NOTÍCIA
Da antiga Pérsia a Freddie Mercury, um convite para professores trabalharem cultura de paz, ética e saúde mental a partir da história, da arte e das próprias biografias
Por Rubens Harb Bollos * | A guerra atual entre Irã, Israel e Estados Unidos reativou em mim uma memória antiga pertencente a minha biografia e a reflexão que inspira este artigo. Em minha casa natal, a enciclopédia Barsa ocupava o lugar que hoje pertence aos buscadores digitais: era parte do legado cultural que recebi de meus pais, a quem sou profundamente grato. Além da herança genética, reconheço também a marca epigenética desse ambiente de curiosidade e estudo.
Ainda na adolescência, a música do Queen e a curiosidade por Freddie Mercury me aproximaram do inglês, de sua biografia, de sua origem parsi, da antiga Pérsia e da sua religião, o zoroastrismo, uma das mais antigas do mundo, cuja máxima ética da tradição — bons pensamentos (humata), boas palavras (hukhta) e boas ações (hvarshta) —, foi apresentada no filme Bohemian Rhapsody como referência moral de sua formação familiar.
A canção homônima, lançada pelo Queen em 1975, tornou-se um ícone por sua estrutura incomum, sem refrão, mesclando balada, ópera e hard rock. Já o filme de 2018, uma cinebiografia amplamente aclamada, retrata a ascensão da banda e a trajetória de Freddie Mercury, culminando na histórica apresentação no Live Aid e no reencontro simbólico com o pai, sugerido como uma forma de reconciliação com suas origens e com a relação conflitiva entre ambos.
Anos depois, esse mesmo tema retornou aos meus estudos pela formação complementar em medicina antroposófica, em que cosmogonias e arte integram o currículo para uma sensibilização de uma prática médica mais humanista. Hoje esse arco volta como reflexão viva, na maturidade de um médico e pesquisador da condição humana.
A guerra nos obriga a perguntar, mais uma vez: o que é bem e mal? Por que continuamos organizando o mundo em lados absolutos — mocinhos e bandidos, justos e injustos — mesmo diante de uma realidade cada vez mais complexa? E por que essas simplificações continuam alimentando conflitos, polarizações e sofrimento psíquico coletivo?
A região hoje marcada por conflitos concentra algumas das matrizes civilizatórias mais importantes da humanidade. Da antiga Mesopotâmia — berço de povos como os sumérios — ao mundo persa, onde se desenvolveu o zoroastrismo, ali se formaram visões de mundo que atravessaram milênios.
É também nesse espaço ampliado que, séculos depois, emergem e se encontram as tradições abraâmicas — judaísmo, cristianismo e islamismo — hoje presentes, direta ou indiretamente, em grande parte das tensões geopolíticas contemporâneas.
Antes dessas tradições, o zoroastrismo já articulava uma gramática moral poderosa: verdade e mentira, ordem e caos, luz e trevas, construção e destruição. Não como abstrações distantes, mas como forças que atravessam a existência humana e exigem posicionamento. Sua síntese ética — bons pensamentos, boas palavras, boas ações — permanece surpreendentemente atual.
Séculos depois, Friedrich Nietzsche retomaria a figura de Zaratustra, na sua obra “Assim falou Zaratustra”, para recolocar uma questão decisiva: quem cria os valores? Quem apenas os repete? E o que acontece quando rituais e discursos deixam de ser vividos e passam a ser apenas reproduzidos?
Hoje, essas perguntas reaparecem sob novas formas. Em um mundo conectado, acelerado e saturado de informação, a mente humana continua vulnerável à simplificação moral. A polarização transforma adversários em inimigos, divergências em ameaças e diferenças em justificativas para exclusão ou violência.
Na saúde mental, isso se traduz em sofrimento crescente, sobretudo entre os mais jovens. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), um em cada sete adolescentes de 10 a 19 anos vive com transtorno mental; e depressão, ansiedade e transtornos do comportamento figuram entre as principais causas de doenças e incapacidades nessa faixa etária.
Sensação de desamparo, angústia e dificuldade de lidar com conflitos tornaram-se parte do cotidiano escolar e social, e um desafio a mais para os professores. A tecnologia avança, mas a capacidade de elaborar emoções, lidar com frustrações e sustentar diálogos complexos nem sempre acompanha esse avanço.
Para os professores, talvez resida aqui uma possibilidade prática muito rica. A partir de um conflito atual e da biografia de um artista como Freddie Mercury, é possível trabalhar de forma interdisciplinar perguntas que continuam vivas: o que chamamos de bem e mal no mundo de hoje? Como a história das religiões nos ajuda a pensar a moral, ética, regras, cidadania e convivência? Como a biografia de uma personalidade pode abrir caminhos para estudar história, geografia, antropologia, religião, língua, deslocamentos humanos e formação cultural? E por que as guerras continuam existindo, muitas vezes nas mesmas regiões do mundo, produzindo morte de civis, deslocamentos forçados, êxodos, empobrecimento, traumas e danos que se espalham para além do campo de batalha — como a alta do petróleo, a instabilidade econômica, a piora da violência, o aumento da exclusão social e a sensação crescente de finitude planetária e civilizatória?
Essas questões não estão distantes da vida escolar. Reaparecem, em outra escala, nas assimetrias morais, éticas, financeiras e afetivas que desafiam o cotidiano de crianças, adolescentes e adultos. Trabalhá-las com paciência pedagógica, com espírito freiriano, pode ajudar alunos e educadores a compreender melhor seus conflitos, nomear suas emoções, ampliar repertórios e fortalecer uma cultura de paz que não seja ingênua, mas crítica, sensível e civilizatória.

A trajetória de Fred Mercury atravessou África, Índia e Inglaterra e condensou, em escala humana, deslocamento, império, religião, identidade e trânsito entre culturas (foto: obra de Jean-Loup Othenin-Girard)
Voltemos a Freddie Mercury. Nascido Farrokh Bulsara em Zanzibar, na África Oriental, então sob domínio britânico, sua trajetória atravessou África, Índia e Inglaterra e condensou, em escala humana, deslocamento, império, religião, identidade e trânsito entre culturas.
Por isso ele importa aqui não como curiosidade pop, mas como pista do passado no presente. Sua biografia mostra que, por trás de guerras, dogmas e moralismos, há vidas concretas atravessadas por estigma, sofrimento, doença e deslocamento. Sua morte por AIDS, em um tempo em que a ciência ainda não oferecia o que hoje oferece, e o legado solidário associado à sua memória mostram que a linha entre destruição e cuidado nunca é abstrata: passa por corpos, relações e escolhas. E acredito que seja justamente essa a relevância da educação: lembrar que ideias não existem sem pessoas e que valores não existem sem prática.
Resta, então, a pergunta decisiva: como tradições que falam em bem e mal podem voltar a servir ao bem comum, em vez de fabricar inimigos absolutos? Ou nos apoiar a trabalharmos dissenso, educação para o contraditório e para uma educação dos sentidos e emoções, sem “torcer o nariz” ou polarizarmos em ideologias? Afinal, arte e história são universais.
Em um mundo saturado de guerra, medo e propaganda, a tarefa civilizatória mais urgente continua sendo essa: recuperar a capacidade de pensar, nomear e agir sem transformar o outro em demônio e a nós mesmos em redentores.
Na minha própria história, uma música e um artista, ainda na adolescência, ajudaram a ampliar meus conhecimentos e a revelar a vastidão do mundo para além da pequena cidade de São Sebastião da Grama (SP), “encravada na serra”, onde nasci e que sou indelevelmente grato pela infância que tive e as pessoas e familiares que participaram da minha biografia. Minhas lentes se ampliaram. Que este relato possa também inspirar outros, como tantos me inspiraram, e que possamos evoluir na revitalização de uma educação que cura, e não de uma educação que adoece. Reflitamos, humanizemo-nos e avancemos.
Fica, aqui, meu relato biográfico como aluno e filólogo e com afeto e respeito agradeço a meus pais e a meus professores, especialmente a D. Angela e D. Zuzu, minhas primeiras professoras e a última do pós-doutorado, “Profe” Estela. Que os educadores nunca subestimem a força do afeto e da memória: ainda hoje eles me alimentam como a experiência de ter sido acolhido e colocado na trilha da vida — e não fora dela.
* É médico, mentor e presidente-fundador da ABMPP.org (Associação Brasileira de Medicina Personalizada e de Precisão) e do projeto de Literacia em Saúde @Informação Cura. Mestre e Doutor (Ph.D) em Ciências da Saúde pela UNIFESP e Pós-Doutorado em Biologia do Desenvolvimento pela USP/ICB. Escreve e divulga sobre imunologia, epigenética, neurociência, saúde mental, tomadas de decisões e cultura de paz com foco no estudo de indicadores de êxito em saúde.