A casa caiu. Os novos espaços de aprendizagem foram libertados

Hoje, aprende-se em casa, nas praças escolas e, no caso do ensino superior, até nos bares. Com o aprendizado para toda a vida ficou impossível determinar um local específico

Não faz muito tempo, as escolas eram os únicos cenários de aprendizagem. E o professor, o comandante. O que mudou?  Por exemplo, nenhuma escola faz publicidade de seu espaço físico, como era feito antes: duas quadras poliesportivas, ginásio coberto e outros elogios aos prédios. Não se culpe a pandemia, mas o espaço de aprendizagem mudou muito, ampliou-se, porque se afinal vamos ter que aprender a vida toda, isso pode ocorrer num belo prédio, numa sala de aula comum, na praça ou em casa. A tecnologia cuida de ligar as pessoas a esses espaços.

Com seis andares, distribuídos em 3 mil m², a Trevisan Escola de Negócios, localizada no Brooklin, em São Paulo, e focada no ensino superior, além de arcar com o custo do edifício exclusivo investiu na construção de um auditório, que servia para eventos da instituição. Como a experiência digital já estava adiantada, quando houve a paralisação das aulas presenciais, a migração fluiu de maneira surpreendentemente boa. Os alunos aprovaram o digital.

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Fernando Trevisan

Fernando Trevisan: a escolha pelo digital se impõe

A partir daí a escola adotou o slogan de 100% digital, e sem aluguel, houve recursos para investir ainda mais em novas plataformas. A locação do espaço representava 20% da receita da instituição. Considerando os investimentos que também já vinham sendo feitos no ensino digital desde 2018, a Trevisan lançou mão de ser representada por um prédio, e desde março de 2020, funciona 100% digital: nem mesmo a administração faz uso de um espaço único.

Adaptações necessárias

Com a economia em aluguel, a instituição pôde dar foco no ensino e na nova metodologia.

“Deixamos de gastar com tijolos e cimento e passamos a investir na qualidade, tecnologia, novos conteúdos e também destinar boa parte do recurso para capacitação de professores”, conta Fernando Trevisan, diretor administrativo.

O modelo, claro, funciona especialmente por causa do perfil do público da Trevisan Escola de Negócios: aquele que procura por EAD por estar no mundo do trabalho e sem vontade ou tempo para a deslocamentos pelas atravancadas ruas de São Paulo.

Essa quebra de paradigma foi precedida de muitas discussões sobre a repercussão de abrir mão de um local físico. Foi aí que as experiências vitoriosas em todo o mundo na utilização de novos espaços de aprendizagem foram determinantes para a tomada da decisão. Agora é aprender em casa.

“Um diferencial que percebemos foi no networking. Antes isso era restrito a quatro paredes, hoje nossos alunos conseguem se relacionar com pessoas de outras partes do mundo; temos alunos de língua espanhola e brasileiros que moram em outros países”, comenta Fernando Trevisan, reforçando que tudo isso representa uma adequação à realidade do mercado e de público. “Vejo essa decisão certamente como um caminho promissor, especialmente para quem lida com educação para área de negócios. A tendência de digitalização, flexibilidade e conveniência na oferta de serviços é algo sem volta”, conclui.

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Vende e loca

As fórmulas ortodoxas de aprendizagem e de instalações pipocam por todos os lados. A Ânima, grupo que reúne faculdades no Brasil, vendeu as escolas internacionais de Florianópolis e de Blumenau e o Colégio Tupy, em Joinville, por 30 milhões de reais. Pelo contrato, a Bahema, empresa que vem colecionando escolas de educação básica pelo país, assume o compromisso de sublocar espaços nos campi das faculdades da Ânima, pelo prazo mínimo de 10 anos, com valor anual de 816 mil reais.

No comunicado, de fato relevante ao mercado, a Ânima informa que “integra o acordo, ainda, o compromisso da Bahema de sublocação de espaços em outras IES da Ânima Educação. Estima-se, em um cenário-base, a sublocação de 15 espaços adicionais, a um VPL de R$ 54.270.949,00, considerando o fluxo dos 20 primeiros anos dos contratos de locação. Caso a Bahema não subloque ao menos cinco outros espaços nas IES da Ânima Educação até 2025, será devida uma multa de R$ 1.000.000,00 para cada espaço que deixar de ser sublocado”.

Parceiras nas oportunidades

Segundo pronunciamento da Bahema, é uma oportunidade bastante vantajosa e eficiente para a utilização de imóveis que já são adequados ao setor de educação e que viabilizam a expansão das escolas do grupo, em especial de novas unidades da Escola Mais. Encontrar espaços adequados e financeiramente viáveis para abertura de escolas costuma ser um desafio grande e exige investimentos relevantes. Com os espaços ociosos das faculdades, esse passo é dado com mais facilidade e segurança.

Segundo a resposta da Bahema por escrito, “no caso da sublocação de espaços ociosos da Ânima pela Bahema Educação, trata-se de um acordo de parceria que faz sentido para as duas companhias: para a Ânima é uma oportunidade de dar utilidade a espaços ociosos de seus campi, o que pode gerar valor incremental de pelo menos R$ 5 milhões para a companhia; para a Bahema é uma forma mais eficiente de encontrar imóveis adequados para viabilizar a expansão de suas escolas.

Isso porque o contrato prevê que o valor da sublocação é um percentual da receita da escola que ocupará o espaço abaixo do percentual que usualmente pagamos como aluguel. Além disso, os investimentos em reforma e adequação serão menores, já que os existentes são espaços de educação. Assim, essa é uma operação ganha-ganha, que faz sentido para as duas companhias”, finaliza a nota.

Ciência nos botecos

A utilização de espaços antes nunca usados pôde ser vista com professor dando aulas ao ar livre no campus, durante a pandemia, nos Estados Unidos, com um copo de vinho e outras excentricidades. Exageros à parte, e consolidada essa questão de evitar aglomerações, os espaços abertos de aprendizagem, que antes eram decantados apenas por especialistas, se impuseram.

No Ceará, o grupo Christus, com várias escolas e centro universitário, já utiliza a fórmula com sucesso há muito tempo, o que permitiu um crescimento mais rápido. Os alunos do curso superior à noite se dirigem para as salas de aulas do Colégio Christus, da família Rocha. A filha mais nova que dirige uma das escolas, Raquel, disse que no começo, e já faz anos, houve um estranhamento, mas passou logo. O centro universitário tem um prédio exclusivo que abriga as ciências: medicina, odontologia e outras. “O laboratório de cada disciplina exige um espaço próprio”, diz Raquel Rocha.

espaços de aprendizagem

Alunos do Senac em um bar de SP durante um Pint of Science

Na Inglaterra, em 2012, uma comunidade de estudantes de pós-graduação e de pós-doutorado resolveu criar um programa de divulgação de ciência para a população. Os locais escolhidos foram bares, restaurantes e cafés. Com o sucesso, a iniciativa, com o nome de festival Pint of Science, espalhou-se pela Inglaterra e de lá para o mundo.

Adesão brasileira aos bares

No Brasil, o Pint of Science chegou em 2012 e encontrou um ambiente favorável para o crescimento. Em 2020, havia mais de 80 cidades que promoviam esses encontros anuais. A pandemia dispersou, alguns ficaram online, mas a tendência é a retomada. O festival Pint of Science tem como premissa reunir cientistas, pesquisadores e o público leigo para um happy hour informal e divertido sobre assuntos científicos, organizados por voluntários.

Em Curitiba, por exemplo, no ano passado as doses de conhecimento foram tomadas por 2.450 pessoas, que assistiram a 18 palestras ministradas por pesquisadores sobre termas como inteligência artificial, agrotóxicos, violência obstétrica, desastres mundiais, ficção e vacinação. Para o coordenador do Pint of Science de Curitiba, Fabio Marcel Zanetti, professor do Departamento de Física da Universidade Federal do Paraná (UFPR),

“os bares estiveram lotados em todas as noites e as palestras foram muito produtivas. O público interagiu e fez perguntas ao final, mostrando interesse em aprender. É esse justamente o espírito do evento, gerar discussão e levar a ciência para conversa de bar”, avalia Zabetti.

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