NOTÍCIA
Educação antirracista foi destaque das falas do diretor João Gilberto e do pesquisador Diogo Dionizio durante evento da Academia Líderes de Educação
A maioria das crianças brasileiras — principalmente as de menor renda — frequenta a escola pública. A partir do recorte racial, infere-se que a maior parte dessas crianças são negras e precisam entender onde estão e quem são num espaço que historicamente não foi destinado a elas. Para se ter uma ideia, a primeira lei educacional no país foi de 1837 e proibia o acesso de pessoas negras, escravizados ou nascidos libertos, à escola.
“Precisamos entender, então, o que a escola representa para a criança negra e o que é preciso para mantê-la nesse espaço”, afirma João Gilberto, diretor de escola pública, professor, filósofo e escritor. É esse o contexto posto para o início da Roda de conversa sobre educação antirracista, ocorrida no começo da tarde de hoje, 7, no Encontro de Líderes, evento da Academia Líderes de Educação, com realização da revista Educação.
Também participou da roda Diogo Dionizio, pesquisador, mestrando em Educação e Saúde nas Infâncias e Adolescências pela Unifesp e formador de professores em história e educação para as relações étnico-raciais da rede municipal de São Paulo.
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“O professor [e antropólogo brasileiro-congolês] Kabengele Munanga costuma dizer que no Brasil o racismo é um crime perfeito”, cita Diogo. E exemplifica questionando a plateia: “O Brasil é um país racista?” A maioria diz que sim. “Vocês conhecem alguém racista ou que já praticou racismo?” Novamente, a maioria da plateia responde afirmativamente. E, então, diz Diogo, “a pergunta de um milhão”: “quem aqui é racista?” A maioria não levanta a mão. “Esse é um exercício a ser feito na escola”, indica.
Poucas pessoas se colocam como racistas porque “quando falamos de racismo estamos falando de uma estrutura que é base sólida de formação do estado brasileiro”. Diogo e João Gilberto ressaltaram que é praticamente impossível uma escola onde não exista racismo.
As leis 10639, de 2003, que tornou obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana em todas as escolas públicas e particulares do ensino fundamental e médio no Brasil, e a 11645, de 2008, que acrescentou a obrigatoriedade do ensino das culturas indígenas, tentam mitigar o apagamento histórico ao longo de séculos, em que a as representações da cultura europeia prevaleceram nos currículos e livros escolares. Essa prevalência também é racismo.

Roda de conversa sobre educação antirracista com João Gilberto, Diogo Dionizio e Edimilon Cardial (mediação) Foto: Ricardo Fantagussi
A educação antirracista, portanto, não é um favor, é um direito das crianças. E não significa um trabalho a mais para o professor, mas a inserção de elementos da cultura afro-brasileira no conteúdo a ser ministrado. “O professor de matemática pode ensinar usando a mancala, um jogo vinculado aos povos afro-brasileiros, assim como utiliza o xadrez” sugere Diogo. O professor de língua portuguesa pode também trazer autores africanos ou brasileiros, como Carolina Maria de Jesus.
Diogo explica que a educação antirracista deve constar no projeto político-pedagógico (PPP) da escola e é preciso olhar para o planejamento de aula dos professores. Por exemplo, como o professor de física vai trabalhar a educação antirracista não como ‘mais uma coisa a ser feita’, mas como parte do seu fazer pedagógico.
Para os episódios de racismo que acontecem entre as crianças, Diogo e João Gilberto preconizam a leitura e estudo do Protocolo de combate ao racismo e xenofobia da Secretaria Municipal de São Paulo.
“Cada escola é uma realidade, o protocolo não é fechado, mas traz uma luz para que a partir da realidade da escola sejam feitas as adaptações necessárias”, detalha João Gilberto. Ele enfatiza que o racismo não é um conflito apenas, “e não vamos tratar como crime na escola, mas precisamos atacar isso. Os professores e a escola precisam ter esse protocolo de atendimento muito bem estruturado”.
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