NOTÍCIA
Livro reúne diferentes vozes para refletir sobre os desafios enfrentados pelas crianças na contemporaneidade
“A infância é um chão que pisamos a vida inteira.” (Lya Luft)
Por Claudia Xavier e Luciana Lapa | Nenhuma decisão pedagógica é neutra. A forma como uma escola organiza seus tempos, espaços, currículos, processos avaliativos e relações revela os valores e a concepção de criança e de aprendizagem que orientam sua prática. Foi a partir dessa compreensão, construída ao longo de nossas trajetórias como gestoras educacionais, formadoras de professores e pesquisadoras das práticas educativas, que organizamos a obra Infâncias: Itinerários trilhados para a vida.
O livro reúne diferentes vozes para refletir sobre as múltiplas formas de viver a infância e sobre os desafios enfrentados pelas crianças na contemporaneidade. Em uma agenda educacional marcada por indicadores de desempenho, inovação, tecnologia e resultados, falar sobre infâncias pode parecer um tema restrito à Educação Infantil. No entanto, compreender as infâncias é uma competência indispensável para toda liderança educacional.

A obra celebra a infância em sua beleza, complexidade e potência, reunindo educadores e pesquisadores em uma reflexão plural sobre as experiências infantis e os desafios contemporâneos da educação (foto: Divulgação)
O gestor escolar não administra apenas processos: ele constrói cultura institucional, influencia práticas pedagógicas e cria condições para que determinada concepção de educação se materialize no cotidiano. Por isso, conhecer as crianças, seus contextos, suas formas de aprender e suas necessidades é uma responsabilidade de todos aqueles que lideram instituições de ensino.
O título da obra nos convida a reconhecer que não existe uma única infância, mas infâncias plurais, constituídas pelas relações familiares, culturais, sociais e históricas que marcam cada trajetória. Essa compreensão deve orientar decisões relacionadas ao currículo, aos espaços escolares, à avaliação, à formação dos educadores e ao relacionamento com as famílias.
Toda escolha institucional comunica valores e produz marcas na experiência dos estudantes. A Base Nacional Comum Curricular e as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil reconhecem a criança como sujeito histórico e de direitos, reafirmando o compromisso com seu desenvolvimento integral. Essa perspectiva ganha concretude no campo de experiência ‘;O eu, o outro e o nós’, que evidencia que a identidade se constrói nas relações. Piaget, Wallon e Vygotsky demonstram que o desenvolvimento humano acontece na interação com o outro, por meio da convivência, do diálogo, da cooperação e da mediação dos conflitos.
Assim, liderar uma escola significa criar condições para que essas experiências façam parte da cultura institucional. A convivência ética, a escuta, o respeito às diferenças e o desenvolvimento socioemocional não são aspectos periféricos do currículo; constituem parte essencial da formação humana e precisam ser sustentados pelas decisões da gestão.
Esse compromisso torna-se ainda mais urgente diante das transformações da sociedade contemporânea. As crianças crescem em um contexto marcado pela velocidade, pela intensa presença das tecnologias, pelo excesso de informações e pela redução das oportunidades de brincar livremente. Embora tenham maior acesso ao conhecimento, convivem também com desafios relacionados à ansiedade, às dificuldades de concentração e à fragilização das relações presenciais.
Mais do que competência administrativa, a liderança educacional exige sensibilidade para compreender essas mudanças e criar ambientes que favoreçam vínculos, experiências significativas e aprendizagens que respeitem o tempo da infância.
É justamente essa reflexão que orienta Infâncias: Itinerários trilhados para a vida. Fruto do encontro entre educadores e pesquisadores, a obra reúne diferentes perspectivas sobre temas como desenvolvimento integral, literatura, protagonismo infantil, aprendizagem ao ar livre, matemática étnico-referenciada, sexualidade, tecnologia e brincar.
Ao reconhecer que existem muitas infâncias, o livro convida líderes educacionais a revisitar suas próprias concepções e escolhas. Afinal, compreender as infâncias é compreender o sentido mais profundo da escola: criar condições para que cada criança viva plenamente sua infância, construa sua identidade e desenvolva, com autonomia e humanidade, seu próprio itinerário de aprendizagem.
Infâncias: Itinerários trilhados para a vida
Prefácio: Priscila Bandini Azevedo
Coordenação: Claudia Xavier, Luciana Zobel Lapa e Roberta G. Chaves
Autores: Vários
Editora: BOC
Ano de publicação: 2025