Primeira sul-americana finalista do Global Teacher Prize, prêmio que a colocou entre os 10 melhores professores do mundo
Publicado em 24/02/2026
Embora a tecnologia esteja cada vez mais presente nas escolas, a habilidade mais crucial para navegar esse novo mundo continua sub-representada: o pensamento crítico
Estamos no limiar de uma transformação educacional tão profunda quanto a invenção da imprensa: a era dos algoritmos. Inteligência artificial, plataformas adaptativas e sistemas de recomendação estão cada vez mais presentes na vida de estudantes e professores. Eles moldam não apenas o acesso à informação, mas também a forma como pensamos, analisamos e tomamos decisões.
Mas uma pergunta decisiva permanece: a escola está preparada para ensinar pensamento crítico na era dos algoritmos?
Para muitos sistemas educacionais, a resposta é, honestamente, preocupante. Embora a tecnologia esteja cada vez mais presente fisicamente nas escolas — com computadores, tablets e plataformas digitais — a habilidade mais crucial para navegar esse novo mundo continua sub-representada: o pensamento crítico.
Vivemos em um ambiente informacional saturado. Relatórios recentes da UNESCO e da OCDE destacam que cerca de 70% dos estudantes do ensino médio têm acesso diário à internet, mas menos da metade recebe formação estruturada em alfabetização digital crítica — ou seja, a capacidade de questionar, analisar e avaliar conteúdos por meio da tecnologia.
Na era dos algoritmos, a informação é filtrada, ordenada e recomendada com base em perfis, dados e preferências. Isso significa que cada pessoa vive, em grande parte, em uma “zona de conforto cognitivo” criada pelas máquinas. Sem pensamento crítico, estudantes estão mais vulneráveis a vieses, à desinformação, a bolhas de opinião e à manipulação algorítmica.
Os currículos escolares em muitos países foram estruturados em um modelo linear: disciplinas estanques, conteúdos definidos por áreas de conhecimento e avaliações que privilegiam respostas certas ou erradas. Porém, o pensamento crítico não é um conteúdo isolado — é uma habilidade transversal que deve permear todas as áreas do currículo.
Dados da própria OCDE mostram que sistemas educacionais que incorporam habilidades de pensamento crítico ao currículo formal apresentam melhor desempenho em testes de resolução de problemas e de criatividade. No entanto, apenas cerca de 30% dos países avaliados incluem explicitamente o pensamento crítico como objetivo curricular central. No Brasil, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) avança ao reconhecer competências como pensamento crítico, comunicação e resolução de problemas, mas sua implementação ainda enfrenta desafios estruturais — desde a formação docente até os materiais didáticos e os sistemas de avaliação.
Se o currículo é a “espinha dorsal” da educação, os professores são seu coração. E é aí que encontramos o maior gargalo. A pesquisa internacional Talis (Teaching and Learning International Survey), conduzida pela OCDE, aponta que poucos docentes se sentem confiantes para ensinar habilidades como pensamento crítico, análise de dados ou ética digital — mesmo quando possuem tecnologia disponível.
Isso não é coincidência. A formação inicial e continuada de professores, em sua maioria, ainda prioriza o domínio de conteúdos tradicionais e de técnicas pedagógicas convencionais. Poucos programas de formação docente abordam de maneira sistemática:
Sem esse repertório, professores muitas vezes ficam à deriva: com dispositivos conectados à internet, mas sem condições pedagógicas claras para promover pensamento crítico.
No Spark Dubai, um dos temas centrais do debate entre educadores de diferentes partes do mundo foi justamente essa tensão entre a tecnologia e o pensamento humano. Professores relataram que, em muitas escolas, a tecnologia foi introduzida sem formação e suporte adequados — o que gerou mais ansiedade do que empoderamento. Eles apontaram que a pressão por inovação muitas vezes se traduz em “aprender ferramentas” em vez de “aprender a pensar com ferramentas”.
Esse aprendizado global demonstra algo fundamental: a tecnologia só se torna educacional quando se integra a um ambiente pedagógico que valoriza o raciocínio, a reflexão, a colaboração e a criatividade — aspectos que escapam aos algoritmos que simplesmente entregam respostas ou conteúdo.
Superar os desafios que se impõem à escola na era dos algoritmos exige reconhecer, com honestidade, onde estão os principais entraves. Um dos primeiros é a fragmentação curricular. Ainda organizamos o conhecimento em compartimentos rígidos, como se as disciplinas existissem isoladas da realidade. Nesse modelo, o pensamento crítico aparece, quando muito, como um complemento — um “extra” — e não como eixo estruturante. No entanto, formar sujeitos capazes de analisar, questionar e tomar decisões exige transversalidade. O pensamento crítico não pode ser um módulo opcional; precisa atravessar todas as áreas do conhecimento.
Outro gargalo decisivo está na formação docente. Muitos programas ainda não abordam, de forma sistemática, as competências complexas que a era digital exige. Ensinar em um mundo mediado por algoritmos implica compreender dados, ética, vieses tecnológicos e dinâmicas informacionais — e transformar tudo isso em uma prática pedagógica significativa. Sem apoio estruturado, professores acabam pressionados a usar ferramentas que não foram plenamente incorporadas à sua formação.
Também precisamos encarar uma contradição persistente: avaliamos o que é mais fácil medir, não necessariamente o que é mais importante aprender. Grande parte dos sistemas avaliativos ainda privilegia a memorização e a aplicação mecânica de procedimentos. Pouco espaço é dado à argumentação fundamentada, à resolução de problemas complexos ou à reflexão sobre processos. Se queremos que o pensamento crítico floresça, precisamos de instrumentos de avaliação que o reconheçam e valorizem.
Há ainda o equívoco de dissociar a infraestrutura do projeto pedagógico. Inserir tecnologia na escola sem uma visão clara de aprendizagem é como reunir músicos talentosos e instrumentos afinados, mas deixá-los sem partitura nem maestro. A tecnologia, por si só, não transforma; ela potencializa o que já existe — seja inovação, seja fragilidade.
Apesar desses desafios, há caminhos concretos e viáveis. O primeiro passa por repensar o currículo como uma rede de competências integradas, e não como um conjunto de disciplinas isoladas. Isso significa criar situações de aprendizagem em que estudantes analisem e interpretem dados, construam argumentos com base em evidências, questionem fontes e algoritmos, e colaborem na resolução de problemas reais. Essas capacidades não são acessórios da formação contemporânea — são condições essenciais para viver e participar ativamente do cotidiano.
A formação docente, por sua vez, precisa ser contínua, contextualizada e colaborativa. Não se trata de oferecer encontros pontuais, mas de construir percursos formativos permanentes, conectados à realidade da escola. Professores necessitam de mentoria, de espaços de reflexão coletiva, de planejamento conjunto e de formações que articulem tecnologia, currículo e ética. Precisam, sobretudo, de apoio para transformar o pensamento crítico em prática cotidiana — em perguntas provocativas, em projetos interdisciplinares, em debates estruturados.
As avaliações também devem evoluir. Mais do que respostas corretas em testes padronizados, é preciso valorizar a capacidade de argumentar com evidências, a criatividade na solução de problemas, o trabalho colaborativo e a reflexão sobre as decisões tomadas. Portfólios, projetos, apresentações públicas e debates avaliados por critérios transparentes ampliam o olhar sobre a aprendizagem e capturam dimensões que provas tradicionais não alcançam.
Outro elemento fundamental são as comunidades de prática. Professores aprendem com professores. Redes colaborativas — presenciais e virtuais — fortalecem a cultura de inovação, promovem troca de experiências e constroem soluções coletivas. Quando o conhecimento circula entre pares, a escola se torna um espaço vivo de aprendizagem também para quem ensina.
Nenhuma mudança será sustentável sem uma transformação cultural. Precisamos de escolas que valorizem a indagação, o questionamento e a experimentação. Ambientes onde o erro seja compreendido como parte do processo e não como fracasso. Onde perguntar seja tão importante quanto responder.
Se algo se evidencia nas discussões globais sobre educação e tecnologia — inclusive em encontros internacionais como o Spark Dubai — é que tecnologia é meio, não fim. Ela pode ampliar práticas pedagógicas potentes, mas também pode reforçar modelos ultrapassados se não houver intencionalidade.
A verdadeira educação digital não se resume a estar conectado. Trata-se de formar sujeitos conscientes, críticos e criativos diante das conexões que estabelecem. Exige uma escola que vá além da mera transmissão de conteúdos e coloque o pensamento crítico como norte pedagógico.
A questão central não é se a tecnologia chegou à escola. Ela já está presente. A pergunta decisiva é se estamos preparados para ensinar nossos estudantes a pensar em um mundo mediado por algoritmos. A resposta dependerá das escolhas que fizermos agora — investimento consistente em formação docente, políticas curriculares corajosas e uma visão educacional que coloque o ser humano, e não o algoritmo, no centro da aprendizagem.
Somente assim a escola cumprirá sua missão mais profunda: formar mentes críticas, criativas e livres na era dos algoritmos.