NOTÍCIA

Academia Líderes de Educação

Autor

Juliana Fontoura

Publicado em 07/10/2026

Depender do laudo para agir na aprendizagem é medicalização da educação, diz a psicóloga Juliana Ferrari

Já o psiquiatra Pedro Pan tem análise diferente. Ambos debateram o tema no evento da Academia Líderes de Educação

O aumento no número de crianças com laudos de transtornos como o de déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) e o do espectro autista (TEA) tem gerado debate sobre uma possível medicalização da educação. A discussão geralmente gira em torno da dúvida sobre tais diagnósticos refletirem um maior acesso à informação e à avaliação profissional, ou uma certa patologização da vida.

Para a psicóloga Juliana Ferrari, no contexto escolar, a medicalização também ocorre quando espera-se o laudo para agir.

“Se esse estudante não está aprendendo na diversidade, com suas diferenças, e eu [educador] não estou fazendo nada, eu estou medicalizando quando espero o laudo para atuar. E a gente também medicaliza quando transforma o laudo na única direção de resposta; quando não fazemos uma reorganização pedagógica, didática, de rotina e de relacionamento familiar, ficando apenas ao redor desse diagnóstico.”

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Essas reflexões foram colocadas por Juliana, que é doutoranda em Psiquiatria e Psicologia Médica pela Unifesp, durante sua participação no Encontro de Líderes 2026, que acontece hoje, 7, na cidade de SP — evento promovido pela Academia Líderes de Educação, iniciativa da revista Educação. O painel sobre medicalização da educação também contou com a participação do psiquiatra Pedro Pan, orientador do programa de pós-graduação do Departamento de Psiquiatria da Unifesp.

Se Juliana Ferrari analisa que a medicalização da educação está, sim, ocorrendo — embora não na perspectiva tradicional de somente ‘mais laudos’, mas, sim, do agir a partir apenas desse indicador e não da investigação da aprendizagem que pode ser anterior a uma avaliação médica —, Pedro tem análise diferente. Ele compara a situação do maior número de diagnósticos com a epidemia de miopia em crianças, gerada pela maior exposição a telas. “A gente está oftalmologizando a educação?”, provoca.

medicalização da educação

Painel sobre medicalização da educação abriu Encontro de Líderes 2026. Participaram a psicóloga Juliana Ferrari e o psiquiatra Pedro Pan (foto: Ricardo Fantagussi)

A importância do tratamento

O psiquiatra também apresentou dados sobre o impacto do não tratamento de quadros como o TDAH, por exemplo, na vida e na trajetória escolar. Os números são da pesquisa Coorte de alto risco, que busca investigar fatores de risco e proteção relacionados à saúde mental de crianças, adolescentes e jovens adultos. Em 2009, o estudo avaliou 9.937 alunos de 6 a 14 anos de escolas públicas de São Paulo e Porto Alegre. Desde então, acompanha 2.512 deles, que são avaliados a cada três anos.

“Percebemos que havia quase três vezes mais chances das crianças que tinham diagnóstico de TDAH e não recebiam tratamento estarem fora da escola. Tem a ver exclusivamente com não receber tratamento? A gente não sabe. Não dá para ter certeza, não fizemos um ensaio clínico. Mas é um fator associado”, contou Pedro, sobre um dos resultados do estudo.

Além disso, também foram observados impactos na repetência. “Fizemos um exercício e publicamos quantos casos de repetência poderiam ser evitados se houvesse tratamento adequado do quadro de déficit de atenção das crianças com diagnóstico. Uma em cada 20 repetências, do total, poderíamos ter evitado. Isso levando em consideração que o tratamento ajuda, mas não é a solução para tudo, obviamente. Uma em cada 20 é um dado conservador”, explicou Pedro.

Nesse sentido, com mais diagnósticos e mais tratamento, há a possibilidade de impactos positivos para a criança — e não só na vida escolar. “Quem tinha qualquer diagnóstico na infância, apresentava uma chance de 62% a mais de ter algum tipo de evento significativo de ameaça, de ter sofrido alguma situação como tentativa de suicídio ou algum tipo de violência, em comparação àquelas crianças que não preenchiam um diagnóstico naquele primeiro momento”, contou o psiquiatra durante o evento da Academia Líderes de Educação.

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