NOTÍCIA

Edição 321

Autor

Revista Educação

Publicado em 14/05/2026

Milton Santos, o imortal geógrafo brasileiro

Celebrando o centenário e obra revolucionária e libertária de quem ensinou muito sobre a formação intelectual, a disciplina do trabalho docente, do pesquisador e a elegância acadêmica

Por Maria Adélia A. de Souza*| Em 3 de maio de 1926 nascia no sertão baiano, em Brotas de Macaúbas, Milton Almeida dos Santos. Em Salvador, aos 22 anos formava-se em Direito, profissão que abandonaria definitivamente em 1958, quando defendeu sua tese de doutorado em Geografia, na Universidade de Estrasburgo, na França, orientado por seu mestre e amigo professor Jean Tricart.

Ainda na década de 50, paralelamente com o direito, também atuou como jornalista, a pena mais temida da Bahia. Impedido pela ditadura militar de continuar no Brasil, Milton Santos foi exilado e deu aula em muitas universidades mundo afora, em todos os continentes.

Com dezenas de livros e artigos publicados, alguns deles traduzidos em vários idiomas, ele se aposenta compulsoriamente em 1996, no Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (USP), onde continuou trabalhando até o último dia de sua vida — 24 de junho de 2001, aos 75 anos de idade.

 

Intelectualidade crítica

Trabalhador infatigável, ensinou-nos muito sobre a formação intelectual, a disciplina do trabalho docente, do pesquisador e a elegância acadêmica. Inclusive, dizia ser esta a principal missão da universidade. Mas lembrava que “o intelectual precisa estar sempre criticando a sociedade. O intelectual não bajula os poderosos do dinheiro, os poderosos do poder e também não bajula os pobres. No Brasil é uma raridade o intelectual criticar o intelectual”, atividade corriqueira no mundo do pensamento.

Milton Santos ensinou-nos a aprimorar a visão sempre crítica que temos da universidade. “Hoje a gente discute as ameaças externas à universidade e discute pouco as ameaças internas, que são muito graves”, disse ele em entrevista durante uma homenagem que lhe prestamos, na juventude dos seus 70, em 1996.

Sua obra revolucionária permanecerá como fundamento de profunda reflexão para todos aqueles que têm esperança e que, sobretudo, confiam nos desígnios da maioria. 

 

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Ensinou-nos ainda sobre o período técnico, científico e informacional, por sugestão de um de seus mestres, o geógrafo francês Max Sorre, e que a Geografia é uma filosofia das técnicas que tem uma imensa contribuição a dar para a compreensão da sociedade; que este é tempo de esperança no mundo novo que se forja, com a participação efetiva da maioria pobre com suas maravilhosas estratégias de sobrevivência e de vida. Mundo solidário desses homens pobres e lentos que dominam o planeta.

 “Miseráveis são os que se confessam derrotados. Mas os pobres não se entregam. Eles descobrem cada dia formas inéditas de trabalho e de luta. Assim eles enfrentam e buscam remédios para suas dificuldades”, escreve em seu livro Por uma outra globalização, publicado no ano 2000, pouco antes de nos deixar.

 

Território

Em sua obra, Milton Santos propõe que, para a Geografia atual, a âncora é o futuro e que temos a possibilidade de decidir como nunca sobre ele; que o passado é reflexão, o futuro, uma certeza. Que a globalização é uma metáfora e que é nos lugares, esse “espaço do acontecer solidário”, que se forja a resistência no embate da vida cotidiana.

Com sua importante conceituação sobre o espaço geográfico, entendido como ‘totalidade mundo’, “esse sistema indissociável de sistema de objetos e sistema de ações”, é apontado por ele como objeto de estudo da nossa disciplina.

 Milton Santos revisita a metodologia da Geografia e oferece, especialmente aos geógrafos brasileiros, a possibilidade ímpar de aprofundar o conhecimento sobre o nosso país criando o conceito de território usado, entendido como abrigo de todas as pessoas e do território como recurso, aquele dos interesses hegemônicos considerados pelas políticas ditas ‘públicas’ levadas a efeito no Brasil desde sempre.

 

 

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Milton Santos

Milton Santos propõe que, para a Geografia atual, a âncora é o futuro e que temos a possibilidade de decidir como nunca sobre ele (Foto: Daniel Escobar/site Milton Santos)

 

“O território é onde vivem, trabalham, sofrem e sonham todos os brasileiros. Ele é, também, o repositório final de todas as ações e de todas as relações, o lugar geográfico comum dos poucos que sempre lucram e dos muitos perdedores renitentes, para quem o dinheiro globalizado — aqui denominado ‘real’ — já não é um sonho, mas um pesadelo”, escrevia ele em 1999.

Insistia sempre para que distinguíssemos a Geografia — esta verdadeira espaciologia, esta filosofia das técnicas — dos geógrafos. A Geografia permanecerá; provavelmente feita por não geógrafos. Estes, poderão se prestar à realização de tarefas secundárias de outras disciplinas como a Ecologia, a Geologia, a Economia Política e mesmo da Sociologia e da Ciência Política. Os geógrafos estão em crise, a Geografia não, dizia nosso grande mestre. “A partir da Geografia podemos chegar à reconstrução do país como sociedade nacional”, refletia ele.

Milton Santos foi crítico contundente da formulação difundida sobre a questão ambiental, à qual eu juntei a crítica à ‘sustentabilidade’, ensinando-nos o rigor da diferenciação entre a natureza, o espaço geográfico, o meio (natural, geográfico, técnico), a paisagem. Foi um artesão do método. A Geografia jamais poderá ser a mesma depois da sua obra.

Ensinava que atravessamos a racionalidade econômica sem muitos avanços para a totalidade da humanidade, e que estamos mergulhando na nova racionalidade, a racionalidade política. É preciso estar preparado para ela. E ela precisará e muito dos bons intelectuais.

Celebremos, pois, seus discípulos, amigos e alunos espalhados pelo mundo todo a genialidade desse geógrafo baiano, meu mestre e um grande amigo.

Milton Santos, presente! E o céu continua sempre em festa!

 

*Maria Adélia A. de Souza é professora titular de Geografia Humana da USP

 

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