Entenda a importância de levar o oceano para a sala de aula
Publicado em 02/03/2026
Professores podem partir de temas próximos aos alunos para revelar as conexões entre o oceano e o cotidiano
Por Ana Vitória Tereza* | Como escolas localizadas a centenas ou milhares de quilômetros da costa podem trabalhar temas ligados ao oceano? Essa pergunta me acompanha desde que me envolvi no projeto internacional Escola Azul. Lembro-me especialmente do relato de um professor sudanês que, mesmo em meio a um conflito recente, manteve sua escola funcionando e insistiu em ensinar sobre o oceano, um tema aparentemente distante da realidade de seus alunos. Aquilo me marcou profundamente. Ao mesmo tempo, eu colaborava com uma escola de elite no Reino Unido que desejava abordar o oceano a partir do pensamento sistêmico, conectando agricultura regenerativa, inteligência artificial e filosofia. Dois contextos completamente diferentes, unidos por uma mesma convicção: o oceano é assunto de todos.
Essa experiência me fez perceber a força do movimento das Escolas Azuis. Não existe um único caminho. Há múltiplas possibilidades, adaptáveis a diferentes realidades, da Colômbia às Ilhas Maurício, e, dentro do Brasil, em praticamente qualquer região. Trabalhar cultura oceânica não exige mar por perto; exige dedicação dos professores, criatividade e uma pitada de contação de história.
Mesmo longe da costa, o oceano influencia o cotidiano. Ele regula o clima, participa do ciclo da água, molda cadeias econômicas e chega ao prato de cada família. Professores podem partir de temas próximos aos alunos para revelar essas conexões:
Todos estes temas são conectáveis com matérias da grade curricular de diversas escolas e podem facilmente trazer discussões amplas com a cultura oceânica, de intermediadora.
Integrar cultura oceânica não precisa ser um processo teórico. Há caminhos concretos e acessíveis que todas as escolas podem aplicar:
O oceano pode atravessar várias disciplinas: geografia, ciências, história, economia, arte e matemática. O pensamento sistêmico ajuda os alunos a entenderem conexões entre natureza, sociedade e tecnologia e se adaptar para discussões complexas que envolvam política e clima.
Competições escolares podem estimular estudantes a criar soluções para problemas como poluição, desperdício de água, consumo responsável ou mudanças climáticas. O fator tempo faz com que pensem sob pressão sobre desafios em um curto espaço de tempo, gerando ideias inovadoras que não surgiriam num dia normal de estudos.
Murais, música, teatro e exposições permitem explorar a relação humana com o mar, despertando sensibilidade e pertencimento. A criatividade desenvolve pontes com outras disciplinas e ainda traz o benefício da concentração e alívio do estresse, especialmente importante em épocas críticas como preparação para o vestibular.
Eventos escolares sobre água e oceano podem envolver famílias e comunidades, promovendo ciência, gastronomia sustentável e cultura local. Isto também posiciona a escola como um hub de inovação e conexão com outros setores.
Rever o cardápio escolar, evitando espécies ameaçadas ou não certificadas, abre espaço para discutir sustentabilidade, nutrição e cadeias produtivas. Alimentos diferentes como algas também trazem entusiasmo e interesse pela economia azul.
Muitos educadores nunca tiveram contato com cultura oceânica. Investir em capacitação é essencial para transformar curiosidade em prática pedagógica estruturada e pode funcionar como forma de reter uma mão de obra qualificada e especializada no tema do oceano, trazendo prestígio e reconhecimento para a escola.
Bibliotecas do mar, exposições permanentes, jardins aquáticos, play grounds azuis, ou áreas temáticas ajudam a manter o tema vivo no cotidiano escolar. Algumas escolas criam espaços abertos à comunidade, ampliando o impacto educativo além da sala de aula.
Falar de oceano não é apenas falar de água salgada. É falar de clima, biodiversidade, economia, saúde, cultura e sobrevivência humana. Em um mundo interdependente, formar estudantes conscientes dessas conexões é prepará-los para os desafios do século 21.
O professor sudanês que manteve viva a cultura oceânica em meio à adversidade me ensinou que distância geográfica não é barreira. O oceano começa na sala de aula, na forma como explicamos o ciclo da água, escolhemos o que comemos, entendemos o planeta e imaginamos o futuro.

Porque, mesmo longe do mar, todos vivemos sob a influência do oceano. E toda escola pode, e talvez deva, tornar-se uma Escola Azul.
*Ana Vitória Magalhães é consultora internacional e especialista em cultura oceânica, com trajetória marcada por atuações na ONU, Unesco e Comissão Europeia. Integrou a equipe responsável pela criação do programa global Escola Azul.
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