A edição deste ano do Education at a Glance, divulgada nesta terça-feira, 29, analisa como a escassez de professores nos países da OCDE está evoluindo e o que pode ser feito para enfrentá-la
A escassez de mão de obra em profissões altamente qualificadas é comum nos países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) e a docência não é exceção. Em alguns países, a escassez manifesta-se em taxas elevadas de postos vagos (cerca de 4% no secundário, na Letônia, e em Luxemburgo, no início de 2024/25), embora na maioria fique abaixo de 3%. Mais comumente, reflete-se na percentagem de docentes sem qualificação completa: em média, na OCDE, 9,1% dos professores do ensino primário e secundário não tinham qualificação completa em 2024/25.
A escassez afeta com mais intensidade áreas rurais ou isoladas e escolas em contextos desfavorecidos. Do ponto de vista disciplinar, é particularmente evidente em áreas como Matemática e Ciências Naturais, face à concorrência do setor privado.
As condições de trabalho e os salários contam, mas o reconhecimento social, o clima escolar e a autonomia profissional são cruciais. Abrir vias de entrada para profissionais em segunda carreira (reconhecendo competências anteriores) tem tido sucesso em países como a Austrália e os Países Baixos.
A projeção de uma queda de 9% na população de 5 a 14 anos na OCDE até 2033 daria margem para recursos, mas, como 25% dos professores do secundário têm 55 ou mais anos, a reforma iminente de muitos docentes exigirá uma gestão cuidadosa para não agravar a escassez em certas áreas.
O envelhecimento do corpo docente tornará essa escassez ainda mais crítica. Em toda a OCDE, um em cada quatro professores do ensino médio tem 55 anos ou mais, projetando perdas expressivas no quadro funcional nas próximas décadas. Os sistemas precisarão substituir os profissionais que se aposentam e assegurar que novos contratados estejam disponíveis nas disciplinas e regiões onde a carência é maior.
De forma mais ampla, a escassez de professores reflete também o déficit generalizado de mão de obra qualificada na economia como um todo e a disputa entre empregadores por uma oferta restrita de profissionais. De fato, em mais da metade dos países com dados disponíveis, a taxa de vagas em aberto na economia geral supera a do magistério.
O setor educacional, portanto, enfrenta pressões no mercado de trabalho semelhantes às da saúde, tecnologia e outras áreas intensivas em qualificação. Como a educação não consegue resolver essas limitações estruturais sozinha, é fundamental focar no aproveitamento mais eficiente da capacidade docente existente.
Salários competitivos e cargas horárias equilibradas tornam a carreira mais atrativa e ajudam a mitigar a escassez, mas não bastam. A autonomia profissional, gestões escolares que deem suporte, um ambiente de trabalho saudável, planos de carreira e reconhecimento social também definem a atratividade da profissão. Embora 85% dos professores declarem satisfação com o trabalho, apenas 22% sentem que o magistério é valorizado pela sociedade.
Além de atrair e reter talentos, os sistemas educacionais precisam se adaptar a um futuro com menos profissionais disponíveis. Isso significa otimizar o tempo e a experiência dos professores para que possam se concentrar no que mais impacta a aprendizagem dos alunos. O uso estratégico de ferramentas digitais e inteligência artificial, um planejamento mais eficiente da força de trabalho e a modernização das estruturas escolares podem diminuir burocracias e dar mais eficácia ao trabalho pedagógico.

Salários competitivos e cargas horárias equilibradas tornam a carreira mais atrativa e ajudam a mitigar a escassez, mas não bastam (Foto: Shutterstock)
Ampliar as portas de entrada na carreira é outro mecanismo essencial. Rotas bem estruturadas para profissionais em transição (segunda carreira) podem diversificar o recrutamento e agregar experiência prática valiosa às escolas. Na Austrália e na Holanda, onde mais de 15% dos professores vieram de outras profissões, existem itinerários flexíveis que reconhecem a experiência prévia e integram formação acadêmica e trabalho prático.
A retração demográfica estudantil abre uma oportunidade para redistribuir recursos para as escolas, disciplinas e regiões mais necessitadas. Projeta-se uma redução de 9% na população de 5 a 14 anos na OCDE entre 2024 e 2033, embora o número de professores e turmas nem sempre tenha caído no mesmo ritmo das matrículas. Isso dá margem para que gestores públicos redirecionem recursos e profissionais para os locais críticos, mantendo o acesso e suprindo carências específicas sem sobrecarregar ainda mais a categoria.
Ao contrário da OCDE — onde a proporção aluno-professor caiu em média cerca de 9% devido ao declínio no número de estudantes e turmas menores —, sistemas com alta vulnerabilidade ainda enfrentam turmas superlotadas e infraestruturas escolares desiguais, especialmente entre zonas rurais e grandes centros metropolitanos.
Na média da OCDE, cerca de 23% a 25% dos jovens adultos têm a formação profissionalizante (ensino técnico/vocacional) como grau mais alto de escolaridade. Em contrapartida, em sistemas como o brasileiro e em vários outros países da América Latina, os itinerários técnicos representam uma fatia residual das matrículas no ensino médio (inferior a 10%), prevalecendo quase exclusivamente o ensino geral/acadêmico.
O ponto mais crítico nos quesitos de acesso e transição reside no funil educacional do ensino médio. Em países como o Brasil, a Costa Rica e o México, uma parcela expressiva de jovens não concluiu essa etapa. No Brasil, 38% dos adultos (25 a 64 anos) sequer completaram o ensino médio (ficando “abaixo do secundário superior”), contra uma média de apenas 18% na OCDE.
As barreiras de progressão refletem-se de imediato na taxa de jovens “nem-nem” (NEET — que não trabalham nem estudam). Enquanto a média da OCDE para jovens de 18 a 24 anos em situação NEET é de 14%, ela sobe para 22% no Brasil, 26% na Colômbia e 31% na Turquia (chegando a 48% na África do Sul).
Há uma disparidade de gênero acentuada nesses países: mulheres jovens sofrem um risco muito mais elevado de inatividade/abandono (no Brasil, 28% das mulheres de 18 a 24 anos são NEET, contra 17% dos homens).
Países de língua inglesa e europeus (como Austrália, Reino Unido, Canadá e Estados Unidos) atraem a esmagadora maioria dos estudantes internacionais móveis no ensino superior. Já os países emergentes e da América Latina têm fluxos de entrada e saída internacionalmente móveis muito baixos (frequentemente abaixo de 1% a 2% do total de matrículas no ensino superior), o que evidencia um isolamento no intercâmbio de talentos e na produção científica global.
Enquanto na OCDE a cobertura para crianças de 3 a 5 anos já é quase universal e avança rapidamente na faixa abaixo de 3 anos, o relatório destaca uma disparidade marcante no tempo e na garantia legal de licenças parentais, bem como na idade de início da escolaridade obrigatória. Países latino-americanos e em desenvolvimento tendem a registrar menor taxa de atendimento em creches (0 a 2 anos) quando comparados a líderes da OCDE como Dinamarca e França.