NOTÍCIA

Políticas Públicas

Autor

Revista Educação

Publicado em 22/01/2026

Protesto no Roblox mostra que o ECA Digital precisa ser dialogado com as crianças

Quando se sente considerado, o público infantojuvenil aprende a valorizar a fala dos mais experientes,

Por Ana d´Angelo, Clara Becker, Januária Alves e Victor Vicente* | O protesto de crianças e adolescentes dentro da plataforma de jogos digitais Roblox não é apenas um episódio curioso da cultura gamer: ele traz elementos essenciais para pensar a proteção desse público e os desafios da aplicação do ECA Digital, a legislação brasileira que começa a valer em março deste ano.

Primeiramente, cabe destacar que adultos desconhecidos não devem ter a possibilidade de conversar com crianças e adolescentes em jogos online, temos testemunhado os imensos prejuízos de várias ordens que esse tipo de interação pode gerar. A decisão do Roblox é acertada e necessária. Entre as medidas estão a verificação de idade para liberação dos chats de texto e voz, com validação facial; a restrição do uso de chat para menores de 9 anos; e a proibição da comunicação direta entre crianças e adultos. As iniciativas foram, em geral, bem recebidas e contam com o apoio de organizações que atuam na defesa dos direitos e na proteção de crianças e adolescentes.

Mas imediatamente após a restrição, começaram a aparecer os primeiros protestos na própria plataforma; uma manifestação organizada pelos atingidos pelas medidas, ou seja, as crianças e adolescentes. Os usuários criaram “plaquinhas virtuais”, exigiram a volta do chat e prometeram retaliações ao Roblox, incluindo ameaças de invasão à sede da empresa. Até o influenciador Felca, autor do vídeo viral que denunciou a chamada “adultização” de crianças e adolescentes e ajudou a acelerar o debate legislativo no Brasil, passou a ser alvo de ataques.

 

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Curiosamente, essa decisão do Roblox em nada tem a ver com o Felca ou com a regulação brasileira. Ela é uma decisão global. Mas traz ensinamentos para nosso país, que está em vias de implementar a Lei nº 15.211/2025, conhecida como ECA Digital.

Acima de tudo, o que ficou evidente com os protestos foi a importância e o valor de se ouvir e estabelecer diálogo com os envolvidos diretamente nas novas regras. Especialmente com o público adolescente, somente a proibição pura e simples de qualquer produto ou serviço não costuma funcionar bem. Isso porque tal conduta ignora que eles são sujeitos de direitos com necessidades e opiniões próprias, desconsiderando sua capacidade de se posicionar diante de quaisquer assuntos, ainda mais se lhes dizem respeito. É necessário entender os usos e preferências dos jovens no ambiente digital e conversar sobre os acordos necessários para a proteção nesse ambiente para educá-los e prepará-los para um uso consciente, ético e equilibrado. Educação é processo, escuta, diálogo, e está para além das proibições.

Responsáveis que fizeram parte do nosso estudo conduzido no âmbito do Redes de Proteção ficaram preocupados com o protesto das crianças porque muitos desconhecem o próprio uso que os filhos e colegas fazem da plataforma. Inclusive o fato de se tratar de uma rede social. Muitos acreditam que são apenas jogos e ignoram o acesso aos chats, que foram atingidos de frente pelas medidas anunciadas neste começo do ano.

 

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Este episódio também revela um público atravessado por sentimentos de ira e, paradoxalmente, de vulnerabilidade. Muitas das crianças e adolescentes afirmam que os chats do Roblox eram o único espaço em que experimentavam pertencimento e reconhecimento. São justamente elas as que mais necessitam de proteção. A ausência de mediação, regras e cuidados adequados torna esse perfil especialmente suscetível à cooptação por grupos extremistas, que se apresentam como espaços de acolhimento, identidade e escuta.

Trata-se de uma dinâmica já conhecida no ambiente digital: a radicalização costuma se apoiar, antes de tudo, em sentimentos de exclusão, solidão e falta de pertencimento — fatores agravados quando a navegação ocorre em plataformas sem regulação efetiva.

Crianças e adolescentes devem ser respeitados, ouvidos e ter o seu melhor interesse contemplado no debate e na regulação do ambiente digital. Quando se sente considerado, o público infantojuvenil aprende, por meio do exemplo, a valorizar a fala dos mais experientes, daqueles que pensam diferente, exercitando, na prática, o princípio de que uma sociedade equânime e justa se constrói por meio deste tipo de comportamento. A vida digital faz parte da vida cotidiana de todos nós e por isso precisamos construir juntos as soluções para proteção e boas práticas neste contexto e não fora dele.

 

Como será feita a verificação de idade prevista no Eca Digital?

O protesto trouxe ainda outro debate urgente no Brasil. O Roblox é a empresa que há mais tempo testa mecanismos de verificação de idade e quando os implementou na Austrália e outros países não obteve bons resultados. A IA confundiu várias vezes as idades dos jogadores e não pareceu resolver o principal problema: a enxurrada de predadores que usam a plataforma para aliciar crianças pequenas.

O Eca Digital prevê mecanismos de verificação etária e ainda não sabemos como isso será feito. Às plataformas digitais foi dado o prazo até fevereiro de 2026 para apresentarem as alternativas de cumprimento da lei.

A nova lei, chamada Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, foi sancionada e passa a valer em março de 2026. Ela obriga plataformas, redes sociais, jogos e serviços digitais a adotarem mecanismos confiáveis de verificação de idade para proteger crianças e adolescentes de conteúdos impróprios e riscos online. A autodeclaração de idade atualmente usada não será suficiente. 

A lei é fundamental e também é necessária que as crianças e adolescentes compreendam sua função, e sobretudo, que sintam-se contemplados por ela em seus anseios, dificuldades e possibilidades de expressão. Ouvi-las, incluí-las nas decisões a serem tomadas é educar para o exercício da liberdade e da cidadania responsável o que, com certeza, surtirá melhores resultados na prática, até para que possam protestar sobre seja lá o que for com argumentos bem estruturados, visando o bem-estar de todos e de cada um.

 

Autores

Ana d´Angelo – diretora de comunicação do Redes Cordiais: Mestre em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, foi editora-assistente da Agência Lupa e editora do site *desinformante. Tem trabalhado com organizações do terceiro setor nos últimos 15 anos, especialmente, nos temas do digital, direitos humanos e desenvolvimento sustentável.

Clara Becker – diretora executiva do Redes Cordiais: Uma das fundadoras do Redes Cordiais, é formada em Comunicação Social pela PUC-RJ e em Letras pela UFRJ. Passou pelas revistas Piauí e Veja Brasília e, nos últimos anos, especializou- se em combate à desinformação atuando na Lupa, a primeira agência de fact checking brasileira. É co-autora dos livros The Football Crónicas, editado pela Ragpicker Press e Los Malos da Universidad Diego Portales

Januária Cristina Alves – coordenadora do Pequenos Cordiais: Mestre em Comunicação Social pela ECA/USP, jornalista, educomunicadora, autora de mais de 50 livros infantojuvenis, duas vezes vencedora do Prêmio Jabuti de Literatura Brasileira. É coordenadora do Pequenos Cordiais, colunista do Nexo Jornal, membro da Associação Brasileira de Pesquisadores e Profissionais em Educomunicação e do grupo Jornalismo, Direito e Liberdade do Instituto de Estudos Avançados da USP, além da Mil Alliance, a Aliança Global para Parcerias em Alfabetização Midiática e Informacional da Unesco.

Victor Vicente – diretor de Projetos do Redes Cordiais: Victor Vicente é diretor de projetos do Redes Cordiais. Ele é doutorando em ciências da comunicação (USP), com período como pesquisador visitante no centro CARISM, sediado na Université Paris-Panthéon-Assas. Também é mestre em comunicação e cultura (UFRJ). Autor de um livro didático sobre educação digital, aprovado pelo MEC no PNLD 2026-2029. Atua na sociedade civil organizada, com causas relativas a direitos humanos na internet, há mais de dez anos, com passagens pelo Instituto Vero, Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS) e MediaLab.UFRJ.


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