NOTÍCIA
Vitor Rocha, diretor do documentário Aprender a sonhar, fala da troca de saberes entre estudantes de comunidades tradicionais e o pensamento ocidental
As trajetórias de cinco estudantes cotistas são narradas no documentário Aprender a sonhar, do cineasta baiano Vitor Rocha, que estreou em outubro de 2025 em 60 salas de 33 cidades do país e segue em cartaz no circuito comercial. Foi exibido e debatido em universidades, como na Faculdade de Medicina da USP e na Universidade Federal Fluminense (UFF). Oriundos de comunidades tradicionais e movimentos sociais, para o cineasta, os personagens promovem uma troca de saberes ‘riquíssima’ com o pensamento acadêmico e ocidental.
Em 2003, numa decisão pioneira, a Universidade de Brasília (UnB) adotou as cotas raciais em seus processos seletivos de ingresso na graduação, destinando 20% de vagas para pessoas negras, além da possibilidade de vagas para indígenas. Em 2012, as universidades federais passaram a destinar 50% de vagas para estudantes provenientes do ensino médio em escolas públicas ou comunitárias.
No setor privado, o acesso se ampliou por meio do Fies e do Prouni. De 2005 a 2024, o Programa Prouni beneficiou 3,4 milhões de estudantes. É, de fato, uma revolução na educação superior. São aspectos dessa revolução que estão presentes em Aprender a sonhar.

Para Vitor Rocha, em dez anos acompanhando os estudantes, além da resiliência, o surpreendeu a manutenção do vínculo com raízes e tradições (foto: Arquivo pessoal)
Rocha acompanhou três dos cinco personagens desde 2015. Marina Barbosa, do Quilombo de Quenta Sol, próximo a Vitória da Conquista, na Bahia, formou-se em medicina pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Nadjane Cristina é militante do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto, morou numa ocupação em Salvador, e estudou serviço social na UniJorge, instituição privada. Ana Paula Rosário é oriunda de um bairro da periferia de Itabuna, estudou ciências sociais. E o casal Tamiwere e Taquari Pataxó, ambos bacharéis em direito pela UFBA, são da aldeia pataxó de Coroa Vermelha, também na Bahia.
O material rendeu série televisiva homônima, com duas temporadas já veiculadas nas tevês públicas e uma terceira em andamento. No filme, Rocha optou por uma linguagem poética, voltada aos elementos culturais e naturais dos locais de origem dos personagens. A escolha sugere que se há aprendizado pela frente a quem ingressa na universidade, também muito da cultura afro-cabocla – originária da confluência de culturas africanas e indígenas, no dizer do cineasta – pode ter lugar nos templos do saber ocidental.
Vítor Rocha é soteropolitano – de nascimento e criação – que mantém forte vínculo com o interior da Bahia. “Meu pai é de Uibaí, uma cidade bem pequena no interior da Bahia, e minha mãe é de Santa Rita de Cássia, onde morei uns anos.” Formado em comunicação pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), lidera as produtoras Caranguejeira Filmes e Abará Filmes. Além de Aprender a sonhar, filme e série, realizou O samba que mora aqui (2019), o telefilme Bolívia para além de Evo Morales (2008) e o curta A mina de um povo (2007). Com a Abará, também distribui filmes.

Ambos graduados em direito, Tamiwere trabalha na defensoria pública e Taquari Pataxó é mestrando em antropologia (foto: Rodrigo Chagas)
As cotas são uma realidade no país, um direito adquirido que ainda enfrenta resistências e carece de aperfeiçoamento, como programas mais eficientes de permanência e assistência estudantil. Discuti-las, portanto, é fundamental.
Para isso, conta Rocha, “nosso foco principal é a realização de uma sessão de cinema com pagamento de ingresso num valor simbólico. Exibimos com boa qualidade e fazemos um debate depois. Estamos propondo para a Secretaria de Educação da Bahia, conversamos um pouco com a Secretaria de Educação de São Paulo. Temos parceria com o cine Bijou em São Paulo. Um professor de qualquer instituição que queira fazer uma sessão, acertamos dia e horário”.
Entrei na UFBA em 2002, quando havia a efervescência da discussão sobre cotas. O assunto sempre me interessou, por entender que existia uma disparidade no ensino. Estudei em escolas particulares e via que existia um traço racial e social muito diferente entre as escolas particulares e as públicas. Meus pais faziam um grande esforço para pagar as mensalidades. Comecei a cobrir esse assunto para o próprio jornal laboratório. A UFBA aprovou as cotas em 2004 e em 2005 implantou. Depois eu fui para a imprensa, continuei cobrindo o assunto.
Acompanho Marina, Nadjane e Taquari desde a realização da primeira série, em 2015 e 2016. Filmamos quando foram se formar, em eventos marcantes. No filme, utilizamos imagens que vêm desde a primeira temporada, coisas que não usamos na série. É um filme diferente, não é um longa baseado na série. Fomos filmando e surgiram outros personagens, como Ana Paula.
A força surpreendeu, mas vemos essa força na população brasileira todo dia, em busca dos seus sonhos, seus objetivos. Surpreendeu mais a resiliência e perseverança desses jovens em busca de um objetivo no ensino superior, mas sem esquecer de suas raízes, tradições e saberes. Acho que esse é o grande ponto. Depois de tanto tempo acompanhando essa temática eu não queria só mostrar como é importante que os estudantes de baixa renda cheguem ao ensino superior, a uma educação de qualidade, mas que também resistam com seus conhecimentos e contribuam com isso para a evolução das instituições de ensino, privadas ou públicas.

Ana Paula Rosário, da periferia de Itabuna, estudou ciências sociais (foto: Rodrigo Chagas)
Em um dos debates, uma pessoa me perguntou o que me tocou nessas situações às vezes tão precárias que filmei. Mas cresci vendo isso. E apesar de ver a dificuldade, como falta de água e luz, vejo uma ética, uma força tão grande que meu olhar vai por aí. Mais do que em direção à falta material, meu olhar vai pela sensação daquela mãe que tem de cumprir sua tarefa e ver a filha formada, ou de um ritual que está ali bem estabelecido, passando conhecimentos dos mais velhos para os mais novos, até os bebês.
Não é a pobreza, é a riqueza.
É importante estimularmos que esses saberes – que nem são novos, mas excluídos desses ambientes acadêmicos de poder – sejam realmente valorizados, colocados para dentro, não para apagar saberes, mas para confluir para um saber ainda maior, para a diversidade.
Sim. Nego Bispo propôs que esses espaços sejam ocupados por esses saberes tradicionais. Ele mesmo foi ocupar vários espaços nas universidades levando esse conhecimento. Acho que essa troca de saberes, da qual ele fala bastante, é riquíssima. Trazer esses conhecimentos para dentro da universidade é uma grande contribuição.
A música e a dança também aparecem no filme como elementos para evitar “a queda do céu”, no dizer de Davi Kopenawa, de Krenak. O tawá pataxó, por exemplo, é um elemento no filme.
É como os pataxós chamam o barro, a terra. Na Reserva Pataxó da Jaqueira há, inclusive, um local sagrado, que é a barreira de onde eles retiram esse barro, esse tawá. Eles se pintam com aquilo, fazem o batizado das crianças, dos jovens.
O Aragwaksã [ritual presente no filme] é uma festa da conquista do território pataxó, que se localiza ali, em Coroa Vermelha, que foi o primeiro local da invasão dos portugueses. Eles fazem esse ritual, essa reverência ao barro, à Mãe Terra, como lugar de onde saímos e para onde vamos. Por isso esse barro é também um elemento, um personagem que evolui ao longo do filme.
A música desse ritual pataxó também cumpre uma função importante no filme. Pegamos esses elementos e contamos a trajetória dos estudantes na universidade, para fazer essa relação poética.

Marina Barbosa, do Quilombo de Quenta Sol, próximo a Vitória da Conquista, na Bahia, formou-se em medicina pela UFBA (foto: Rodrigo Chagas)
Os desafios de manutenção dos estudantes na universidade – pública ou privada – são enormes. Coisas melhoraram, regrediram, estão voltando a melhorar. As bolsas são fundamentais. Inclusive, na série, acompanhamos a primeira cotista indígena aqui da Bahia, e quando ela entrou não tinha bolsa, residência universitária, transporte, então ela e outros sofreram muito. Batalharam muito para que esses programas viessem. Eles vieram, assim como as bolsas, e melhoraram um pouco a estrutura de hospedagem. Aqui, por exemplo, Taquari e Tamiwere moram num bairro em que os estudantes indígenas que iam chegando a Salvador foram se aglomerando. Eles chegam, pegam referência e vão se juntando, um ajudando outro; então, formou-se uma comunidade indígena nesse bairro.
Eles contam que várias vezes pensaram em desistir, mas veio o cacique, o pajé, a mãe… As comunidades apoiam muito. O próprio Taquari fala que “quando o indígena entra na universidade, entra a comunidade inteira”. O que chama a atenção nos estudantes – quilombolas, indígenas e de periferia também – é que as comunidades exercem grande poder de suporte para eles conseguirem se manter e se formar. É um investimento comunitário. Por isso, também escolhi, no filme e na série, um protagonismo coletivo. As comunidades aparecem no filme.

Nadjane Cristina, militante do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto, estudou serviço social na UniJorge (foto: Rodrigo Chagas)
Marina é o exemplo mais destacado. Saiu de uma comunidade quilombola que não tinha água nem luz, o pai foi para São Paulo, trabalhou como pedreiro a vida toda, depois retornou, a mãe ficou ali, trabalhando na roça de subsistência. Quando saiu de Quenta Sol para Salvador, Marina veio com o dinheiro do transporte e a roupa do corpo. Não tinha onde morar, ficou numa casa de uma organização social, que a abrigou por alguns meses. Ela adoeceu porque não tinha o que comer. E venceu, conseguiu se formar, é médica, dá plantões, e tem a própria clínica em Salvador. Ela ajuda a mãe, o pai, a família, a casa cresceu, conseguiram comprar um carrinho, uma moto.
Os outros também. Hoje, Tamiwere trabalha na defensoria pública, não como defensora, infelizmente, mas como funcionária. E Taquari está fazendo mestrado em antropologia. Nadjane Cristina saiu de um barraco de madeirite bem precário e conseguiu, ao longo dos anos, conquistar uma casa num conjunto habitacional; no final do filme ela se muda, pega a casa nova.
As pessoas que compartilham esse mundo – porque existem mesmo diferenças de cosmovisões – vivem uma boa experiência. As pessoas se emocionam. Eu ainda me emociono com o filme, em vários momentos. As pessoas trazem um feedback interessante em relação a se ver na tela, ver suas histórias, ver pessoas iguais, que estão batalhando.