NOTÍCIA
A autonomia do aluno emerge do encontro geracional, da mediação ética e da valorização da autoridade do conhecimento sistematizado
Por Andréa Andreucci, diretora-geral do Colégio Oswald de Andrade, SP| Em um cenário global fragmentado por cicatrizes de guerras, crises migratórias e o recrudescimento da barbárie, a educação se vê diante de um desafio que ultrapassa, em larga escala, o mero ensino de conteúdos programáticos.
A escola contemporânea, frequentemente pressionada por problemas estruturais que a fragilizam, e por uma demanda social por respostas imediatistas, encontra-se hoje em uma encruzilhada histórica. De um lado, a sedução da inovação tecnológica desenfreada e o tecnicismo; de outro, a necessidade vital de resgatar e proteger o que nos torna essencialmente humanos.
Neste contexto, é imperativo questionar o que significa, de fato, ser autônomo na era dos algoritmos e da inteligência artificial. A verdadeira autonomia do estudante não nasce do isolamento diante de uma tela reluzente. Nem da autossuficiência ilusória da geração hiperconectada, que muitas vezes apresenta destreza técnica no manuseio de interfaces, mas carece da mediação necessária para atribuir sentido crítico ao que acessa.
Autonomia emerge, sim, do encontro geracional, da mediação ética e, sobretudo, da valorização da autoridade do conhecimento sistematizado, que serve como bússola em um mundo saturado de informações desconexas e efêmeras.
Para compreendermos a gênese dessa autonomia, precisamos recorrer ao pensamento do filósofo Bernard Charlot, que em sua obra fundamental nos ensina que o aprendizado é, primordialmente, um processo de humanização e de entrada na cultura. Para Charlot, o aluno não é uma “tabula rasa” ou um recipiente passivo de informações. É um sujeito que precisa se apropriar do mundo e entrar em uma história que o precede, dando sentido aos objetos e aos saberes.
Diferente do que pregam certas visões mercadológicas da educação, ser autônomo não é apenas “aprender a aprender” de forma solitária ou autodidata em um vácuo social. A autonomia é a conquista da capacidade de dar sentido ao mundo através do saber compartilhado. Sem a mediação daquele que já percorreu o caminho e domina os códigos da cultura — o mestre —, o estudante corre o risco de naufragar em um mar de dados sem hierarquia ética.
A história e a experiência do professor são o alicerce sobre o qual se constrói a segurança intelectual do jovem. A autoridade do mestre, portanto, não deve ser confundida com o autoritarismo que oprime ou silencia, mas sim com a auctoritas latina: aquela que faz crescer, que valida o esforço e que autoriza o outro a tornar-se, progressivamente, autor da própria história.
Educar, sob a ótica de Charlot, é permitir que o sujeito se torne plenamente humano através da relação com o saber, com o outro e com as questões do seu tempo. Nessa jornada, a Inteligência Artificial não deve ser encarada como uma sombra ameaçadora ou uma substituta da alma humana, mas como uma aliada poderosa, agregadora e instrumental.
Enquanto a máquina processa volumes de dados com velocidade sobre-humana, o professor processa significados, afetos e contextos sociais. A IA tem o potencial de automatizar o burocrático e o repetitivo, devolvendo ao docente o que lhe é mais precioso: o tempo para a escuta, o olhar atento às subjetividades e o diálogo ético que nenhuma linha de código pode reproduzir.
A tecnologia, quando bem integrada ao projeto pedagógico, deve estar estritamente a serviço da libertação, funcionando como um suporte que potencializa a investigação e a criatividade em vez de sufocá-las em bolhas de confirmação e alienação algorítmica.
Leia: Troca de saberes
É fundamental compreender que não existe uma “excelência do conhecimento” estática ou absoluta, encerrada em manuais ou torres de marfim acadêmicas. O que existe é a busca incessante, dinâmica e coletiva para a resolução de conflitos sociais e interpessoais com base no conhecimento reflexivo. O saber não é um troféu de erudição individual, mas uma ferramenta viva de intervenção na realidade.
Quando pautamos a educação em bases científicas e históricas sólidas, não o fazemos apenas para acumular informações, mas para oferecer ao estudante ferramentas de leitura crítica da realidade. É através desse conhecimento que ele poderá decifrar as engrenagens da exclusão, as raízes dos preconceitos e as dinâmicas de poder que sustentam as injustiças.

O aluno precisa se apropriar do mundo e entrar em uma história que o precede, dando sentido aos objetos e aos saberes (foto: Pexels)
A educação é, portanto, o exercício de transformar a informação em sabedoria aplicada à convivência coletiva e à alteridade. Para que a escola cumpra seu papel de guardiã da humanidade, ela deve adotar a equidade e a Educação para as Relações Étnico-Raciais (ERER) como eixos estruturantes e inegociáveis.
“A escola é um dos espaços em que a humanidade se produz. E não há como produzir humanidade em contextos de desigualdade e racismo. Educar para as relações étnico-raciais é, portanto, um exercício de reeducar o nosso olhar e a nossa prática pedagógica para que possamos reconhecer a diversidade como uma riqueza e não como um problema. A equidade na educação não é um favor, mas um dever ético e político de quem acredita que a escola deve ser o lugar da emancipação humana”, define a Profa. Dra. Nilma Lino Gomes.
A autonomia plena exige que o estudante se reconheça no outro, e entenda que a diferença não é uma ameaça à sua identidade, mas a própria condição da nossa riqueza cultural e existencial. Valorizar as raízes africanas, indígenas e migrantes é um ato de justiça histórica que devolve a dignidade a quem a barbárie tentou apagar, transformando números estatísticos em histórias de vida, dor e superação que demandam acolhimento e respeito.
A escola deve ser preservada como um espaço sagrado — um termo que aqui remete ao que é inviolável e fundamental: o direito ao silêncio reflexivo, à proteção contra o discurso de ódio e à segurança do pensamento crítico. No entanto, ser sagrado não significa ser uma bolha isolada da vida pulsante.
Pelo contrário, a escola deve estar de portas abertas e janelas escancaradas para receber do mundo os problemas que nos afligem, as angústias da juventude e as contradições da sociedade. Seu papel fundamental é o de um laboratório ético e um filtro crítico: ela acolhe o caos e as dores do mundo para depurá-los através da ciência, da filosofia e da empatia.
É nesse “mutirão ético”, que envolve organicamente a escola, a família e a comunidade, que permitimos a transformação da fragilidade em resiliência e do medo em ferramentas reais de escolha e liberdade. Quando a família valoriza a história e a autoridade do mestre, ela sela um pacto de confiança que fortalece a segurança da criança. Quando a comunidade protege a escola, ela cria um território livre onde a inteligência pode florescer sem o assédio da violência.
A autonomia do estudante é o fruto maduro de uma árvore cujas raízes mergulham fundo na sabedoria de quem veio antes. Ao integrarmos a tecnologia como aliada da sensibilidade docente e não como sua substituta, garantimos que a inovação sirva à emancipação.
A escola salvará a humanidade quando for capaz de unir a precisão do algoritmo à profundidade da alma humana, ensinando que, diante da barbárie e do ódio, a nossa maior arma é a sabedoria compartilhada, o respeito radical à diversidade e a crença inabalável de que amanhã pode ser melhor se soubermos, hoje, cultivar a liberdade com responsabilidade e a alteridade como princípio.
CHARLOT, Bernard. A educação no mundo atual: compreensão, relação com o saber e humanização. São Paulo: Cortez, 2020.
BRASIL. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais. Brasília: MEC, 2004.
GOMES, Nilma Lino. O movimento negro educador: saberes construídos nas lutas por emancipação. Petrópolis, RJ: Vozes, 2017.