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Colunista

Raquel Alves

Filha do educador Rubem Alves, foi presidente do Instituto Rubem Alves. É escritora, palestrante e fundadora da Arquitetura do Sensível

Publicado em 23/02/2023

A literatura infantil e o desenvolvimento humano

A literatura tem o poder de nos transportar para o mundo cujas dores viram alegria, a fraqueza vira força e o medo se torna coragem

Sou filha do escritor e educador Rubem Alves. Cresci sendo alimentada por livros e histórias. Fui, inclusive, alguns personagens que meu pai criou para me ajudar a lidar com situações da vida. Fui a menina que sentia saudades do pássaro, seu melhor amigo que precisava viajar, fui a sementinha que tinha medo de crescer e virar árvore, fui a porquinha que sofria por não ter seu rabo enroladinho como os demais, fui o ganso que temia a morte de seu pai e a florzinha que sofria por ter uma pétala partida, o que fazia com que as outras a olhassem com olhos de espanto…

Por conta disso, sem que nenhum especialista no assunto me dissesse, sei que os livros e o mundo mágico da literatura têm o poder de nos transportar para o mundo cujas dores viram alegria, a fraqueza vira força, o medo se torna coragem e o que parece um bicho de sete cabeças se torna solucionável. 

A literatura me ajudou a lidar com o bullying na infância, com as inúmeras cirurgias que tive que fazer por conta do lábio leporino e com a dor da diferença. Afirmo também que aquelas sementes plantadas pelo meu pai, que muito me ajudaram na infância, brotaram em algum lugar dentro de mim e hoje solidificam minha forma de pensar, de amar, de acreditar nas pessoas e, acima de tudo, na consciência que carrego sobre minha responsabilidade e participação na construção de um mundo mais harmonioso e saudável – psicologicamente, emocionalmente e intelectualmente. Não tenho dúvidas que essas sementes da literatura infantil me fizeram desejar virar escritora também.


Leia: Torço para que a técnica de dar aulas dê espaço para a humanização


Eu, realmente acredito que a literatura tem o poder de transformar e de contribuir no desenvolvimento humano. Vivemos a era da quarta revolução industrial, que trouxe a inteligência artificial para as nossas vidas. 

Nos vemos diante do desafio de nos destacar dos computadores ao mesmo tempo em que se tornam cada vez mais imprescindíveis para nós. Precisamos entender que, para não sermos ‘engolidos’ pelas máquinas, devemos ser perspicazes. E nesse sentido, o melhor que temos a fazer é nos aprofundar na nossa condição humana, de pensar e agir por conta própria.

Esse universo humano que pensamos, sentimos e agimos é o mundo das habilidades

Claro que a literatura sozinha não desenvolve nosso lado humano. A escola, a família e os amigos possuem papel ativo e primordial nisso. Mas ela é fundamental, pois sai de dentro do coração e das vivências de uma pessoa, passeia pelo universo encantado da imaginação e das personagens e, por fim, chega no coração de outra pessoa como um abraço que deseja mostrar o gosto bom da vida, em forma de letras e ilustrações. 

“Um livro é um brinquedo feito com letras. Ler é brincar”, disse certa vez meu pai. Gostaria de audaciosamente acrescentar um detalhe à essa frase de Rubem Alves: um livro não é apenas um brinquedo com sabor de ludicidade. Ele pode educar, fortalecer, apontar caminhos e, acima de tudo, servir como um espelho cujas dores e desafios das crianças são refletidos nas histórias e personagens que dizem: “ei, vem cá! Vamos resolver isso e brincar juntos?”.

Meu pai, tenho certeza, já sabia há 40 anos atrás, de todo esse poder fortalecedor e transformador que a literatura pode ter se bem trabalhada e conduzida. Por isso escreveu e apostou nela como peça fundamental na construção da minha identidade subjetiva.

Atualmente, a educação reconhece as competências socioemocionais como base estrutural para o desenvolvimento humano. Por isso a BNCC aponta como eixo transversal a necessidade de trabalhá-las em sala de aula. Aposto na literatura, no desenvolvimento humano e na educação – formal e/ou informal – como a união perfeita capaz de manter em nós a chama da esperança de um futuro melhor sempre acesa, cuidando de apontar, para cada um, a vida como nosso bem mais precioso.

Escute nosso episódio de podcast:


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