Texto escrito pelo anarquista Max Stirner no século 19 traz questionamentos sobre educação que se mantêm atuais

Mesmo que aparentemente transfiguradas por uma nova linguagem para lhes trazer uma imagem de atualidade, velhas questões continuam sempre a rondar a definição dos princípios centrais dos grandes temas sociais. Não é diferente com a educação. Assim, ao olharmos para reflexões de dois séculos atrás, encontramos, com variações de vocabulário e contexto, perguntas e ideias que permanecem instigantes.
É o caso de um pequeno ensaio do pensador anarquista Max Stirner, publicado originalmente na Gazeta Renana em 1842, de Colônia, Alemanha, sob o título de O falso princípio da nossa educação. O ensaio ganhou edição brasileira em 2016 pela Intermezzo Editorial, acrescida de prólogo de Christian Ferrer e ótima introdução contextualizadora de Jean Barrué.

Solario (retrato), obra de 1967 do artista Jean Dubuffet, criador do termo assemblage, ligado à ideia de acumulação (de referências, obras e objetos). Para ele, a arte deve estar sempre em mutação, sem institucionalizar-se

Solario (retrato), obra de 1967 do artista Jean Dubuffet, criador do termo assemblage, ligado à ideia de acumulação (de referências, obras e objetos). Para ele, a arte deve estar sempre em mutação, sem institucionalizar-se | © Reprodução


Nascido Johann Casper Schmidt (1806-1856), Stirner é o autor de O único e a propriedade privada (1844), obra em que professa sua visão filosófica centrada na crença no indivíduo e na visão negativa das instituições como força organizadora do convívio social.
Como outros pensadores da época – notadamente Marx e Engels – também foi fortemente influenciado por Hegel (1770-1831) e sua ideia de hegemonia do espírito. A questão inicial de O falso princípio parte daí: qual seria a palavra que exprimiria o espírito de seu tempo e que tipo de educação levaria os homens de então a serem os criadores dessa ideia?
Ao identificar as forças presentes no campo educacional, Stirner mostra um cenário com correspondência no atual: de um lado, havia uma educação humanista, que visava formar indivíduos versados na cultura clássica, voltada a poucos senhores, e que tenderia a um dandismo; de outro, uma educação dita realista, voltada mais à vida prática, assentada no já ascendente conhecimento científico e nas necessidades do mundo do trabalho, que levaria a um industrialismo.
Ainda que um e outro tipo de formação pudessem ter suas virtudes, ambos acabariam conformando homens aprisionados a uma dinâmica social preexistente, dizia Stirner. Sendo senhores (dândis) ou cultos membros da engrenagem produtiva, os homens não estariam sendo educados para desenvolver seu máximo potencial, para atingir a liberdade plena do ser.
Para o autor, apenas uma educação que se voltasse a superar o saber, a usá-lo como meio para despertar a vontade, seria verdadeiramente libertadora. “O Saber também deve morrer para, na morte, reflorescer em Vontade”, escreve.
Essa vontade autônoma em direção ao conhecimento levaria a uma sociedade de homens que chegassem a um plano moral superior, ao personalismo. Esse personalismo seria o retrato da liberdade plena do indivíduo, a sua não submissão àquilo que é preestabelecido.
Para isso, os professores teriam de desaferrar-se da noção de autoridade alicerçada no plano institucional. Sua maior arma para combater a eventual hostilidade ou arrogância das crianças seria opor-lhes a “dureza de sua própria liberdade” enquanto professor. Stirner, diga-se, ganhou a vida lecionando em liceus.
Sua missão envolveria, para ajudar o aluno a encontrar sua personalidade, fazê-lo superar os ideais seja do humanismo, voltado à compreensão do passado, seja do realismo, centrado no presente, ambos presos a uma visão temporal. Transcender essa temporalidade seria o caminho para o espírito consciente de si, eterno conceito que denota forte influência de Hegel e da visão de que a autoconsciência leva à autocriação.
Nessa perspectiva, o saber não deve ser inculcado (ou virar objeto da memória, nos termos atuais), “mas conduzir o indivíduo ao seu pleno desenvolvimento”. Assim, a pedagogia não poderia partir da ideia de civilizar, “mas da ideia de desenvolver pessoas livres, caracteres soberanos”.
Como se vê, podemos estar mais afeitos a outra terminologia, mas o desafio continua posto nos dias de hoje.
O falso princípio da nossa educação, de Max Stirner, introdução de Jean Barrué e tradução de Plínio Augusto Coêlho, Intermezzo Editorial, 96 páginas, R$ 28

O falso princípio da nossa educação, de Max Stirner, introdução de Jean Barrué e tradução de Plínio Augusto Coêlho, Intermezzo Editorial, 96 páginas, R$ 28

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