NOTÍCIA

Entrevistas

Autor

Sandra Seabra Moreira

Publicado em 11/05/2026

O silêncio dos meninos

O jornalista e pesquisador Ismael dos Anjos encara o desafio de ir às escolas ouvir as dores dos garotos e atualizá-los acerca das masculinidades

Denúncias de violência psicológica, física e patrimonial contra a mulher eclodem a todo momento. Além delas, os feminicídios, consequência direta da falta de alguma interferência em episódios de violências anteriores. Ações preventivas são urgentes e , uma delas, é levar às escolas o tema das masculinidades para que os meninos possam ser ouvidos e atualizados acerca do tema. 

Ano passado, houve o aumento de 4,7% em relação a 2024, com o registro de 1.568 casos de violência. Em oito de cada 10 casos, os autores do feminicídio são parceiros ou ex-companheiros, de acordo com o Levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Nesse contexto, o discurso punitivista ganha tração, mas não faz diminuir os casos nem minimiza os efeitos já causados.

A Lei Maria da Penha prevê a realização de grupos reflexivos para autores de violência doméstica, que apresentam eficácia atestada nos percentuais de redução da reincidência — de 65% para até 2%. O resultado positivo advém do fato de que, nesses grupos, os homens conseguem falar sobre o que sentem.

“O homem que não aprende a identificar os próprios sentimentos usa a violência como linguagem para tentar manter um poder que ele acha que é dele por direito”, afirma Ismael dos Anjos, pai de Francisco, o Cisco, de 11 anos, fotógrafo, jornalista e pesquisador das masculinidades, coordenador da pesquisa e do documentário O silêncio dos homens, realizado pelo Instituto Papo de Homem (PdH) e lançado em 2019. A pesquisa teve a parceria do Consórcio de Informações Sociais (CIS), da USP, e ouviu 47 mil pessoas de todo o Brasil para ‘saber como os homens aprendem a ser homens no Brasil’.

Faltam pesquisas acerca das masculinidades, mas os dados contidos em O silêncio dos homens ainda são pertinentes. Apenas três em cada 10 homens têm o hábito de conversar sobre os seus maiores medos e dúvidas. A maioria afirma ter o pai como principal referência de masculinidade, mas apenas um em 10 já conversou com o pai sobre o que é ser homem. E quando os homens sofrem assédio sexual, em média demoram 20 anos para contar a alguém.

 

Leia: Dicas para desconstruir a masculinidade tóxica

 

Com a antropóloga Isabela Venturoza, Ismael ministra o curso Masculinidades nas Escolas, no Instituto Vera Cruz, em SP, e aborda temas como interseccionalidade, cuidado, violências, masculinismos e internet.
No momento, busca apoio para a gravação de palestras e aulas para que seus cursos alcancem escolas de todo o país.

Nesta entrevista, o pesquisador esmiúça o conceito de masculinidades, aponta o — muito
bem-vindo — avanço das meninas e mulheres em suas concepções de mundo e autonomias e defende que a educação dos meninos não acompanhou esse avanço. Confira

O que são as masculinidades?

Masculinidades são um conjunto de crenças, ideologias, características, comportamentos e até energias, dependendo do contexto, que atribuímos como sendo inatas ou pertencentes ao masculino, aprendidas, e que deveriam ser colocadas em prática por quem se diz homem ou é identificado como homem. Socialmente, temos muitas expressões diferentes do que é ser masculino, mas tendemos a simplificar e organizar em torno de uma definição só. Por exemplo, se eu perguntar “homem usa saia?”. Muita gente vai dizer “não”. Mas eu posso lembrar que na Escócia tem algo bem parecido com saia que é o kilt, usado por homens. Homem rebola, dança? Se olharmos para as periferias do Brasil, as pessoas que mais dançam os passinhos são homens. Então isso não é coisa de homem? É, sim, coisa de homem em alguns contextos. 

Precisamos entender que a redução do que é ser masculino serve a uma construção ideológica do que é ser homem, mas não necessariamente serve aos homens e muito menos à sociedade.

 

Meninos

“Onde há dor, há pressa, mas precisamos também endereçar às causas dessas dores”, diz Ismael dos Anjos (Foto: Divulgação)

 

Esse reducionismo traz consequências?

Traz. Pouquíssimos homens conseguem cumprir isso. Por exemplo, se eu fosse corajoso o tempo todo e não levasse desaforo para casa, já teria morrido. A maior parte do tempo, os homens estão tentando fazer o que chamamos de performance de masculinidade. Não é que eles sejam assim, é que, sendo assim, são validados como homens. Então são outros homens dizendo ‘fulano é macho para caramba’. Às vezes, é a mulher dizendo ‘meu marido é homem, põe dinheiro em casa’. Então é sempre um lugar de performance e não necessariamente um lugar para uma categoria estanque. Dependendo, ainda, da sociedade em que se está inserido, há outros marcadores. Por exemplo, dentro do contexto da educação, a masculinidade de uma escola pública da periferia de São Paulo é muito diferente da masculinidade expressa a poucos quilômetros de lá, numa escola de elite.

 

A masculinidade tóxica tem sido bastante mencionada nos últimos anos. O que o termo define?

É um termo bem importante para o estudo das masculinidades, mas ele tem alguns limites que precisamos observar e cuidados para utilizar. Ao chamar homens para uma conversa sobre masculinidade tóxica, o público será zero, ou muito poucos. Afinal, a pessoa pensa: por que vou a uma conversa onde estou sendo chamado de tóxico?

Um produto tóxico, na acepção da palavra — os professores de química saberão melhor do que eu — é aquele que não se contém no hospedeiro e se espalha ao redor. Masculinidade tóxica, então, diz respeito a comportamentos masculinos que não se encerram no hospedeiro e se espalham ao redor causando danos. Mas não é sinônimo das masculinidades, porque as masculinidades têm outros efeitos, possibilidades, e ampliar esse leque é, inclusive, importante se queremos chamar para a conversa.

 

Qual a importância da interseccionalidade num curso sobre masculinidades?

O trabalho com a interseccionalidade é a premissa para qualquer trabalho social, ainda mais num país como o Brasil. Todos somos resultados dos cruzamentos de raça, classe, religião, história de vida, lugar de nascimento. Encarar isso não como um lugar de cisão, mas lugar de reconhecimento, para então criarmos pontes para conversas, talvez seja o segredo e a parte mais difícil do que estamos tentando fazer.

Por exemplo, no contexto das masculinidades, a palavra ‘poder’ é central na experiência que imaginamos do que é ser homem. Inclusive, repetimos frases como ‘o homem está no topo da pirâmide’, ‘o homem é o gênero que está no poder’. Mas se eu perguntar qual homem está no poder, todos conseguirão pensar nesse homem com marcadores simples: cis, branco, rico, provavelmente estudou, tem dinheiro, presumidamente hétero. Imagine o tanto de homens que não se identificam com isso! A maioria da população brasileira é negra. Boa parte da população brasileira não se enquadra na classe A ou B, ou nos 10% mais ricos do Brasil. Então estamos falando de experiências de masculinidade que são muito díspares.

Não adianta continuar dizendo aos meninos negros que o paradigma de sucesso é ter carro, casa, família, fazer parte da sociedade de consumo, sendo que os homens negros que têm poder normalmente o conseguem via futebol e esportes em geral ou música. Conseguimos contar, são pouquíssimos. Cerca de 45% de meninos negros de 19 a 28 anos não terminaram o ensino médio. Por quê? Desalento! Como vou falar sobre masculinidades com ele a partir do mesmo paradigma de quando falo com alguém na Faria Lima?

 

Como as ideias masculinistas afetam os meninos?

Há 10, 11 anos, quando falava com os meninos sobre masculinidades, era como se eu conversasse sobre algo que eles nunca haviam pensado antes. Hoje, eles já viram coisas no TikTok, Instagram. Eles têm informações muitas vezes tortas e falam que ‘o feminismo está acabando com o direito dos homens’. Muitas vezes, ao trabalhar com esses meninos, preciso desconstruir a noção de ‘estamos sob ameaça’. Porque o ‘estamos sob ameaça’ gera o seguinte: vamos recrudescer e nos ater exatamente ao que achamos que nos trouxe até aqui — ser forte, viril, mandão. E isso não está funcionando para a sociedade como um todo.

 

Leia: Série ‘Adolescência’ e a violência: prevenção exige ações coletivas

 

A mira, então, é o feminismo…

Estamos ensinando as mulheres, há algumas gerações, a serem cada vez mais independentes, autônomas, a depender menos dos homens, enquanto os meninos estão sendo criados da mesma maneira de antes. Isso gera conflito. Ensinamos os meninos que têm de ser fortes, resistentes, mandarem na família e ensinamos outras coisas para as meninas. Uma hora eles batem de frente. As meninas já não aceitam qualquer coisa, mas os meninos não têm mais do que isso para oferecer.

Precisamos entender que a redução do que é ser masculino serve a uma construção ideológica do que é ser homem, mas não necessariamente serve aos homens e muito menos à sociedade. A questão é que os meninos ficaram para trás, então precisamos acelerar com eles. Começamos com o que é mais urgente, pois onde há dor, há pressa, mas precisamos também endereçar às causas dessas dores. Acredito que as dores que os meninos causam no mundo, às vezes, estão refletindo as dores que eles sentem.

Eles se sentem inseguros, não sabem o que fazer e não podem demonstrar isso. Vão, então, usar a linguagem da violência justamente para esconder a insegurança. É com essa dicotomia que estamos lidando.

 

Como são as dinâmicas nas escolas?

Colocamos os meninos para dialogarem a partir de dois eixos de perguntas — quais violências já praticaram e quais já sofreram. E várias vezes essas violências estão conectadas. É uma ótima chance para que eu pergunte: se você identifica isso como violência, por que está reproduzindo?

O trabalho nas escolas se constitui num tripé: alunos, educadores e famílias e vai depender muito do grau de abertura e dos recursos possíveis. Com os alunos, acontece desde uma palestra de sensibilização até as rodas de conversa. Com os professores, o trabalho vai desde uma sensibilização com palestra ou ciclo de palestras com temas diferentes até um curso de formação, como o que fazemos com o Instituto Vera Cruz. Já fiz sensibilização na escola com os inspetores; muitas vezes, são eles que veem as violências acontecerem. E também com seguranças, para que toda a rede de proteção escolar tenha letramento para identificar uma violência ou entender como interromper e endereçar.

Com as famílias é uma conscientização. A maioria dos pais, homens, é ausente do meio escolar e não vai às reuniões ou têm uma opinião já refratária do tipo “sou homem, cheguei até aqui e você quer me ensinar a ser homem e ensinar meu filho a virar homem?”. Então é o momento de mostrar que não é isso. Mostrar que comportamentos que tínhamos não eram considerados assédio e hoje são. Boa parte não tinha de lidar com isso aos 15, 16 anos, mas agora o filho precisa saber lidar com esse ambiente em que as mulheres têm repertório, aceitam menos e têm mais canais de denúncia.


Leia Entrevistas

pexels-648298123-29065605

O silêncio dos meninos

+ Mais Informações
racismo-na-escola-elizabate

O racismo na escola que ninguém quer ver

+ Mais Informações
Entrevista Claudia Mogadouro

Debater filmes é ferramenta pedagógica eficaz

+ Mais Informações
Foto 1 - Vitor

Troca de saberes

+ Mais Informações

Mapa do Site