NOTÍCIA
Professora detalha o desenvolvimento do projeto AquaTerraAlert, reconhecido pelo Prêmio Escolas Sustentáveis
Por Náyra Rafaéla Vido*, coordenadora do projeto AquaTerraAlert | Tudo começou com uma leitura. Em uma manhã de aula, levei aos estudantes uma reportagem publicada em um jornal local que informava que, segundo dados do IBGE, Limeira está entre as cidades brasileiras com risco de enchentes e deslizamentos de terra. A notícia causou impacto imediato. Muitos alunos reconheceram os locais citados e passaram a relatar experiências vividas por suas famílias durante períodos de chuva intensa. A partir desse momento, a sala de aula deixou de ser apenas um espaço de transmissão de conteúdo e se constituiu como um ambiente de escuta, investigação e inquietação. Surgiu, então, uma pergunta que conduziria todo o percurso pedagógico: como poderíamos desenvolver e implementar um sistema de monitoramento e alerta antecipado capaz de prevenir os impactos de enchentes e deslizamentos de terra em nossa comunidade, promovendo segurança e bem-estar à população?
Esse questionamento revelou-se potente por articular aprendizagem e realidade social, aproximando o currículo das vivências dos estudantes e reafirmando a escola como espaço de problematização do território. Ao se reconhecerem nas notícias analisadas, os alunos passaram a entender o aprendizado da sala de aula como instrumento para interpretar a realidade e intervir socialmente.
Foi a partir desse movimento que nasceu o projeto AquaTerraAlert, concebido e desenvolvido com estudantes do 6º ano do ensino fundamental, nas aulas de tecnologia da Escola Estadual Brasil, em Limeira (SP). Trabalhar com essa etapa da escolaridade mostrou-se especialmente significativo, pois evidenciou que alunos ainda em processo inicial de formação científica são plenamente capazes de compreender problemas complexos e de propor soluções criativas e socialmente relevantes quando desafiados por práticas pedagógicas contextualizadas e com sentido social.
A proposta teve como ponto de partida a educação midiática. Após a reportagem inicial, os estudantes passaram a pesquisar notícias em veículos locais, nacionais e internacionais sobre enchentes e deslizamentos ocorridos em diferentes regiões do Brasil e do mundo. Esse percurso possibilitou estabelecer relações entre acontecimentos globais e a realidade local, ampliando a consciência de que os problemas enfrentados pela cidade estão inseridos em um contexto mais amplo de mudanças climáticas, crescimento urbano desordenado, ocupação irregular do solo e desigualdades sociais. Nesse processo, aprenderam a comparar fontes, identificar recorrências, analisar discursos e a leitura.
Com base nessas investigações, o projeto foi estruturado a partir da aprendizagem baseada em projetos, metodologia que coloca o estudante no centro do processo educativo e o convida a investigar problemas reais, formular hipóteses e construir soluções possíveis. O ensino deixou de ser fragmentado e passou a integrar conhecimentos de ciências, geografia, matemática, língua portuguesa e educação midiática, promovendo uma aprendizagem contextualizada e interdisciplinar. Os alunos estudaram o comportamento do solo, o escoamento da água, as causas das enchentes e dos deslizamentos, os impactos sociais dos desastres ambientais e analisaram sistemas de alerta utilizados em outras localidades.
O uso da tecnologia foi central no desenvolvimento do projeto, sempre orientado por um propósito social claro. A partir de pesquisas em dados públicos e reportagens disponíveis na internet, os estudantes compreenderam que Limeira conta com iniciativas pontuais de monitoramento, como sistemas sonoros e visuais instalados em locais específicos de alagamento — a exemplo do viaduto da Ponte Preta — e ações operacionais de acompanhamento durante períodos de chuvas intensas. No entanto, essas estratégias atuam de forma localizada e isolada, não compondo uma rede integrada de alerta antecipado capaz de monitorar simultaneamente diferentes áreas vulneráveis do município.
Diante dessa constatação, os estudantes desenvolveram dois protótipos funcionais e originais de monitoramento ambiental, utilizando a plataforma Arduino, sensores ultrassônicos e de umidade do solo, LEDs, buzzer e módulo GSM. Um dos protótipos foi projetado para monitorar o nível da água em áreas sujeitas a enchentes, enquanto o outro verifica a saturação do solo, indicando risco de deslizamentos. O sistema fornece dados em tempo real e emite alertas visuais, sonoros e por SMS. As cores dos LEDs foram pensadas para facilitar a compreensão da população: o verde indica situação segura; o amarelo sinaliza atenção e necessidade de medidas preventivas que requer a saída da área; e o vermelho indica que o evento extremo está em curso. Todo o processo envolveu planejamento, testes, erros, correções e tomadas de decisão coletivas.
A construção dos protótipos materializou a questão norteadora do projeto, evidenciando a tecnologia como mediação pedagógica e instrumento de cuidado coletivo. Ao programar, testar e aperfeiçoar os dispositivos, os estudantes passaram a compreender a tecnologia como aliada na construção de soluções éticas, solidárias e comprometidas com a justiça climática, articulando o desenvolvimento do pensamento computacional à reflexão social e ambiental.
O engajamento da turma foi intenso. Muitos estudantes participaram do projeto para além do horário regular e utilizando, inclusive, o horário do almoço para testar sensores e ajustar programações. Esse envolvimento evidenciou o potencial do ensino por projetos para promover pertencimento, autonomia e protagonismo, especialmente quando o aprendizado está conectado a problemas reais e socialmente relevantes.
Os impactos do projeto foram mensurados por meio de questionários aplicados antes e depois de um workshop realizado com a comunidade escolar, que contou com a presença de agentes da Defesa Civil de Limeira. Nesse encontro, os estudantes apresentaram os protótipos e dialogaram com os representantes do órgão sobre as contribuições do AquaTerraAlert para a sociedade. A Defesa Civil destacou que o projeto fortalece as ações de prevenção e mitigação de enchentes e deslizamentos de terra, ressaltando que a educação preventiva promovida pela iniciativa pode reduzir a ocorrência de desastres ao preparar a população para reconhecer sinais de risco, evacuar áreas vulneráveis e seguir protocolos de segurança.
Os resultados indicaram avanços significativos no nível de informação dos participantes, com aumento no reconhecimento de sinais de risco, na identificação das áreas vulneráveis da cidade e na compreensão da importância do planejamento urbano, dos sistemas de drenagem e do uso responsável do solo. A maioria dos participantes reconheceu o protótipo como ferramenta relevante para a proteção de vidas, embora os dados também tenham indicado a necessidade de continuidade das ações educativas.
A relação entre escola e comunidade foi fortalecida de forma expressiva a partir do reconhecimento público alcançado pelo projeto. O AquaTerraAlert foi premiado no Prêmio Escolas Sustentáveis, iniciativa realizada pela Fundação Santillana, da Editora Moderna, em parceria com a Organização dos Estados Ibero-Americanos (OEI), sendo selecionado entre mais de 800 projetos inscritos de todo o Brasil.
Mais do que uma premiação, o concurso se configura como uma política de incentivo à inovação pedagógica, ao protagonismo estudantil e à construção de práticas educativas comprometidas com a sustentabilidade e a justiça social. Ao reconhecer e dar visibilidade a projetos desenvolvidos em escolas públicas, a iniciativa da Fundação Santillana contribui para fortalecer a educação básica como espaço de produção de conhecimento relevante, de diálogo com a ciência, a tecnologia e os desafios contemporâneos, além de estimular professores e estudantes a transformarem problemas reais em oportunidades de aprendizagem.
Nesse contexto, o reconhecimento conferido ao AquaTerraAlert evidenciou sua relevância social e pedagógica e ampliou significativamente seu alcance, possibilitando que as propostas elaboradas pelos estudantes fossem protocoladas na Câmara dos Vereadores de Limeira, fortalecendo o diálogo entre escola e poder público reafirmando o papel da escola pública como agente ativo na construção de soluções coletivas e na formulação de ações voltadas à proteção da população e à sustentabilidade do território.
A partir desse encaminhamento, os dados e soluções apresentados passaram a ser analisados para possíveis deliberações relacionadas às áreas de risco do município, dando início a discussões sobre melhorias na infraestrutura urbana, como a implantação de bueiros inteligentes e sistemas de monitoramento preventivo.
Os estudantes também se tornaram produtores de informação ao gravarem um vídeo educativo sobre as áreas de risco da cidade e o funcionamento do AquaTerraAlert, exercitando os pilares da educação midiática ao analisar, produzir e compartilhar conteúdos de interesse público.
A sustentabilidade esteve presente em todas as etapas do projeto, em suas dimensões ambiental, social e econômica. Ambientalmente, o projeto contribui para a prevenção de desastres; socialmente, promove o cuidado com populações vulneráveis e a participação cidadã; economicamente, apresenta uma solução de baixo custo e fácil replicação. O impacto alcançou diretamente cerca de 40 estudantes e mais de 660 pessoas da comunidade.
Como professora, essa experiência reafirma a importância de práticas pedagógicas que articulem educação midiática, ensino por projetos, tecnologia e compromisso social. O AquaTerraAlert demonstrou que, quando a educação se conecta à vida, o aprendizado ganha sentido e se torna capaz de transformar realidades. Mais do que um sistema tecnológico, o projeto consolidou-se como um exercício de cidadania e como evidência de que a escola pública pode ser espaço de esperança, diálogo e construção de futuros mais justos e sustentáveis.
*Náyra Rafaéla Vido é professora de robótica da Escola Estadual Brasil, em Limeira (SP), e coordenadora de projeto vencedor no Escolas Sustentáveis 2025.
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