NOTÍCIA
Como a professora e vice-diretora Maria Helena Raimundo trouxe novas práticas a uma escola estadual de ensino médio em Uberlândia
Quando entrou para o corpo docente da Escola Estadual Messias Pedreiro, em Uberlândia (MG), a professora de história Maria Helena Raimundo, já efetiva da rede, trouxe na bagagem uma larga experiência no trabalho com projetos. Tinha, a essa altura, quase 20 anos de docência, tanto no ensino médio, como no fundamental, em escolas privadas e cursinhos pré-vestibulares.
Entusiasta da metodologia, teve de enfrentar, num primeiro momento, resistência de alguns de seus pares, pois, segundo ela, era algo que os tirava de sua zona conforto. Reação até certo ponto esperada, mas sempre passível de ser enfrentada.
“Existem algumas situações em que o professor tende a querer se tornar estrela. Nos nossos projetos mudamos esse foco, que passa a ser voltado ao aluno. Ainda hoje encontramos resistências, mas quando os professores percebem o crescimento e o aprendizado envolvidos, passam a aderir”, explica Maria Helena.
Logo em seu primeiro ano, 2013, elaboraram um “Passeio pela África”, transformando a quadra esportiva da escola em um mapa do continente, onde os visitantes passeavam. No ano seguinte, quando ocorreu a Copa do Mundo de futebol no Brasil, houve uma feira em que os alunos estudaram os países participantes e apresentaram suas descobertas.
Aos poucos, a adesão dos colegas docentes ia aumentando. Em 2015, uma nova proposta causou um certo rebuliço entre as famílias, pois mexia com um assunto considerado sensível num universo de credos religiosos variados. Muitas delas a princípio ficaram ressabiadas pelo tema daquele ano, quando se comemorou o Ano Internacional da Luz. Para abordá-lo, o projeto foi o “Espelho de Oxum”. Símbolo do Candomblé e da Umbanda, o espelho de Oxum representa um objeto sagrado usado pela deusa para admirar sua beleza e para o autoconhecimento. Normalmente dourado, diz-se que reflete a luz e afasta a inveja.
“Vimos os preconceitos aflorarem. Um grupo de pais ficou cismado, não queriam que os filhos visitassem os espaços da religião de origem africana. Nós os acalmamos, explicando que os alunos não precisavam fazer a visita, apenas participar da construção do projeto”.
E o ponto mais sedutor da proposta acabou derivando da abordagem do professor de física, que trabalhou conceitos de luz e óptica com os alunos a partir do cinema, resultando ainda na produção de um vídeo. Houve adesão também dos professores de química e língua portuguesa, dando caráter interdisciplinar ao projeto.
Resultado: mesmo enviada com atraso, a iniciativa foi bem recebida pelo Programa de Escolas Associadas da Unesco, uma rede composta por cerca de 8 mil escolas de 177 países da qual a Messias Pedreiro passou a fazer parte.
“Sou uma pessoa que arrisca”, define-se a professora, hoje também uma das três vice-diretoras da escola, após eleição realizada em 2022 e confirmada em reeleição em 2024.
Os três vices dividem a responsabilidade pelas funções, mas não deixam de participar uns nas áreas dos outros. Maria Helena é coordenadora de Projetos; Henrique Rezende cuida da área administrativa; Fernanda Santana tem foco nos processos dos 3º anos, como formaturas, preparação para o Enem e vestibulares etc. Os mandatos são de dois anos, portanto em 2026 haverá novo pleito para os vice-diretores. Miriam Antônia dos Santos está à frente da escola desde 2012. Segundo Maria Helena, “é uma diretora aberta a sugestões, que diz que não sabe se vai dar certo, mas não bloqueia as ações, deixa acontecerem”.
Quando chegou à Messias Pedreiro, conta a hoje vice-diretora, a escola tinha projetos, porém normalmente nascidos de fora para dentro, como alguns enviados pela secretaria ou aqueles que constam dos calendários escolares há anos, como as feiras de ciências.
A mudança veio com a instituição de projetos anuais. Entre outros, há quatro anos a escola vem realizando o Projeto Meu País, em que os estudantes têm de criar uma nação e escolher uma região onde ela estará localizada.
A partir de variados aspectos – linguísticos, econômicos, geográficos, históricos, geopolíticos, biológicos – da região escolhida, eles passam a estudar cada passo. Por exemplo, qual o tamanho do país e como isso influencia as relações de poder, a cultura. As escolhas são variadas em termos geográficos. Em 2024, havia países na Ásia, no Caribe, no Oriente Médio.
Um grande desafio é fazer os professores das várias disciplinas compreenderem como eles entram no processo, que orientações devem dar, como ajudar os estudantes a dar congruência a suas escolhas. Biologia, por exemplo, pode impulsioná-los a estudar flora e fauna locais.
Algumas ideias por vezes assustam os docentes. Um estudante propôs que seu país produzisse maconha, o que deixou apreensiva a professora do itinerário formativo de ciências humanas. Mas logo tentaram objetivar o desejo do aluno: para quais fins seria essa produção? Medicinais? Haveria tecnologia para produzir os medicamentos? Como comercializá-los? Ou seja, as perguntas para fazer os alunos pensarem a respeito de suas propostas são o grande motor para que mergulhem nos estudos.
Em termos de temas e assuntos com potencial de conflito, a escola não foge à regra do que acontece na sociedade nos dias de hoje, Maria Helena relata que os educadores têm enfrentado a questão dos preconceitos e desrespeitos, questões como racismo, homofobia e transfobia, entre outras.
“Temos feito muitos projetos para abordar essas questões. Ultimamente, elas têm aparecido com mais força. Quando fizemos o “Espelho de Oxum”, apesar da questão da visita ao candomblé, não houve grande repercussão. Nosso grande desafio é fazer com que o diferente seja respeitado”.
Muitas vezes, as soluções não são protocolares. Houve, por exemplo, por parte de alunos e famílias, uma recusa de que os alunos transsexuais utilizassem os banheiros femininos ou masculinos. A solução foi fazê-los utilizar o banheiro dos funcionários. “Aí conversamos com adultos, é um diálogo de outro nível. Compreenderam que esses estudantes não poderiam não ter banheiros a que tivessem acesso”, relata.
A escola tem buscando conversar com as famílias e mostrar que, como qualquer outro ambiente, ali também há leis e obrigações a serem respeitadas e que os alunos precisam ter esse aprendizado.
“Procuramos ser transparentes e serenos e buscamos o diálogo com quem agride e com quem foi agredido”. Não é tarefa simples. Os exemplos do mundo adulto não têm ajudado. Quem sabe nos países criados pela imaginação dos estudantes as coisas melhorem.
Esta matéria foi originalmente produzida para a Academia Líderes de Educação, hub da revista Educação para diretores de escolas públicas e privadas. Conheça e faça parte: https://revistaeducacao.com.br/academia-lideres/