NOTÍCIA

Gestão

Autor

Redação revista Educação

Publicado em 27/05/2026

Liderança para a convivência

O gestor escolar precisa desenvolver, em sua formação, competências específicas para compreender as dinâmicas relacionais de sua comunidade

Por Aline Evangelista Martins* | Há um momento na vida de toda criança em que o mundo se expande. Até então, as regras eram as da casa: os ritmos da família, os acordos tácitos entre irmãos, a autoridade dos pais. Então, a escola aparece — e com ela, uma descoberta fundamental: existem outras crianças, com histórias diferentes, hábitos diferentes, formas diferentes de ver e estar no mundo. E é preciso conviver com todos elas. Depois da família, a escola é o primeiro e mais importante laboratório de convivência da vida humana.

É ali que a criança aprende, muitas vezes pela primeira vez, que as regras podem ser diferentes das de casa — e que precisam ser negociadas, compreendidas e respeitadas coletivamente. É ali que ela descobre que pensar junto é diferente de pensar sozinho, que colaborar exige ceder, e que pertencer a um grupo implica responsabilidades que vão além dos próprios desejos. Essas não são aprendizagens secundárias. São, em muitos sentidos, as mais duradouras que a escola oferece.

 

Depois da família, a escola é o primeiro e mais importante laboratório de convivência da vida humana (Foto: Pexels)

 

Por isso, a convivência não é um pano de fundo da vida escolar — é parte de seu núcleo. Sendo central para a experiência dos estudantes, também deve ser para a formação de quem lidera a escola, requerendo gestão sistêmica — intencional, planejada e coerente com os princípios de inclusão, equidade e justiça que devem orientar as práticas educativas.

Isso significa que o gestor escolar precisa desenvolver, em sua formação, competências específicas para: compreender as dinâmicas relacionais de sua comunidade; construir, com a participação de todos os atores escolares, acordos e protocolos de convivência; intervir de forma pedagógica — e não apenas punitiva — diante de conflitos; e criar estruturas que favoreçam a participação de estudantes, docentes e famílias nos processos de decisão que afetam a vida coletiva.

 

Leia: Obsessão por resultados e o esquecimento do processo educativo

 

Nessa perspectiva, formar gestores para a convivência significa ir além do repertório técnico-disciplinar. É relevante buscar formações que privilegiem o estudo de casos reais, a discussão coletiva de problemas concretos, a observação e a reflexão sobre a própria prática, e a construção conjunta de estratégias e soluções, sempre com respaldo de sólidas referências acadêmicas e mediação qualificada.

Há uma coerência que não pode ser ignorada: se a convivência se aprende convivendo, então a formação de gestores para essa tarefa não pode prescindir de experiências reais de colaboração entre pares. Um gestor que participa de redes profissionais — que debate, discorda, constrói acordos e aprende com colegas de contextos diferentes — não apenas amplia seu repertório. Ele internaliza, na própria prática, o que cultiva em sua escola.

 

* Aline Evangelista Martins é formadora e coordenadora do Centro de Formação da Vila. Bacharel em letras e jornalismo, é especialista em avaliação de programas e políticas públicas e mestre em educação, com pesquisa sobre formação do leitor literário. Atua também como consultora em educação para o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF). 

Referências:

DINHAM, S. How to Get Your School Moving and Improving. Melbourne: ACER Press, 2008.

FULLAN, M. The Principal: Three Keys to Maximizing Impact. San Francisco: Jossey-Bass, 2014.

HALLINGER, P.; HECK, R. H. Collaborative Leadership and School Improvement: Understanding the Impact on School Capacity and Student Learning. School Leadership & Management, v. 30, n. 2, p. 95-110, 2010.

LEITHWOOD, K. et al. Seven Strong Claims About Successful School Leadership. Nottingham: National College for School Leadership, 2006.

OCDE. Melhorando as Escolas: Estratégias para a Ação no México. Paris: OCDE, 2010.

UNESCO/IIPE. Learning to Lead: A Handbook on School Leadership Development. Paris: UNESCO-IIPE, 2023.

UNESCO. Convivência Escolar: Um Olhar a Partir da Gestão Educacional. Santiago: OREALC/UNESCO, 2020.

WAHLSTROM, K. L. et al. Learning from Leadership: Investigating the Links to Improved Student Learning. Minneapolis: University of Minnesota, 2010.

 

Revista Educação: referência há mais de 30 anos em reportagens jornalísticas e artigos exclusivos para profissionais da educação básica

 

Ouça nosso podcast no Spotify:
Comunidade aprendente: escola e família em parceria

 

 


Leia Gestão

pexels-rdne-8363017 (1)

Liderança para a convivência

+ Mais Informações
Financial,Literacy,And,Education,Concept.,Human,Hands,Climbing,The,Ladder

É hora de pensar na precificação de 2027

+ Mais Informações
Multi,Ethnic,High,School,Students,Focused,On,Writing,Exams,In

Proficiência vs. crescimento: o debate na educação dos EUA

+ Mais Informações
pexels-hanna-alves-1907982668-28812535

Saúde mental na escola: por que falar de esperança se tornou urgente

+ Mais Informações

Mapa do Site