NOTÍCIA

Entrevistas

Autor

Laura Rachid

Publicado em 16/06/2026

Saúde mental: “Não é papel do educador diagnosticar nada”

Psiquiatra esclarece o que é responsabilidade da área da saúde e o que é da escola no suporte de TDAH, autismo e outras condições. Ele também dá dicas institucionais para a promoção do bem-estar docente

Autor do livro Saúde mental na escola: o que os educadores devem saber (ed. Artmed), o psiquiatra Gustavo Estanislau tem larga experiência nesse tema, seja por meio de formações para educadores e educadoras, ou por palestras e consultorias. Atuante na área há pelo menos 20 anos, ele afirma que, atualmente, mais do que um aumento de casos, o que tem prevalecido na população é um maior número de diagnósticos de transtornos psiquiátricos e neurológicos — os motivos são apresentados nesta entrevista.

Pesquisador e consultor técnico no Instituto Ame sua Mente, a seguir, ele dá dicas para a promoção da saúde mental docente, divididas em intervenção individual e institucional, que vão desde mais intervalos curtos ao longo do dia à criação de um espaço de acolhimento e trocas.

Gustavo é um dos palestrantes do evento da Academia Líderes de Educação (iniciativa da revista Educação), que acontecerá em 7 de outubro, na capital paulista. Confira a entrevista.

 

A profissão docente é tida como uma das mais propensas a desenvolver síndrome de burnout. Quais intervenções podem ser implementadas pelas escolas para combater o adoecimento docente?

Podemos dividir as intervenções em dois aspectos, o institucional e o individual. No aspecto individual, as escolas têm começado a levar informações sobre saúde mental aos educadores com uma certa frequência. Quando o educador conhece um pouco mais sobre saúde mental, consegue identificar dentro de si sinais de sofrimento — como ansiedade, estresse, depressão — e, então, busca ajuda visando estabelecer medidas de autocuidado.

No ponto de ensinamentos, há uma série de intervenções que podem ser feitas, como a disseminação de conhecimento sobre como dormir melhor; como se alimentar melhor; a importância do exercício físico; meditação; a compreensão dos impactos da tecnologia na saúde mental, que acaba sobrepondo uma série de atividades. Essa sobreposição de atividades aumenta o estado de alerta associado ao estresse. E o estresse é fio condutor para que uma pessoa comece a ter problemas de saúde mental, sendo que, quando vai se estendendo, pode cronificar e gerar até burnout. Bom, esses apontamentos são questões de autocuidado que podem ajudar bastante, mas que não são suficientes se não houver modificações institucionais.

 

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E quais são as intervenções institucionais?

Dentre as medidas institucionais, se descobriu que fazer mais intervalos de cinco minutos, 10 minutos ao longo do dia é mais interessante do que fazer um intervalo grande. Porque o tempo curto vai reduzindo os níveis de estresse diário. Permitir desligar o celular no final de semana e não responder e-mails fora do horário de trabalho também são outras medidas interventivas que algumas escolas já estão fazendo.

Outro aspecto é o de escolas que têm incentivado espaços de diálogo entre educadores para que se fale de problemas, sofrimentos, sentimentos. É um espaço em que se deságua um pouco daquela ‘carga pesada’, momento de trocar experiências e buscar estratégias conjuntas para se chegar a algum lugar. 

Outra medida fundamental é a valorização do papel do professor, que pode ocorrer desde um trabalho junto às famílias de resgatar esse reconhecimento, assim como o próprio reconhecimento da instituição a partir de um trabalho bem feito, por exemplo.

O acesso à ajuda especializada também é fundamental e pode ser feito a partir da divulgação do contato de clínicas. O que vem acontecendo é que o educador acaba sofrendo calado; com isso, o nível de estresse vai aumentando e, quando precisa de ajuda, não raro já necessita de um suporte mais especializado e às vezes até com afastamento. O ideal é que o educador busque isso mais cedo, tendo um acompanhamento mais tranquilo e, às vezes, até com estratégias mais simples do que buscar um psiquiatra.

 

O que já presenciou, como as escolas/pessoas estão lidando com o tema saúde mental, na sua experiência no Instituto Ame sua Mente?

Falar de saúde mental ainda é um assunto negligenciado nas escolas. O Instituto Ame sua Mente surge para trazer informações com embasamento científico, mas em linguagem acessível a educadores, permitindo a identificação de sinais de sofrimento neles mesmos e nas pessoas que estão à sua volta para, a partir disso, tomarem atitudes.

A ideia não é que o educador saia sabendo fazer um diagnóstico ou para que serve uma medicação. O objetivo é adquirir noções que permitam que ele identifique sofrimento e adote estratégias para aquele momento. Precisamos ter informação boa que possibilite reduzir o preconceito dos transtornos mentais dentro da sala de aula para que as pessoas possam falar cada vez mais da sua saúde mental e buscar ajuda, quando necessário.

 

Estamos numa epidemia de transtornos mentais e emocionais entre jovens e adultos?

O aumento de ansiedade e depressão vem ocorrendo mesmo antes da pandemia, juntamente com outros transtornos como TDAH. Com o autismo, por exemplo, vemos uma elevação na prevalência de casos. De fato, há um aumento nas taxas de transtornos mentais, incluindo, aqui, crianças menores de 10 anos.

Por outro lado, é importante entender que o aumento na prevalência desses casos, em grande parte, se deve ao fato de as pessoas estarem entendendo melhor  sobre saúde mental e conseguirem detectar com um pouco mais de precisão casos mais sutis. Por exemplo, quando eu trabalhava em CAPS (Centros de Atenção Psicossocial), há 15 anos, era comum receber casos de crianças com 10 anos, 12 anos com autismo de nível três, e que nunca tinham passado num psiquiatra, num psicólogo. Isso acontecia porque as pessoas não tinham um nível de conhecimento. Hoje em dia isso melhorou. Então, em parte, esse aumento se deve à detecção de casos. Contudo, vemos crianças que não têm a possibilidade de brincar livremente [o que pode gerar ansiedade e depressão]. O brincar é um fator protetor muito importante.

Outra questão é que, na década de 80, 90, as famílias eram grandes, com muitos irmãos, tias e primos. Havia suporte familiar para alguma dificuldade. Hoje, as configurações familiares são diferentes, não há esse mesmo nível de suporte, o que pode gerar níveis de estresse maiores.

 

Saúde mental

Para o psiquiatra, o aumento de casos de ansiedade, depressão  e outros transtornos se deve ao fato de as pessoas estarem entendendo melhor  sobre saúde mental (Foto: Arquivo pessoal)

Ainda sobre essa epidemia, e a tecnologia?

O excesso de tecnologia também tende a provocar estresse, problemas de sono, aumento no peso — alterações importantes na composição física da criança e uma redução no desenvolvimento de habilidades que são básicas. A criança que não aprende a chutar uma bola, a dançar é uma criança que, antes de tudo, pode ficar afastada da vida social e não aprender habilidades sociais que são fundamentais como fator protetor de saúde mental. Uma criança que tem mais habilidades sociais se conecta mais e quem tem mais rede de suporte, de apoio, de amizades, acaba tendo um fator protetor importante.

Também entendo que temos vivido um momento de muito pessimismo por parte dos adultos. Todos esses fatores podem aumentar o risco de ansiedade, depressão e outros problemas de saúde mental, como o TOC (Transtorno Obsessivo-Compulsivo).

 

O que tem prevalecido: aumento no diagnóstico desses transtornos psiquiátricos e neurológicos ou aumento na causa?

O diagnóstico é citado pelos especialistas como a principal razão para o aumento nos índices de prevalência. Detectamos cada vez mais cedo a ansiedade. Até 15 anos, 20 anos atrás, se acreditava que as crianças não tinham transtornos mentais, que a infância era um período em que não acontecia isso.

 

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Como as escolas estão lidando com o grande aumento no número de crianças e adolescentes identificados com autismo, TDAH e outros diagnósticos?

É importante não ficar num papel só de julgador das escolas. Destaco que vivemos um aumento desses tipos de casos, um aumento de laudos, bem como vivenciamos um aumento na pressão de pais e comunidade como um todo para que a escola dê conta de coisas que, às vezes, não são de responsabilidade da escola. Nisso, vemos a desvalorização do professor na comunidade, como também vemos professores cansados. O primeiro ponto é considerar o quanto esse cenário é complexo.

Também é fundamental refletir: a partir do conhecimento adquirido sobre saúde mental, quais intervenções posso aplicar? Isso varia de escola para escola, de momento para momento, de situação para situação. Vejo escolas que já conseguem fazer intervenções um pouco mais embasadas em evidências, por exemplo, antibullying; enquanto também existem escolas solicitando palestra sobre suicídio no período do Setembro Amarelo, que é uma coisa que não é para ser feita porque é iatrogênica, ruim. Então, noto as escolas tentando se adaptar e tentando evoluir nesse sentido, mas ainda temos um grande chão pela frente.

E as escolas com psicólogo?

Essas saem um pouquinho na frente. Embora, do ponto de vista de políticas públicas, mesmo quando as escolas têm um psicólogo, às vezes, espera-se que esse profissional faça coisas que ele não pode fazer. Por exemplo, terapia com os alunos, ou acreditar que o psicólogo vai conseguir dar conta de duas, três escolas. Às vezes temos um professor para duas, três escolas. Ou seja, o papel do psicólogo acaba sendo, nesses casos, limitado.

Estamos evoluindo — mas o cenário continuará complicado porque as transformações estão ocorrendo muito rápido. É necessário coragem por parte das escolas para testar medidas, avaliá-las. Nesse sentido, ainda precisamos de pesquisa para estabelecer, por exemplo, o que que funciona do ponto de vista de inclusão e o que não funciona.

 

Em relação à saúde mental dos alunos, bem como na possível identificação de algum transtorno do neurodesenvolvimento, o que é responsabilidade da área da saúde e o que é responsabilidade da escola?

Uma coisa importante é mostrar que não é papel do educador diagnosticar nada. Costumo dizer que nós, profissionais da área de saúde mental, estudamos seis anos, 10 anos, 12 anos sobre esses assuntos e ainda assim temos certa dificuldade na realização de alguns diagnósticos. Imagine o educador. Então, a primeira coisa importante é frisar o que não se deve fazer. Por outro lado, o papel do educador é o de estar presente no momento, de estar atento às características do aluno, atento à necessidade de acolhimento que esse aluno pode necessitar em determinadas situações — o que já é importante no quesito de promoção da saúde.

É ainda papel do educador identificar padrões de autocuidado que possam ser interessantes, uma vez que ele é, de certa forma, um porto seguro do aluno, o auxiliando na autorregulação. Um educador com mais informações consegue identificar níveis de sofrimento que o aluno apresenta. Por exemplo, de uma hora para outra o aluno pode se isolar, ficar mais agitado, mudar a postura na apresentação de um trabalho, demonstrar queda na produtividade em sala da de aula, ou evadir.

Quando o educador percebe esses pontos de sofrimento, o seu papel é comunicar à gestão, para que a mesma faça um encaminhamento à equipe de saúde mental. Então, o educador tem de estar presente, identificar sinais de sofrimento e fazer o encaminhamento assim que seja necessário. Mas sempre tendo também um suporte, que pode ser a gestão. Lembrando que cada criança tem suas particularidades, seu potencial e que existe, obviamente, uma diferença de funcionamento entre as crianças; mas, aqui, a grande questão é identificar a diferença que está associada com o sofrimento, com o prejuízo e, consequentemente, queda na dificuldade de interação social.

 

Recentemente, universidades na Coreia do Sul deixaram de matricular alunos com histórico de bullying escolar. Como avalia essa medida?

Essa medida é delicada porque uma pessoa que comete bullying  não necessariamente pode ser uma pessoa que vai continuar fazendo bullying. O bullying é um fenômeno social que é capaz de ocorrer numa situação muito específica, como numa escola em que um aluno que comete bullying o faz por se sentir forçado pelos amigos a funcionar daquela maneira. Ou seja, pode ser que apenas naquela época, naquela fase de desenvolvimento, ele teve menos capacidade de elaboração verbal, e acabou atuando de forma mais agressiva para se posicionar. Como também pode ter passado por algum momento específico em casa ou na escola, levando-o a funcionar dessa forma. [Decisões como essa] podem fazer com que esse aluno continue pagando um preço por algo que, mesmo sendo grave, pode trazer prejuízos a todo o transcorrer de sua vida.

Por outro lado, principalmente quando se fala de crianças que estão no ensino fundamental 1 e 2, elas não costumam ter noção a longo prazo de causa e consequência, ou seja, não têm percepção de que, se cometerem bullying, lá na frente não terão vaga na faculdade. Então, tal medida de alerta [das universidades] deveria ser mais bem pensada.

 

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