A violência que



Taís Peyneau Agência Repórter Social



 Maristela Santos 
Vale, diretora da Caic Nações Unidas, no Rio de Janeiro (RJ): rotina inclui tiroteios e enterro de alunos

“No início do ano faltam vagas à noite, mas depois até sobram, por causa da alta evasão. A violência espanta os alunos.” A constatação da diretora Maristela Santos Vale, da Caic Nações Unidas, no Rio de Janeiro (RJ), não se dá sem um tom de transtorno.

Ela considera fazer tudo ao alcance para que os alunos do noturno não deixem de estudar: libera as mães para levarem filhos pequenos às aulas e tolera atrasos de até mais de uma hora de quem trabalha no centro da cidade, a quase duas horas de distância.

Não se trata apenas de um esforço de logística, mas de aproximação: Maristela trata os estudantes pelos nomes, atende-os a qualquer hora e em qualquer lugar, incentiva o envolvimento em projetos. Este ano, comemora a garantia, pelo MEC, de livro didático e merenda para o ensino médio – mais um incentivo para o aluno não desistir.

Mas sabe: por mais que acredite no potencial dos estudantes, no bairro de Inhoaíba, zona oeste do Rio, dificilmente terá uma noite tranqüila no trabalho ou qualquer facilidade para desenvolver esse “potencial”. Para dirigir a escola na comunidade Nova Cidade, ou Favela do Barbante, uma das mais perigosas da região, encara uma luta titânica.

No dia em que a reportagem de Educação visitou a escola, um rápido tiroteio, à tarde, pouco antes da entrevista, deixou a escola em alerta. “Mas era distante, não chegou até aqui”, ressalva a diretora. “Quando a coisa está complicada, os alunos da comunidade nem vêm, só os de fora. Eles percebem que há problemas e preferem ficar em casa.” Dessa vez, a noite seguiu “tranqüila”. Mas parar as aulas em meio a uma troca de tiros entre polícia e traficantes é rotina mensal. Nesses casos, não há opção, a não ser trancar os alunos até que tudo se acalme. “Eles ficam loucos para ir embora, em geral deixaram filhos em casa e querem ver se está tudo bem, mas não posso deixá-los sair em meio às balas.” Passada a tormenta, impossível ter algum ânimo para voltar às aulas. “Naquele dia já era, porque ninguém tem mais estrutura pra continuar estudando.”


Ordens do tráfico

– Em outras vezes, Maristela chega para trabalhar e encontra a comunidade “de


 Andréia Aldeia e a filha, Michele: proibição de estudar à noite depois de troca de tiros

luto” pelo assassinato de algum “amigo” (traficante de drogas da região). Por ordem do tráfico, tudo precisa fechar. Nessas situações, um ingrediente mais amargo: nas duas vezes este ano em que a escola foi “convidada” a ficar de luto, os assassinados eram ex-alunos.

“Quando um aluno começa no tráfico, ele ainda tenta levar a escola, em geral à noite”, explica Maristela. Mas, nessa disputa, rápido a corda arrebenta – lado mais fraco, a escola. Quando o jovem começa a assumir responsabilidades maiores nas organizações, o “trabalho noturno” e o envolvimento cada vez maior afastam-no de vez das salas.

“É uma batalha desleal”, lamenta a diretora. “O tráfico dá dinheiro muito rápido e muitos jovens vão parar nele para suprir necessidades básicas suas e da família.” No ano passado, Maristela foi ao enterro de alguns alunos.

A maioria estudava à noite. “É muito triste perder um aluno assim. Parece que não vou ter forças para trabalhar no dia seguinte.”


“Pensei que de noite ia dar certo”

– A violência afastou do noturno Michele Aldeia Melo, 20 anos, estudante do 2° ano do ensino médio. Ela e outros 500 alunos do Ciep Professor César Pernetta assistiam a uma aula, em outubro, na Vila União – uma das 16 comunidades que compõem a favela da Maré, no Rio de Janeiro -, quando começou um tiroteio.

“A gente, morando na favela, fica acostumada, sabe o tamanho do risco que corre pela distância e a direção do barulho dos tiros. Às vezes, a gente ouvia, mas estavam longe”, conta a estudante. Daquela vez, estavam muito perto. “Todos se jogaram no chão, apavorados, a professora levou um tombo”, relata.

“Contei pra minha mãe e ela me tirou da noite.” Michele esperou 2006 para voltar às aulas. Foi a segunda vez que perdeu o ano por causa da violência. Em 2003, estudava à tarde em outra escola, numa comunidade da Maré. Mas o comando do tráfico pertencia a um grupo rival ao da região onde mora. Para a estudante, como o ensino era melhor, valia o risco. A “ousadia” custou-lhe ameaças e agressões físicas em plena luz do dia – e o abandono das salas de aula.

“Deixava minha filha estudar de noite porque ela gosta de fazer cursos de dia”, diz a mãe, Andréia Aldeia, referindo- se às aulas de idiomas e informática oferecidas por entidades na Maré. “Este ano ela foi convidada a fazer um curso gratuito para ser fotógrafa, seu sonho, mas não pude deixar, pois teria que voltar a estudar de noite.” Mesmo assim, essa mãe de seis filhos, desempregada, não fica sossegada. O filho de 18 anos faz um supletivo exclusivamente noturno. Uma semana antes da entrevista, o rapaz foi impedido de voltar para casa depois das aulas, por conta de um confronto entre policiais e traficantes, no meio da rua.


Falta de vagas

– No Ciep Professor César Pernetta, onde Michele estudava à noite e hoje pela manhã,


 Alcívia Maria Silveira, 
diretora-adjunta do Ciep Professor César Pernetta: falta de vagas à noite também impede os alunos de seguir os estudos

são 12 turmas no noturno. É uma das duas únicas escolas de ensino médio de toda a Maré. A diretora-adjunta da escola, Alcívia Maria Silveira, diz que, mais do que a violência, é a falta de vagas que impede os alunos de seguir os estudos.

“A maioria das pessoas trabalha de dia e não tem opção”, conta.

Segundo o MEC, 68% dos 172 mil estudantes que abandonaram a escola no Rio no último ano estudavam à noite. No colégio de Michele, exceção, quase um terço dos estudantes abandonou a escola no ano passado, mas apenas 24% eram do noturno. “Começamos a funcionar de noite, há dez anos, por demanda da comunidade”, conta Alcívia. “Hoje, se tivéssemos mais professores, funcionaríamos como escola noturna.” Nove anos de trabalho na Maré ensinaram a diretora a lidar com a violência – e a não subestimá-la. “A gente acaba se acostumando, mas não é fácil sair daqui tarde e vê-los [traficantes] lá fora armados, é uma coisa que choca.

Se iniciam uma troca de tiros, sobra pra gente.” A escola conta hoje com mais professores da comunidade, mas os demais ficam assustados. “Tem professor que termina a aula mais cedo 20 minutos, meia hora, pra ir embora, por medo de acontecer alguma coisa na rua”, conta Michele. Segundo Alcívia, do Ciep César Pernetta, ainda existe algum respeito do tráfico com a escola. “Eles sabem exatamente quem somos nós, os professores. Já a polícia, não. Então, ficamos entre a cruz e a espada.”