Jornalista, educador e escritor. Mestre em inteligência artificial e ética pela PUC-SP e apresentador do Idade Mídia (Canal Futura)
Publicado em 15/05/2026
A principal precaução que escolas, educadores e famílias devem adotar ao abordar esse tema é evitar a associação automática entre os ‘atalhos’ do mundo digital e a ideia de ganho pessoal
Tarefas repetitivas, manuais — ou aquelas que, sob a lógica contemporânea, são percebidas como ‘desperdício’ de tempo — vêm sendo progressivamente reclassificadas como sinônimo de ineficiência, tanto no campo da educação quanto no do trabalho. À medida que tecnologias se integram ao cotidiano, como a estruturante inteligência artificial (IA), intensifica-se também uma racionalidade produtivista que transforma o tempo em variável a ser otimizada, e não vivida. Nesse contexto, um universo do trabalho orientado pela performance passa a canalizar o uso dessas tecnologias quase exclusivamente para ganhos de eficiência, reduzindo processos complexos de aprendizagem, criação e experiência a métricas de rendimento
Insisto que ‘tempo’ nem sempre pode ser confundido com crise. Há duas questões importantes a serem consideradas sobre os atalhos que a cultura digital insiste em valorizar na vida cotidiana. A primeira é acelerar, delegar ou simplesmente pular etapas e processos sem considerar que há custos cognitivos e semânticos para o desenvolvimento humano. A segunda é crer, sem criticidade, na cultura do ‘curse você mesmo’ ou até no ‘estude sem esforço’ como solução para o encaminhamento profissional.
No primeiro caso, já bem debatido, podemos considerar que o processo de democratização das tecnologias transformou o dígito em uma nova caligrafia. Pesquisas acadêmicas têm mostrado que escrever à mão, corrigir o erro de forma analógica e fazer anotações em cadernos criam relações mais profundas e duradouras com o conhecimento e a linguagem — com destaque para um celebrado estudo norueguês que demonstrou a ativação de áreas do cérebro exclusivamente dependentes da letra cursiva. Por conta de evidências como essa, desde 2014, mais de 20 estados estadunidenses têm retomado aulas de caligrafia no currículo, movimento liderado pela Califórnia.
Num olhar um pouco mais profundo, a criação (de textos, imagens ou vídeos), com uso intenso de inteligência artificial, tende a transformar a criatividade em algo distante da própria identidade humana. Há um vínculo entre criatura e criador — tão esmiuçado em Frankenstein, de Mary Shelley — que está se perdendo.
No ensaio Do ser ao fazer, o psicanalista argentino Isidoro Berenstein recupera o que, de maneira sutil, Marshall McLuhan já dissertava sobre as criações textuais: parte da identidade de quem cria está no objeto criado. Trata-se do fenômeno da vinculação. Quando pedimos um texto pronto ao ChatGPT, nos desvinculamos do que é produzido e, de certa maneira, enfraquecemos processos de aprendizagem para a construção da nossa produção.
O reconhecido trabalho em robótica com sucata, da também colunista da revista Educação Débora Garofalo, devolve à bricolagem um valor tão essencial quanto à programação. Em outras palavras, também se aprende com as mãos.
Esse ‘fazer artesanal’, e o vínculo que dele decorre, são recuperados e valorizados também pelo educador Bruno Andreoni, em seus artigos, cursos e projetos sobre o que ele chama de ‘IA – inteligência artesanal’. “A inteligência artesanal é uma celebração da relação e pode ser um convite para uma observação viva e envolvida com o entorno, orientando ações no mundo a partir do que se vê, da criatividade e do criar”, acredita.A inteligência artesanal merece, em breve, um artigo mais aprofundado nesta mesma coluna Midiática.
A outra crise ligada ao tempo diz respeito ao mito da ‘self-made person’. Em poucas palavras, trata-se da ideia de que pequenos cursos, muita determinação e um talento quase divino são suficientes para que estudantes se tornem profissionais promissores e enriqueçam com facilidade.
É no bojo dessa desinformação que está, também, o descrédito na universidade. Desconstruindo essa narrativa, dados do último relatório de ensino superior da OCDE mostram que brasileiros de 25 a 64 anos que concluem o ensino superior ganham, em média, 148% a mais do que aqueles que têm apenas ensino médio. Essa diferença é superior à média dos países da organização, cujo ganho médio é 54% maior.

Crer, sem criticidade, na cultura do ‘curse você mesmo’ ou do ‘estude sem esforço’ é uma das questões trazidas pelos atalhos da cultura digital (Foto: Shutterstock)
Os fundadores e CEOs das ‘big techs’, ídolos de parte dos estudantes, contribuem para a propagação desse mito ao alimentarem a história simplória de que suas empresas nasceram em garagens, criadas por jovens que abandonaram os estudos. Com uma pesquisa simples, é possível constatar que a maioria tem uma trajetória que combina formação universitária — muitas vezes em nível de pós-graduação — com elementos menos convencionais.
Por exemplo, Sundar Pichai, da Google e Alphabet, possui mestrado em Ciência dos Materiais pela Universidade Stanford e MBA pela Wharton School. Tim Cook, da Apple, é formado em Engenharia Industrial pela Auburn University e tem MBA pela Duke University. Satya Nadella, da Microsoft, possui mestrado em Ciência da Computação pela University of Wisconsin–Milwaukee e MBA pela University of Chicago. Já Elon Musk, ligado à Tesla e à SpaceX, tem bacharelado em Física e Economia pela University of Pennsylvania.
A principal precaução que escolas, educadores e famílias devem adotar ao abordar esse tema é evitar a associação automática entre os ‘atalhos’ do mundo digital e a ideia de ganho pessoal. É verdade que a inteligência artificial pode nos poupar de tarefas enfadonhas, liberando tempo cronológico. No entanto, nem todo tempo é da mesma natureza. A tradição grega distingue o tempo mensurável, cronológico, daquele qualitativo e oportuno — o Kairós —, que corresponde, entre outras dimensões, ao tempo da aprendizagem, da elaboração e da experiência signifi cativa. É precisamente esse tempo que não pode ser comprimido sem perdas.
Ao reduzir processos a atalhos, corre-se o risco de esvaziar o sentido das ações e fragilizar a relação do sujeito com aquilo que produz e aprende. Nesse horizonte, como observa o filósofo italiano Luciano Floridi, a escola permanece como um espaço privilegiado para a construção de ‘capital semântico’. Estudar, pensar e criar parecem-se ainda as melhores formas de ‘ganhar’ tempo — e, sobretudo, significado.