NOTÍCIA
Atualização da norma obriga instituições de ensino a identificar e prevenir riscos psicossociais relacionados ao trabalho. Especialistas avaliam que o desafio vai além da adequação legal e exige mudanças na cultura organizacional das escolas
Quando um professor adoece por ansiedade, depressão ou esgotamento profissional, é comum que o problema seja analisado sob a ótica individual. A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), no entanto, propõe uma mudança de perspectiva: em vez de olhar apenas para quem adoeceu, as instituições passam a ser chamadas a investigar como o próprio ambiente de trabalho pode contribuir para esse processo.
A partir da inclusão dos riscos psicossociais no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), fatores como sobrecarga de trabalho, assédio moral, violência, pressão excessiva e falta de apoio institucional deixam de ser tratados apenas como questões de recursos humanos e começam a integrar as políticas de saúde e segurança do trabalho.
Na prática, esses fatores passam a ter o mesmo peso dos riscos físicos ergonômicos, exigindo que as escolas identifiquem situações de risco, planejem medidas preventivas e monitorem sua efetividade.
A mudança representa um novo desafio para as instituições de ensino. Se, por um lado, a adequação requer procedimentos técnicos e documentos obrigatórios, por outro exige uma revisão da forma como o trabalho é organizado e das condições oferecidas aos profissionais da educação. A questão que mobiliza gestores é menos o cumprimento da norma e mais sua capacidade de transformar a realidade das escolas.
Na prática, a mudança exige que as escolas revisem a forma como organizam o trabalho de seus profissionais. Para o advogado especialista em Direito Educacional, e consultor da Academia Líderes de Educação, Fabrício Vasiliauskas, o foco deixa de estar no indivíduo e passa a considerar os fatores que podem favorecer o adoecimento no ambiente de trabalho. “O foco não é saber se determinado professor é emocionalmente frágil, mas verificar se há carga de trabalho excessiva, falta de apoio, violência recorrente ou cobranças incompatíveis com os recursos disponibilizados”, afirma.

Fabrício Vasiliauskas afirma que , o foco deixa de estar no indivíduo e passa a considerar os fatores que podem favorecer o adoecimento no ambiente de trabalho (Foto: arquivo pessoal)
A fiscalização, acrescenta o especialista, também deverá ir além da análise documental. “Não basta ter um programa no papel. Será preciso demonstrar que os riscos foram identificados e que existem medidas concretas para preveni-los.” Nesse processo, ações como revisão de fluxos de trabalho, fortalecimento das lideranças e criação de canais de escuta deixam de ser apenas boas práticas de gestão e passam a integrar a estratégia de prevenção, prevista pela nova norma.
Isso significa revisar a forma como o trabalho é organizado. Entre as medidas que podem integrar esse processo estão a reavaliação da distribuição de tarefas, da jornada e dos canais de comunicação, além da criação de protocolos para situações de violência escolar, fortalecimento dos canais de denúncia, capacitação das lideranças e monitoramento contínuo das ações implementadas. O advogado ressalta que questionários e ações pontuais de bem-estar podem fazer parte da estratégia, mas não substituem uma avaliação consistente dos fatores de risco presentes na rotina da instituição.
Algumas escolas já começaram esse movimento. No Colégio Notre Dame, em São Vicente (SP), a adequação foi incorporada a uma cultura organizacional que já buscava fortalecer o cuidado com os profissionais. Segundo a jornalista, pedagoga e diretora da instituição Camila Micheletti, o cuidado com os colaboradores sempre esteve presente na cultura do colégio, e a nova regulamentação ajudou a estruturar essas ações. “A mudança na legislação foi um importante motivador, mas esse já era um tema que fazia parte da nossa cultura. Somos uma escola humanista e sempre acreditamos que cuidar das pessoas é tão importante quanto cuidar dos processos. A adequação à NR-1 veio fortalecer uma preocupação que já existia e nos impulsionou a estruturar ainda mais esse cuidado.”

No Colégio Notre Dame, em São Vicente (SP), projeto foi conduzido por equipe multidisciplinar, conta a diretora Camila Micheletti (Foto: arquivo pessoal)
O diagnóstico dos riscos psicossociais foi conduzido por uma equipe multidisciplinar e identificou como prioridades a prevenção da sobrecarga, o fortalecimento das relações interpessoais, o combate ao assédio moral e a promoção de ações voltadas à saúde mental. A partir desse levantamento, a escola passou a investir em treinamentos, a fortalecer os canais de diálogo, a reestruturar o setor de recursos humanos e revisar processos para oferecer maior suporte aos colaboradores.
O processo também buscou mapear não apenas situações já conhecidas, mas aspectos da rotina que poderiam favorecer o adoecimento ao longo do tempo. Para Camila, a intenção foi transformar o diagnóstico em um processo permanente de acompanhamento, com revisões periódicas das ações e participação das lideranças na identificação de novos riscos.
Segundo ela, o maior desafio é fazer com que a saúde mental seja compreendida como uma responsabilidade coletiva. “Uma adequação burocrática se limita ao cumprimento de documentos e exigências legais. Já uma política eficaz envolve ações contínuas, escuta ativa, formação das lideranças, prevenção de conflitos, acompanhamento dos colaboradores e compromisso genuíno com um ambiente de trabalho saudável.”
Se algumas escolas já conseguem estruturar políticas de prevenção, a realidade ainda é bastante diferente em grande parte da rede pública. Para a professora de história Roberta Duarte, o principal desafio está nas condições de trabalho oferecidas às equipes.

Roberta Duarte, professora na rede pública: ainda faltam políticas permanentes de acompanhamento e prevenção (Foto: arquivo pessoal)
Na rotina escolar, problemas como salas superlotadas, infraestrutura precária e falta de profissionais de apoio dificultam a construção de um ambiente de trabalho mais saudável, relata a professora. “É muito difícil exigir resultados pedagógicos sem oferecer condições estruturais mínimas para que o professor trabalhe”, analisa.
Embora algumas redes promovam palestras e ações pontuais sobre saúde mental, Roberta considera que ainda faltam políticas permanentes de acompanhamento e prevenção. “Normalmente são palestras ou ações isoladas”, observa.
Na avaliação de Roberta, a atualização da NR-1 representa um avanço ao colocar os riscos psicossociais na agenda das instituições, mas seus efeitos dependerão da capacidade de transformar a exigência legal em investimentos, planejamento e mudanças na organização do trabalho.
O advogado Fabrício Vasiliauskas pondera, no entanto, que as particularidades da rede pública não eliminam a necessidade de prevenção. Segundo ele, restrições orçamentárias podem influenciar o planejamento das ações, mas não afastam o dever de proteger a saúde dos trabalhadores — seja no setor público ou privado.
A atualização da NR-1 inaugura uma nova etapa para as instituições de ensino. Se, em algumas escolas, a prevenção dos riscos psicossociais já vem sendo incorporada às práticas de gestão, em outras o desafio ainda passa por superar limitações estruturais,
ampliar equipes e criar condições para que as mudanças saiam do papel. Em comum, está o desafio de integrar a prevenção à rotina escolar e acompanhar continuamente os fatores que podem comprometer a saúde dos profissionais.
Roberta Duarte acredita que esse processo exigirá tempo e continuidade. Para a professora, a efetividade da norma dependerá da capacidade das redes de transformar a exigência legal em ações permanentes de prevenção. “É uma mudança importante, mas acredito que os resultados aparecerão no longo prazo”, conclui.