NOTÍCIA

Edição 319

Autor

Laura Rachid

Publicado em 22/04/2026

Cidades educadoras para a sobrevivência em sociedade

Preocupados com um desenvolvimento de vida justo, equitativo e inclusivo, órgãos públicos e pessoas comuns — com e sem apoio oficial — atuam para que a população, da criança ao idoso, tenha uma real oportunidade de aprendizagem ao longo da vida

Uma das maiores favelas do Brasil, Heliópolis, localizada na cidade de SP, é referência quando o assunto é bairro educador. Um dos marcos foi quando, em 2002, o muro de sua Emef Presidente Campos Salles foi derrubado — simbolicamente e fisicamente — pelo então diretor Braz Rodrigues Nogueira. Essa ação de mostrar que a escola confia no território no qual está inserida e que não pode ser uma ilha, com supostas barreiras, só foi possível porque escola e comunidade estavam unidas.

A partir de 1995, com a chegada de Braz à direção, o projeto político-pedagógico da escola pública Campos Salles começou a ser construído da escola para fora, e vice-versa, sendo um símbolo de gestão democrática. “Me aposentei em 2017, mas, para mim, não houve diferença porque continuo ligado aos moradores. Hoje me sinto uma espécie de diretor da comunidade de Heliópolis, apesar de não estar mais dentro da escola”, conta o atual vice-presidente da União de Núcleos de Associações de Moradores de Heliópolis e Adjacências (Unas). Reconhecido nacionalmente, ele acaba de lançar o livro A escola junto da comunidade: a vida do educador e diretor Braz Rodrigues Nogueira (ed. Appris). 

Cidades educadoras

Ao derrubar os muros da escola pública em que foi diretor, Braz Rodrigues Nogueira apresenta Heliópolis como um bairro educador (foto: Arquivo pessoal)

“Se as escolas não se inserirem na comunidade em que estão — não se misturarem com o povo, com os alunos, com as lideranças comunitárias —, elas não farão um serviço que ajude na construção da cidadania. A força para inovarem, para serem ousadas e se protegerem passa pela proximidade com a comunidade.”

 

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O diretor aposentado enfatiza que muitos educadores e educadoras não compreendem o que significa essa proximidade: “É não ficar apenas dizendo ‘a escola está aberta, venha participar’. Isso tem que ser de mão dupla. A escola também tem de participar das atividades da comunidade. Porque o papel de ambas é o mesmo, lutar pela efetivação dos direitos das pessoas — direito à educação de qualidade, mas também direito à moradia, a se alimentar, a ser feliz, a se expressar. Construindo, assim, uma sociedade justa, autônoma e solidária”.

 

“Tudo passa pela educação”

 

Em seus 19 anos lecionando no chão da escola, Braz Rodrigues compreendeu que a criança é um ser integral, competente, e que já chega à escola portando o saber da sua cultura, então, segundo ele, o conhecimento do estudante só será construído a partir daquilo que ele já sabe. “Se a gente não respeitar a cultura da família, a cultura da comunidade do aluno, não faremos muita coisa. A criança ou jovem tem de sentir que a gente está próximo.”

O educador gosta de enfatizar a seguinte frase: “Tudo passa pela educação, sendo a escola um centro de liderança e de equipamento social”. Nessa concepção, o ato de educar é tarefa de todos, como da mãe, do pai, mas também da igreja, sindicato, da rua. Braz reconhece que é difícil existir um bairro ou cidade totalmente educador, que resolva todos os problemas, incluindo aqui, Heliópolis. Mas, segundo ele, o importante é não desanimar e continuar a se articular.

 

Unesco e as habilidades para a vida

 

Atenta às mudanças da sociedade, há tempos a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) tem destacado a importância da educação permanente. Por exemplo, em 1972, com o relatório coordenado pelo político francês Edgar Faure, denominado Aprender a ser, o qual defende que a aprendizagem não deve estar ligada apenas ao período escolar, já destacando o termo educação ao longo da vida e cidade educativa. 

O reconhecido relatório liderado pelo também francês Jacques Delors, Educação: um tesouro a descobrir, chega em 1996, e indica Os Quatro Pilares da Educação, baseados nas necessidades do século 21. Economista, Delors fez questão de deixar claro ao mundo que a educação é pilar estratégico para o desenvolvimento econômico, social e humano.

Nessa linha, a mais recente publicação da Unesco é a Reimaginar nossos futuros juntos: um novo contrato social para a educação, publicada em 2021, e coordenada pelo professor português António Nóvoa, tendo como único brasileiro participante o professor e ministro da Educação (2003-2004), Cristovam Buarque.

 

Direito ao território

 

Já a Rede Mundial de Cidades de Aprendizagem da Unesco (GNLC) foi lançada em 2013 e é coordenada pelo Instituto da Unesco para a Aprendizagem ao Longo da Vida (UIL), com sede em Hamburgo, na Alemanha. Reúne 425 cidades de 91 países. O UIL foi criado na década de 50 com outro nome e focado, apenas nessa época, na Alemanhã pós-guerra — Maria Montessori e Jean Piaget participaram das primeiras reuniões. Por aqui, as cidades reconhecidas pela Unesco como educadoras via GNLC são: Araguaína (TO), Contagem (MG), Curitiba (PR), Leme (SP), Passo Fundo (RS), Recife (PE) e São Paulo (SP).

“A Rede promove o intercâmbio de experiências, o desenvolvimento de ferramentas e o fortalecimento de capacidades para integrar a aprendizagem ao longo da vida nas políticas locais”, explica o mexicano Raúl Valdés-Cotera, coordenador-chefe de programa no UIL, que mora em Hamburgo.

Cidades Educadoras

“Segundo Paulo Freire, ensinar e aprender tornam-se papéis compartilhados”, reflete Raúl Valdés, coordenador chefe de programa do Instituto da Unesco para a Aprendizagem
ao Longo da Vida, com sede na Alemanha (foto: Reprodução)

Para evitar que a aprendizagem ao longo da vida se concentre apenas nas áreas centrais e oportunize acesso com equidade também a regiões rurais, Raúl Valdés destaca que é fundamental assumi-la como eixo das políticas educacionais e sociais, e não como complemento.

Rebeca Otero, coordenadora de educação da Unesco no Brasil, completa: projeto de reciclagem de lixo e que gere uma educação informal; combate ao racismo; melhoria patrimonial e cultural são exemplos de iniciativas que podem estar presentes até mesmo em regiões com poucos recursos financeiros e que não são exclusividade do campo escolar, abarcando todas as idades.

Vale enfatizar que a gestão de uma cidade educadora estimula que todos e todas têm potenciais de agentes pedagógicos. “É fundamental reconhecer que a aprendizagem é um esforço coletivo presente em todas as culturas. Para que diferentes atores — gestores públicos, professores, líderes comunitários, jovens e pessoas idosas — se reconheçam como educadores, são necessários espaços de formação em aprendizagem colaborativa, intergeracional e entre pares. Nesses ambientes, seguindo Paulo Freire, ensinar e aprender tornam-se papéis compartilhados. Mudar de uma visão individual para uma visão coletiva implica valorizar o conhecimento comunitário e promover políticas que reconheçam a aprendizagem como uma responsabilidade compartilhada”, pontua Raúl Valdés.

Rebeca Otero destaca ainda: “A Unesco pensa a educação de maneira holística, e não, simplesmente, na transmissão de conhecimento ou só na cognição das crianças, no aprender conceitos. Foca no aprender a fazer coisas, a conviver em sociedade, no saber aprender para ter uma educação ao longo da vida — o que também inclui conseguir verificar as informações que chegam pela internet”. São aspectos que tendem a dar base para que fora da escola o jovem, o adulto e o idoso consigam manter seu crescimento educacional ao longo da vida.

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“A Unesco pensa a educação de maneira holística, e não, simplesmente, na transmissão de conhecimento ou só na cognição das crianças, no aprender conceitos”, pontua Rebeca Otero, coordenadora de Educação da Unesco no Brasil (foto: Valter Campanato /Agência Brasil)

Fato é que a Unesco, pelo seu compromisso local e global, bem como outros atores civis e políticos, como a Associação Internacional de Cidades Educadoras (Aice), representada pela Rede Brasileira de Cidades Educadoras (Rebrace), buscam consolidar transições da sociedade que garantam a toda a população justiça social, equidade, pluralidade étnica, acessibilidade, direito ao território, sustentabilidade ambiental, participação democrática, abertura a refugiados, igualdade de gênero, etc. Ou seja, o conceito de cidade educadora e similares ganha força a partir da preocupação com o presente e futuro da humanidade, incluindo a natureza, até mesmo por conta do avanço sem precedentes da tecnologia digital.

 

Recife, cidade de aprendizagem

 

A capital de Pernambuco, Recife, é reconhecida pela Unesco como cidade educadora desde 2024. Por lá, tem-se buscado oportunizar direitos e dar voz a crianças, jovens, adultos e idosos. Para a secretária de Educação do Recife, Cecília Cruz, a concretização de uma cidade educadora significa formular, implementar e revisar maneiras de tais objetivos entrarem em toda a agenda de políticas públicas, ou seja, estarem para além da secretaria de Educação, mas na prefeitura como um todo. E é o que tem acontecido.

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Dentro do plano diretor do Recife não há o compromisso em ser, diretamente, uma cidade educadora. Contudo, há diferentes iniciativas que fazem parte do que especialistas entendem como cidade educadora. “O nosso plano diretor tem um olhar específico para uma cidade que consegue atender bem mulheres, é uma diretriz. No plano diretor temos também o Recife Cidade Parque, que entende a cidade como espaços educadores em que não só garantimos uma cidade mais arborizada, mais responsável ambientalmente, como asseguramos espaços de convivências para que as pessoas saiam e vivam uma cidade que permita a interação com diferentes cidadãos. Evitamos, assim, que fiquem fechadas em suas próprias comunidades ou em seus próprios muros de condomínio.”

Em 2023, a prefeitura do Recife fechou um empréstimo de 2 bilhões de reais com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o maior crédito já repassado a uma cidade no mundo. O uso desse montante é para financiar o projeto de urbanização ProMorar, que visa uma cidade mais resiliente, principalmente por conta dos episódios ambientais traumáticos ocorridos em 2022 na cidade.

O ProMorar tem uma atenção específica com as crianças. Qualquer que seja o local, segundo Cecília Cruz, antes de se planejar um equipamento público ou a chegada de saneamento básico, há um comitê de crianças para cada comunidade que olha o projeto e diz se está bom ou não para elas. “A nossa gestão entende que se uma cidade é boa para as crianças, ela será boa para todo mundo. Então, se iremos fazer uma grande intervenção tanto em escopo quanto em investimento, precisamos acertar.”

 

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Numa determinada comunidade recifense, inicialmente, um dos projetos pensados foi um parquinho numa localização em que, ao ser apresentado nesse comitê, as crianças disseram que ali não podiam brincar. Não sabiam explicar o motivo. Foi então que a equipe da prefeitura voltou a conversar com os líderes comunitários e descobriu que o local é marcado pelo tráfico. O local mudou para as crianças se sentirem confortáveis. “Dissemos que ali seria o lugar delas, mas elas disseram não”, enfatiza Cecília. Esse comitê de crianças é tocado pela Secretaria Executiva da Primeira Infância, cujo objetivo é atuar de maneira intersetorial.

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Secretária de Educação do Recife, Cecília Cruz: precisamos entender que o cidadão não é repartido como a administração pública é. Devemos chegar às pessoas em sua completude (foto: Kleyvson Santos-PCR)

Ofertar creche a crianças que não estão matriculadas faz parte do que é ser uma cidade educadora, acredita a gestora. E, para isso de fato acontecer, é preciso políticas transversais. Um bom exemplo foi a parceria entre a Secretaria de Educação com a da Saúde para aumentar as matrículas em creche a famílias que socioeconomicamente mais precisavam, conta Cecília Cruz. Isso porque a prefeitura abriu vagas em creche, mas esse público esperado não matriculou seu filho. Algo estava errado. Foi então que os agentes comunitários de saúde do SUS foram acionados para descobrirem o motivo de as crianças não estarem matriculadas e fazerem a busca ativa para a realização da matrícula, afinal, visitar a casa das pessoas é parte do trabalho desses agentes que são da própria comunidade e conhecem o território.

“Ali quebramos uma barreira até então intransponível que era, ‘[a pasta da] Saúde é uma coisa, Educação é outra’, e entendemos que existia um bem comum: garantir que aquelas crianças estivessem na escola. Foi uma mudança de paradigma para dentro da engrenagem da administração pública, e cujo intuito foi garantir que o público mais vulnerável tivesse atendimento nas nossas creches”, explica Cecília, que gerencia uma rede com pelo menos 420 escolas e 111 mil alunos.

“Precisamos entender que o cidadão não é repartido como a administração pública é. Devemos chegar às pessoas em sua completude, sem a complicação de dividi-las em várias temáticas. E quando se tem o cuidado de ligar a ação da educação diretamente com o território, com a potência do local, sempre com escutas com crianças, adultos, alunos e profissionais da educação, para o processo se retroalimentar, a gente transforma uma cidade em educadora”, sinaliza a secretária Cecília Cruz.

 

Território da cidade transformado em educador por jovens indígenas

 

É no coração da Floresta Amazônica acriana, próximo à fronteira com o Peru, que um grupo de jovens indígenas ‘multimídia’, do povo Huni Kuin, tem fortalecido sua língua, o hatxa kuin, e costumes ancestrais por meio de cantos tradicionais, violão, vídeos, pinturas e outras manifestações artísticas. Crianças, adolescentes e adultos aprendem juntos, tendo, entre seus principais mestres, anciões e anciãs, além das mensagens vindas da floresta por meio do nixi pae (bebida sagrada).

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Rita Huni Kuin é uma das fundadoras do Kayatibu (foto: Arquivo pessoal)

O grupo nasceu oficialmente em 2014, no Jordão, município no Acre com menos de 10 mil habitantes entre indígenas e não indígenas. Ali só se chega de barco ou avião. Hoje com cerca de 20 integrantes, muitos foram os desafios até o Kayatibu gerar seus primeiros frutos.

“O estímulo para a criação do grupo se deu, principalmente, devido à vulnerabilidade que nós, jovens indígenas, estávamos vivenciando na cidade. Os jovens costumam sair de sua aldeia para, na cidade, estudar e buscar algo melhor para a comunidade. Mas o que estava acontecendo com parte deles era o aumento do uso de bebida alcóolica e drogas e um afastamento do nosso modo de vida tradicional”, conta Rita Huni Kuin, de 32 anos, uma das fundadoras do Kayatibu.

Os cantos e conhecimentos tradicionais estavam se perdendo. “Começamos a tocar instrumentos como violão, o que acabou atraindo muitos jovens que, querendo aprender a tocar, depois começaram a cantar em hatxa kuin, despertando também outros interesses. Por exemplo, o machado tradicional era usado para qual finalidade? Quem o usava?”

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“O estímulo para a criação do grupo se deu, principalmente, devido à vulnerabilidade que nós, jovens indígenas, estávamos vivenciando na cidade”, conta Rita (foto: Arquivo pessoal)

O Kayatibu começou no quintal da casa de um e de outro no então bairro Kaxinawa, e agora tem sede própria. Se hoje os integrantes fazem viagens internacionais, dão palestras — já lançaram um álbum musical e participaram até de um livro na República Checa —, além de outros projetos, os frutos são todos deles. Segundo Rita, eles receberam apenas dois apoios, ambos por editais do necessário Rumos Itaú Cultural. “Da criação do Kayatibu até o momento, nenhum órgão público nos ajudou. No início, até algumas lideranças indígenas não acreditaram em nosso trabalho”, diz Rita.

Quando os primeiros integrantes do Kayatibu terminaram o ensino médio e retornaram às suas aldeias, começaram a criar outros grupos musicais de jovens preocupados com o presente e o futuro.

 

Obs.: A repórter visitou o Jordão em 2017, pela Fundação Txai.

 

 

 

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