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Publicado em 16/05/2025
Mais do que impedir, é preciso educar — e esse é, sem dúvida, um dos papéis mais urgentes da escola contemporânea
Nas últimas décadas, as tecnologias digitais transformaram profundamente a forma como as crianças se comunicam, aprendem e se relacionam com o mundo. As redes sociais, em particular, tornaram-se parte cotidiana da vida infantil, mesmo antes da adolescência. Embora tragam inegáveis oportunidades de expressão e aprendizagem, também impõem desafios urgentes — especialmente para o ambiente escolar, que precisa se preparar para lidar com os impactos positivos e negativos desse fenômeno.
Dados recentes do TIC Kids Online Brasil (2023) revelam que cerca de 93% das crianças e adolescentes entre nove e 17 anos acessam a internet com regularidade, sendo que 78% utilizam redes sociais. Esse uso se intensifica a partir dos 10 anos, mas já é significativo a partir dos sete, mesmo que, tecnicamente, redes como Instagram, TikTok e Facebook tenham restrições de idade.
Essas plataformas despertam o interesse das crianças por sua natureza interativa e visual, mas também as expõem a riscos como cyberbullying, contato com conteúdos inadequados e pessoas desconhecidas, vício em tela, perda de privacidade e efeitos negativos sobre a autoestima.
Têm se destacado, também, nos últimos meses, diversos episódios de automutilação ligados a estímulos maliciosos encontrados nas redes. Para os educadores, esse contexto requer atenção redobrada: o universo digital se entrelaça com as experiências escolares, impactando comportamento, aprendizagem e relações sociais.
Debate sobre redes sociais e infância não pode mais ser adiado (Foto: Shutterstock)
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Diante desse cenário, é fundamental que o espaço escolar assuma um papel ativo e propositivo no debate sobre redes sociais e infância.
A escola não pode apenas proibir ou ignorar o uso dessas ferramentas; ela deve educar para o uso consciente, crítico e responsável da tecnologia.
Como sendo um espaço no qual os estudantes passam a maior parte da sua semana, é fundamental que as instituições sejam não só um lugar seguro, mas também parceiras da família nesse combate ao uso indiscriminado e perigoso das tecnologias.
O letramento digital precisa ser parte do currículo desde os anos iniciais. Isso inclui ensinar às crianças como avaliar informações, compreender os algoritmos que moldam o conteúdo exibido e refletir sobre o tempo gasto online. Além disso, é necessário abordar o impacto emocional das redes sociais — como a comparação com vidas idealizadas e o medo de ficar de fora (FOMO, na sigla em inglês).
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Educar para a cidadania digital é uma responsabilidade coletiva. Por isso, envolver as famílias nesse processo é crucial. Muitos responsáveis não conhecem tais perigos ou não têm o hábito de estar a par do que os menores estão vendo ou fazendo nesses ambientes virtuais, acreditando que estar dentro de casa significa, necessariamente, estar em um lugar seguro — ainda que o celular, por exemplo, abra portas para espaços tão ou mais perigosos que a rua. Por sentirem-se despreparados para lidar com o uso precoce das redes, a escola pode atuar como ponte de informação e formação, promovendo rodas de conversa, palestras e campanhas de conscientização.
Para tornar esse debate mais efetivo, educadores podem adotar diversas estratégias:
Projetos interdisciplinares sobre mídia e tecnologia, com produções de conteúdo crítico (vídeos, podcasts, cartazes).
Dinâmicas e oficinas sobre segurança digital, privacidade e empatia online.
Estudos de caso baseados em situações reais que envolvem cyberbullying ou exposição excessiva.
Uso pedagógico das redes sociais em projetos escolares, como forma de mostrar o potencial positivo dessas ferramentas.
Parcerias com especialistas (psicólogos, educadores digitais, influenciadores responsáveis) para conversas com estudantes e familiares.
Encontros com os responsáveis para levantar debates, explorar casos recentes e desenvolver estratégias conjuntas para a resolução de problemas.
O debate sobre redes sociais e infância não pode mais ser adiado. É preciso que a escola assuma seu papel como agente formador em um mundo cada vez mais conectado.
Ao compreender a linguagem digital, seus efeitos e propor estratégias educativas, o ambiente escolar pode tornar-se espaço seguro de reflexão, acolhimento e construção de saberes que preparem as crianças para os desafios atuais. Mais do que impedir, é preciso educar — e esse é, sem dúvida, um dos papéis mais urgentes da escola contemporânea.
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