em educação parental é uma estratégia poderosa que fortalece famílias e prepara crianças para enfrentar adversidades. Programas de acolhimento e rodas de conversa criam espaços de escuta, onde pais compartilham angústias e aprendem estratégias práticas.

 

Leia: António Nóvoa discute o papel da escola na educação do futuro

 

O programa Arena e Família, do Colégio Engenheiro Salvador Arena, em São Bernardo do Campo, vem proporcionando essa aproximação entre escola e família há alguns anos. Por meio de encontros temáticos variados,  como o uso excessivo de telas, resolução positiva de conflitos, estilos parentais e fases do desenvolvimento, a escola promove diálogo e oferece ferramentas para que os pais se sintam mais preparados em seu desafio de educar.

Para nós, o dilema é claro, mas não basta reconhecer o problema, é preciso agir. Algumas ações do programa incluem criação do programa de educação parental, promoção de rodas de conversa regulares com temas atuais, valorização da escuta ativa, permitindo que pais expressem suas angústias sem julgamento, formação de parcerias com especialistas e incentivo às práticas de convivência que resgatem o valor do olho no olho, da leitura compartilhada e do brincar livre.

O impacto das telas e das transformações sociais exige respostas urgentes. Se não oferecermos às famílias apoio e orientação, estaremos formando jovens emocionalmente frágeis e intelectualmente prejudicados.

 

Vínculos

O ritmo acelerado dos dias atuais, somado à falsa sensação de bem-estar proporcionada pelas redes sociais, tem afastado pais e filhos (Foto: Shutterstock)

A boa notícia é que há caminhos. Programas de educação parental, espaços de escuta e acolhimento, e o compromisso das escolas em serem parceiras das famílias. Cabe a nós, gestores escolares, liderar esse movimento, inspirando mudanças que fortaleçam não apenas os alunos, mas toda a comunidade educativa.

Como lembra o educador e psicanalista Leo Fraiman no livro Meu filho chegou na adolescência, e agora?, “cuidar dá trabalho, sim. A questão é que não cuidar custa muito mais lá na frente”

Cada ligação da escola pode, portanto, deixar de ser motivo de medo e se transformar em uma oportunidade de construir pontes, reconstruir vínculos e favorecer uma relação mais próxima, consciente e afetiva entre pais e filhos.

* Cristina Favaron Tugas é pegagoga com especialização em psicopedagogia, MBA em Gestão Escolar e mestra em formação de professores e gestores.

 

Este artigo foi originalmente produzido para a Academia Líderes de Educação, hub da revista Educação para diretores de escolas públicas e privadas. Conheça e faça parte:

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