NOTÍCIA

Edição 218

1988-2015: os saldos da violência nas manifestações de professores no Paraná

No comparativo entre os protestos, especialistas dizem que a reação de apoio à docência e à educação pode abrir um bom momento para discutir a imagem do professor na sociedade

© APP Sindicato
O governo do Paraná justificou que cumpria decisão judicial para prevenir invasão à Assembleia Legislativa; 1.500 policiais cercaram a praça

Tarde de 29 de abril de 2015. Bombas de efeito moral, cães e balas de borracha. Quase duas horas de ação violenta contra professores em greve. Saldo: 213 feridos e 14 pessoas detidas. Imagens de professores caídos no chão, sangrando, sendo amparados pelos colegas correm rapidamente as redes sociais. Indignação, desamparo e impotência são os primeiros sentimentos a serem expressos naquele momento.
A cena não é inédita. Há quase 30 anos, a mesma praça do Centro Cívico de Curitiba foi palco para outro episódio violento contra os professores do Paraná. Em 30 de agosto de 1988 policiais militares avançavam com cavalos, cães e bombas de efeito moral contra milhares de docentes em greve, que protestavam por reajuste salarial e melhores condições de trabalho. Dez pessoas ficaram feridas e cinco foram presas.
Afinal, o que mudou e – principalmente o que não mudou – nessas três décadas? Há 30 anos os professores se manifestavam sob os efeitos de uma recém-terminada ditadura militar. Hoje, num estado democrático consolidado, manifestações são um direito. Se por um lado a violência do governo Beto Richa (PSDB) impressionou tanto, também provocou reação inversa. Numa era de transmissão em tempo real de imagens pelas redes sociais, a empatia com os professores foi imediata. Alguns apostam que esse pode ser um bom momento para discutir o papel e a imagem do professor para a sociedade.
Ontem e hoje
“Você enfrenta agressões verbais em sala de aula e luta por respeito uma vida inteira. Mas não espera que a agressão venha do Estado”, diz Élide Bueno, de 65 anos, professora há 37 anos. Dirigente sindical em 1988, Élide estava dentro da Assembleia Legislativa do Paraná quando a Polícia Militar investiu contra os professores naquele 30 de agosto. Em abril deste ano, estava na praça, conversando em meio aos manifestantes, quando começou a ouvir os estrondos das bombas. Ela diz que não correu. Foi se afastando, enquanto tentava acalmar outros colegas para evitar um pisoteamento. A caminhada foi interrompida diversas vezes pela ardência nos olhos e dificuldade para respirar – efeitos do gás lacrimogêneo e do spray de pimenta usados pelos policiais.
Élide traduz o que sentiu como desespero, principalmente ao pensar nas sobrinhas que moram com ela e que telefonavam pedindo que saísse de lá. “Fiquei estarrecida. A gente pondera que vive em plena democracia e a expectativa é de que fatos como aquele de 1988 não se repitam”, diz a professora. “A sensação é de impotência. Estávamos lutando por direitos, não estávamos agredindo ninguém. A dor não é da ferida física, mas da ferida moral.”
Os professores do Paraná estavam em greve por melhores salários e também protestavam contra o projeto que alterou a forma de custeio do fundo previdenciário dos servidores públicos, a ParanáPrevidência. A praça foi cercada por 1.500 policiais militares para impedir a ocupação da Assembleia Legislativa. Para o governo do Estado do Paraná, a operação militar se justificava no cumprimento de uma decisão judicial favorável à Assembleia Legislativa, proibindo a invasão da casa. A ação violenta dos policiais teria sido desencadeada por um grupo – identificado pela Secretaria da Segurança como do movimento Black bloc – que tentou furar o cerco de grades em torno da praça. Mas mesmo depois de detidas 14 pessoas, a violência não cessou. Os manifestantes – a maioria professores e servidores públicos de outras categorias – imediatamente recuaram, o que não foi suficiente. Em poucos minutos os primeiros feridos começavam a ser socorridos no saguão da Prefeitura Municipal, que improvisou uma sala de emergência com 50 prof
issionais da Saúde para prestar os primeiros atendimentos.
Para o presidente da APP-Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do Paraná, Hermes Silva Leão, a ação violenta contra os servidores públicos evidencia o entendimento do Estado sobre o que é segurança pública. “Em agosto de 1988, o Brasil ainda vivia sob a Constituição do regime militar [a nova Constituição foi promulgada em outubro, dois meses depois], os professores eram monitorados em salas de aula e lutavam com muito cuidado”, lembra Leão. “O que surpreende agora é que a gente ainda percebe uma herança muito forte do período de autoritarismo, de ditadura”, avalia.
Rede de apoio
Estudiosa das políticas públicas em Educação, do sindicalismo e do trabalho docente, a diretora do Setor de Educação da Universidade Federal do Paraná, Andréa Caldas, vê na comparação entre as manifestações de 1988 e de 2015 duas intenções diferentes por parte do Estado.
Em 1988, a professora lembra que o então governador Alvaro Dias foi eleito pelo PMDB, partido historicamente contrário à ditadura militar. Segundo Andréa, a ação violenta da PM provocou, assim como agora, perplexidade. “Professores estavam rezando quando foram surpreendidos por disparos de bombas e pelos cavalos, que se descontrolaram”, conta. “Mas o que aconteceu foi uma ação muito episódica, pela qual mais tarde Alvaro Dias chegou a pedir desculpas.” Para Andréa, o que chama a atenção em 2015 é que não se trata de uma situação de descontrole, mas planejada.
Por outro lado, é possível falar em saldo positivo. Em sua avaliação, a demonstração de uma reação da sociedade contra a repressão policial, e a criação de uma forte rede de apoio aos professores e à educação, podem ser indícios disso. “É inadequado desqualificar o movimento alegando a presença de black blocs ou a partidarização das manifestações”, afirma Andréa. “Nenhum partido consegue mobilizar uma massa como essa se não houver uma insatisfação real. E a sociedade está enxergando isso”, acredita.
Segundo Andréa, existe um mito de que a sociedade não valoriza a educação e os educadores. “Os professores incorporaram a ideia de desvalorização social da categoria, se queixam de que não são valorizados pelos alunos, pelos pais, pela sociedade”, diz. De acordo com Andréa, os últimos episódios relacionados à greve da categoria no Paraná desmistificam esse senso comum e fortalecem a imagem pública dos professores. “Desde a primeira paralisação, em fevereiro, tem sido surpreendente o apoio da sociedade”, afirma Andréa. “Anônimos chegavam ao acampamento (montado na Praça Nossa Senhora de Salete, no Centro Cívico) trazendo alimentos, oferecendo ajuda para lavar as roupas dos professores.”
Em 24 horas após a repressão policial aos manifestantes, a campanha on-line “Somos todos professores” já tinha a adesão de 12 mil pessoas. A página de apoio aos professores do Paraná foi uma iniciativa voluntária do publicitário Maurício Ramos, acostumado a colocar a comunicação a serviço de causas sociais. “Quando aconteceu aquela selvageria e a reação começou tão logo as primeiras imagens foram publicadas, foi possível entender a temperatura”, diz Ramos. “Percebi que a sociedade poderia aprender com aquilo que estava acontecendo.”
A campanha ganhou o primeiro mote: “menos bala. Mais giz”. Em 48 horas, já eram 25 mil pessoas engajadas e confirmadas em um ato de apoio aos professores marcado para a semana seguinte. “A ideia não era desgastar o governo, mas definitivamente não podemos continuar aceitando coisas que não podem ser aceitas”, diz Ramos. Para o publicitário, o grande mérito do movimento que surgiu em apoio aos professores foi a transversalidade de segmentos sociais e de posicionamentos políticos. Ramos acredita que a mobilização pode ser canalizada mais adiante para pautas em defesa da democracia e do direito de manifestação.
Mãe e filho
Logo após o confronto, circulou a informação de que um policial que trabalhava na operação tinha uma mãe professora presente na manifestação. A história é confirmada pela servidora de 59 anos, a um ano da aposentadoria, que pede para não ser identificada. Seu nome foi anunciado, junto com  outros, pelo caminhão de som que comandava a manifestação. Bilhetes chegavam às mãos dos organizadores para que fossem anunciados nomes de colegas que se dispersaram. “Fui até o caminhão e encontrei dois policiais que estavam ali a pedido do meu filho”, conta a servidora. “Um deles estava chorando. Fardados, achei que um deles fosse meu filho e quase dei um abraço. Quando vi que não era, só pedi que contasse a ele que eu estava bem.”
Mãe e filho só se encontraram dois dias depois, na cidade do interior do Paraná onde vivem. Convocado para a operação, o policial havia pedido que a mãe não participasse da manifestação. Segundo ela, o filho se preocupava porque sabia que havia risco de confronto.  “Mas eu disse pra ele: a quem você acha que puxou quando insiste em arriscar a vida pelos outros? Não me arrependo.”

 Outro lado
Impedidos de acompanhar a sessão da Assembleia Legislativa, os professores viram de longe o projeto que altera a ParanáPrevidência ser aprovado e sancionado pelo governador do Estado, Beto Richa. Depois de defender a estratégia militar contra uma suposta ação de black blocs, o governador veio a público pouco mais de uma semana após o conflito para condenar a violência. Em nota, Beto Richa disse não poder concordar “com atitudes que coloquem em risco a vida de alguém”. “Venha de onde vier, a violência e a intolerância são sempre condenáveis”, disse o governador. Em entrevistas, chegou a pedir desculpas ao sindicato dos professores, à sociedade paranaense e à sociedade brasileira.
Dias depois da ação da Polícia Militar, os então secretários da Educação, Fernando Xavier, e da Segurança Pública, Fernando Francischini, foram substituídos. Pressionados, os dois anunciaram pedidos de demissão. O comandante geral da Polícia Militar, Cesar Kogut, também pediu afastamento do cargo. A Secretaria da Educação está sob o comando de Ana Seres Trento Comin. Professora por 40 anos da rede pública de educação, Ana foi recebida com boa vontade pelos professores. “Sabemos que há divergências, mas a secretária é uma professora que conhece a escola e se mostrou receptiva para discutir as nossas demandas”, afirma Hermes Leão, presidente da APP Sindicato.

Autor

Lenise Aubrift Klenk, de Curitiba


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