NOTÍCIA

Bett Brasil

Autor

Sandra Seabra Moreira

Publicado em 05/05/2026

Design de conexões e pertencimento para a criação de comunidades escolares

Objetivo principal é as pessoas criarem raízes e relações mais profundas, saindo, assim, da solidão digital

A criação de comunidades no ambiente escolar tem potencial para auxiliar os estudantes na socialização, em seu bem-estar e entusiasmo para os estudos, e vai se tornando essencial num momento em que soa o alarde para questões de saúde mental entre crianças e adolescentes. 

A última Pesquisa Nacional da Saúde do Escolar (PeNSE), realizada pelo Ministério da Saúde em parceria com o IBGE,  detectou dados preocupantes. Três em cada 10 estudantes de 13 a 17 anos sentem-se tristes sempre ou na maioria das vezes e 18% acreditam que a vida não vale a pena e são acometidos por desânimo profundo e frequente. Já 42,9% relatam irritabilidade constante, estão mal-humorados, desmotivados,  e 21% dos jovens sentem que ninguém se preocupa com eles. 

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“Boa parte desses dados está relacionada à solidão digital”, afirma Carolina Costa Cavalcanti, escritora e doutora em psicologia e educação pela USP. É nesse contexto que metodologias e ferramentas para a criação de comunidades, como as oferecidas pela abordagem denominada design de conexões, pode ajudar toda a escola. 

“Bell Hooks traz uma reflexão importante sobre como a solidão é dolorosa e a solitude é pacífica. A solidão faz com que a gente agarre os outros com desespero. E a solitude nos permite respeitar os outros dentro das suas características únicas e criar comunidades. Isso, ela diz, é restaurador.”

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Carolina Costa Cavalcanti realizará workshop na Bett Brasil*, que acontece no Expo Center Norte, em São Paulo. Design de conexões: práticas para promover  saúde social e bem-estar acontecerá em 5 de maio, às 11 horas,  no espaço criativo.

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Design de conexões e pertencimento

Carolina Cavalcanti explica como o design de conexões e pertencimento  podem combater a solidão digital (foto: arquivo pessoal)

 

Pertencimento

Carolina apresentará, também, metodologia e ferramentas do design de pertencimento, menos conhecido no Brasil,  tendo como base o conhecimento reunido no livro  Design for belonging: how to build inclusion and collaboration in your communities (Design para o pertencimento: como construir inclusão e colaboração em suas comunidades, na tradução livre), de Susie Wise, editado pela Stanford University’s d.school. 

Uma das grandes questões nas escolas, entre estudantes  e também professores, é prover  o sentimento de pertencimento. “É o que todo mundo deseja — não se sentir excluído; mas isso acontece o tempo todo”, aponta a especialista. Carolina caracteriza o sentimento de pertencimento como “ser aceito pelo que sou. Não preciso usar uma máscara, mudar minhas características, não preciso ter um tipo específico de cabelo ou me vestir de um determinado jeito para ser aceito naquele ambiente. Sou aceito pelo que sou, pelo que tenho a oferecer”.

O design de pertencimento traz estratégias para as pessoas se encontrarem a partir de afinidades, desejos, interesses, e criar comunidades que são sustentáveis, em que as pessoas sintam que pertencem àquele grupo com interesses comuns. Por outro lado, também é inclusivo. “São estratégias que ajudam as pessoas a entenderem que há atitudes essenciais para a criação de comunidades, como abraçar as diferenças” detalha Carolina.

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No ambiente escolar

O objetivo principal  do design de conexão é fazer com que as pessoas, de fato, criem raízes e relações mais profundas e saiam das relações superficiais que o digital estabelece. Para isso, vai auxiliar o gestor escolar a dar uma estrutura para que o professor ou o próprio grupo de estudantes consiga os espaços em que as pessoas vão se encontrar de forma mais significativa e intencional.

“Auxilia, ainda, no  mapeamento das comunidades que já existem, no levantamento de quais são os estudantes que não se encaixam em nenhuma atividade, entrando e saindo da escola desenvolvendo poucas relações e que poderíamos convidar para participar desses projetos”, detalha a especialista.

Nas atividades extracurriculares, para reunir estudantes que adoram esportes, música, teatro ou são muito bons em matemática,  nem é preciso tanto esforço.

“Já o design de pertencimento é para criar um ambiente para que aquele estudante que não necessariamente faz parte de uma determinada panelinha, de um determinado gênero ou raça, sinta que aquele espaço também é para ele. Não quer dizer que ele vai precisar ser bom, por exemplo, nos esportes ou em matemática, mas que aquilo que ele tem de potencialidade, de característica, é valorizado.”

O design de conexões entra como atividade transversal que é trabalhada nas escolas em parceria com a educação socioemocional, para trabalhar habilidades sociais, empatia, autoconhecimento. Já o design de pertencimento auxilia na criação de projetos  específicos, para que as pessoas se encontrem, facilitando que as amizades surjam. “Um projeto é uma das melhores formas de conhecer gente e descobrir quem elas são. É oportunidade para conviver, criar junto e depois ter orgulho do que foi feito.”

Etapas 

O importante, diz Carolina, é estruturar rituais, rotinas e práticas para reunir um grupo de pessoas num determinado ambiente e conseguir trabalhar a identidade daquele grupo, as características, os valores, propósitos,  e demais definições que a criação da comunidade requer. Para isso, o trabalho é pensado em etapas. 

O convite para participar da comunidade é a primeira etapa. “Se queremos criar uma liga antibullying na escola, por exemplo, como o convite chega até as pessoas — impresso, digital, face a face?”, exemplifica.  A segunda etapa é como será a recepção: a chegada, arrumação do espaço físico, se haverá alimentação, se um professor estará presente a essa recepção. 

A terceira é garantir que todas as pessoas tenham clareza de como participam da comunidade, o que precisam entregar, com quais habilidades, talentos ou conhecimentos participarão. “Nosso senso de participação tem a ver com ter algo a contribuir, e isso é essencial para querer permanecer e sentir que faz parte.” 

As estratégias  para fazer o encontro fluir também são intencionalmente pensadas, assim como metas para cada encontro. Carolina frisa a importância de uma atividade que tenha começo, meio e fim e que, eventualmente, a participação possa ser renovada no próximo ciclo.

“O design de pertencimento também traz estratégias para lidar com a reparação. Quando o conflito acontece, quando alguém é desrespeitoso com o outro, ou não acontece como o esperado, há ferramentas para  direcionar as pessoas a terem uma conversa de reparação. Há até estratégias para a pessoa que quer sair”, finaliza. 

Bett Brasil

*A Bett Brasil é um dos maiores eventos de inovação e tecnologia para a educação da América Latina. Acontece de 5 a 8 de maio, no Expo Center Norte, capital paulista. E nós, da Educação, estamos fazendo uma cobertura especial. Clique aqui para ficar por dentro de tudo.

Nossa cobertura jornalística tem o apoio das seguintes empresas: FTD Educação, Santillana Educação e Multiverso das Letras.

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