NOTÍCIA

Academia Líderes de Educação

Autor

Revista Educação

Publicado em 16/09/2026

O futuro da educação é low-tech

Após uma década marcada pela digitalização acelerada — intensificada durante a pandemia — escolas e sistemas educacionais começam a rever suas políticas

Por José Ruy Lozano*, diretor do colégio Madre Alix e conselheiro da Academia Líderes de Educação | Durante décadas, o imaginário sobre o futuro da educação foi dominado por uma promessa quase inevitável: mais computadores, mais telas, mais plataformas e, nos últimos anos, mais inteligência artificial. A escola do futuro seria, supostamente, aquela em que os livros desapareceriam, os cadernos seriam substituídos por tablets e os professores perderiam protagonismo diante de algoritmos capazes de personalizar o ensino.

Paradoxalmente, à medida que essa visão começa a se concretizar, as evidências científicas e as experiências educacionais mais inovadoras apontam justamente na direção oposta. O futuro da educação talvez seja menos tecnológico do que imaginávamos. Ou, mais precisamente, seja uma educação em que a tecnologia ocupa um lugar importante, porém limitado e intencional. Em outras palavras: o futuro é low-tech.

Não se trata de um retorno nostálgico ao passado, tampouco de rejeitar a inteligência artificial ou os recursos digitais. Trata-se de compreender uma distinção fundamental: tecnologia é ferramenta; aprendizagem é uma experiência humana.

Nos últimos anos, um conjunto significativo de pesquisas passou a questionar o excesso de exposição às telas durante a infância e a adolescência. Uma metanálise publicada em 2025 na revista Psychological Bulletin, reunindo 132 estudos longitudinais e quase 300 mil crianças, identificou associações consistentes entre maior tempo de exposição às telas e dificuldades socioemocionais. 

Embora os efeitos individuais sejam modestos, o volume de evidências mostra que o uso excessivo de dispositivos digitais interfere no desenvolvimento infantil e na qualidade das interações humanas.

Outra pesquisa longitudinal, publicada em 2025 no JAMA Network Open, acompanhando milhares de estudantes canadenses, constatou que crianças com maior tempo de exposição às telas apresentaram, anos depois, desempenho inferior em leitura e matemática nas avaliações padronizadas. Os autores defendem que políticas de redução do tempo de tela devem ser consideradas parte das estratégias para melhorar a aprendizagem escolar.

 

Futuro

Não se trata de um retorno nostálgico ao passado, mas de compreender uma distinção fundamental: tecnologia é ferramenta; aprendizagem é uma experiência humana (Foto: Shutterstock)

 

Leia: Como fortalecer a relação entre escola e famílias

 

Essas conclusões ajudam a explicar um movimento que ganha força em diversos países. Após uma década marcada pela digitalização acelerada — intensificada durante a pandemia — escolas e sistemas educacionais começam a rever suas políticas.

Na Austrália, por exemplo, autoridades da área de educação passaram a defender explicitamente um “detox digital” nas escolas, propondo a redução do uso de telas, o retorno às avaliações em papel e lápis e a valorização da escrita manual, apoiados por evidências de que a caligrafia favorece processos de memória, compreensão e aprendizagem profunda.

Nos Estados Unidos, diversos distritos escolares caminham na mesma direção. Em San Diego, uma das maiores redes públicas do país anunciou novas políticas para reduzir significativamente o uso de Chromebooks, restringir plataformas digitais e estabelecer limites de tempo de tela conforme a faixa etária. Até mesmo as salas de Educação Infantil deixarão de utilizar computadores de forma rotineira.

O caso mais emblemático, entretanto, talvez venha justamente das escolas consideradas mais “tecnológicas” do mundo. A rede norte-americana Alpha School tornou-se conhecida internacionalmente por utilizar inteligência artificial para personalizar o ensino acadêmico. Muitos chegaram a descrevê-la como uma escola “sem professores”. A descrição, contudo, é enganosa.

Futuro

José Ruy Lozano evidencia que “justamente aqueles que mais acreditam no potencial da inteligência artificial parecem reconhecer que ela não pode ocupar o centro da experiência escolar” (Foto: arquivo pessoal)

Na realidade, a IA responde apenas por uma pequena parte da rotina diária. Os estudantes dedicam aproximadamente duas horas por dia ao aprendizado adaptativo mediado por algoritmos. Todo o restante da jornada é ocupado por debates, projetos colaborativos, atividades físicas, artes, comunicação, empreendedorismo, resolução de problemas, experiências práticas e desenvolvimento socioemocional, sempre acompanhados por educadores e mentores.

A mensagem implícita é reveladora: justamente aqueles que mais acreditam no potencial da inteligência artificial parecem reconhecer que ela não pode ocupar o centro da experiência escolar.

A razão é simples: a aprendizagem humana não acontece apenas quando recebemos informação. Ela ocorre quando conversamos, argumentamos, erramos, observamos expressões faciais, manipulamos objetos, escrevemos à mão, trabalhamos em grupo, construímos vínculos e damos sentido coletivo ao conhecimento, afinal, nenhum algoritmo substitui a riqueza dessas experiências.

 

Leia: Que aprendizagem queremos tornar possível?

 

A própria pesquisa sobre tecnologias educacionais apresenta um quadro bastante equilibrado. Meta-análises recentes mostram que recursos digitais podem produzir ganhos acadêmicos importantes quando utilizados com objetivos pedagógicos específicos, especialmente em atividades pontuais, adaptativas ou de apoio individualizado.

O problema surge quando a tecnologia deixa de ser ferramenta e passa a organizar toda a experiência escolar. Nesse cenário, aumentam as distrações, diminui o tempo de atenção sustentada, empobrecem-se as interações sociais e reduz-se a possibilidade de desenvolver competências que dependem da presença física, da linguagem corporal e da convivência.

A inteligência artificial, nesse contexto, representa menos uma substituição da escola tradicional e mais uma oportunidade de resgatar aquilo que ela tem de insubstituível. Se os algoritmos podem corrigir exercícios, adaptar trilhas de aprendizagem, oferecer explicações individualizadas e automatizar tarefas repetitivas, os professores deixam de gastar energia com processos mecânicos para dedicar mais tempo ao que nenhuma máquina consegue realizar: escutar, provocar perguntas, mediar conflitos, inspirar, orientar projetos, cultivar vínculos e formar cidadãos.

É curioso perceber que, quanto mais sofisticada se torna a tecnologia, mais valiosas se tornam precisamente as capacidades que ela não reproduz: criatividade, empatia, pensamento crítico, colaboração, comunicação, liderança, imaginação e discernimento ético.

Talvez seja esse o maior paradoxo da educação contemporânea. Durante anos imaginamos que o futuro da escola dependeria de mais dispositivos eletrônicos. Agora começamos a descobrir que seu verdadeiro diferencial será justamente aquilo que acontece quando as telas se fecham.

O futuro da educação não será uma sala cheia de computadores, nem um ambiente dominado pela inteligência artificial. Ele reside em escolas capazes de usar a tecnologia com inteligência, sem se tornar refém dela.

Será uma escola em que livros convivem com algoritmos, cadernos dialogam com plataformas digitais e a IA realiza aquilo que faz melhor, para que professores e estudantes possam dedicar mais tempo ao que somente seres humanos sabem fazer.

A melhor tecnologia educacional talvez seja aquela que, depois de cumprir sua função, desaparece silenciosamente do centro da cena. Porque, no fim das contas, aprender continua sendo um encontro entre pessoas.

E encontros acontecem, sobretudo, longe das telas.

 

*José Ruy Lozano é  sociólogo, autor de livros didáticos, diretor do colégio Madre Alix e conselheiro da comunidade Reinventando a Educação e da Academia de Líderes da Revista Educação

 

Este artigo foi originalmente produzido para a Academia Líderes de Educação, hub da revista Educação para diretores de escolas públicas e privadas. Conheça e faça parte: 

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