NOTÍCIA

Edição 318

Autor

Paulo de Camargo

Publicado em 12/02/2026

A matemática como direito

Marcada pelo atraso e falta de prioridade, o domínio dessa ciência pode vir a definir aqueles que serão protagonistas, autores e criativos — ou meros consumidores passivos no mundo cada vez algoritmizado

Entre tantos desafios da educação brasileira, um dos mais complexos tem nome e endereço há muito tempo, mas quase nunca recebeu a importância que merece das políticas públicas: trata-se da aprendizagem da matemática. Não faltam diagnósticos: para ilustrar o tamanho do desafio, basta um dado — ao final do ensino médio, apenas 5,2% dos alunos das escolas públicas brasileiras demonstram conhecimento adequado em matemática. Se forem considerados os 20% mais pobres, o indicador cai para 2,2%, segundo dados do Anuário Brasileiro da Educação Básica.

O dado é tão espantoso que, se a educação tivesse a repercussão social que merece, produziria manchetes, passeatas, buzinaços, panelaços e todo tipo de manifestação por justiça e cidadania. Afinal, no mundo contemporâneo, o aprendizado matemático impacta cada vez mais diretamente as chances de futuro dos jovens.

O estudo As competências matemáticas no mercado de trabalho brasileiro, publicada em 2025 pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), mostrou que os rendimentos são 85% maiores nas ocupações que atribuem importância grande ou muito grande para os conhecimentos em matemática. Profissões que valorizam conhecimentos de exatas oferecem salários até 160% mais altos e exigem maior escolaridade — mas falta mão de obra. “Estamos diante de um desafio que, se superado, pode transformar radicalmente as perspectivas profissionais dos brasileiros e a competitividade do nosso país no cenário global”, afirma o especialista Maurício Cortez Reis, que conduziu o estudo do Ipea.

 

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Conforme demonstra o trabalho, os conhecimentos em matemática têm papel fundamental para o desempenho de atividades pessoais, sociais ou profissionais. No Brasil, diz o estudo, a contribuição estimada das ocupações intensivas em matemática corresponde a 4,3% do produto interno bruto (PIB), envolvendo 7,4% dos trabalhadores. Mas, nos países desenvolvidos, a diferença é expressiva. Na França, por exemplo, estima-se a contribuição da matemática em 18,0% do PIB e 13% do emprego.

Claro: o aprendizado da matemática não tem a ver apenas com empregabilidade, mas está na base da noção de cidadania no século 21. As ideias matemáticas estão presentes, por exemplo, nos algoritmos que muitas vezes podem comandar nossas vidas, se não tivermos ideia de como funcionam. A matemática é necessária nas contas da casa, no planejamento financeiro, no uso de dispositivos digitais, na vida cotidiana, na compreensão do funcionamento do mundo.

 

Compromisso nacional

No final de 2025, um sinal de positivo, ao menos como esperança, apareceu no horizonte. Foi lançado em dezembro, pelo Ministério da Educação, um dos maiores esforços públicos nacionais para se enfrentar o desafio da aprendizagem da matemática — o programa Compromisso Nacional Toda Matemática. “O país demorou para colocar prioridade nessa agenda, que é política e técnica”, reconhece Alexsandro do Nascimento Santos, subsecretário da Política Nacional Integrada da Primeira Infância, do MEC, e, antes, diretor de Políticas e Diretrizes da Educação Integral Básica. “Precisamos reconhecer de que partimos de patamar muito ruim para a garantia do direito ao aprendizado de matemática, mas é preciso não ter medo de buscar alternativa e dar escala para o que já dá certo”, acredita.

 

Alexsandro Santos

Alexsandro Santos, subsecretário da Política Nacional Integrada da Primeira Infância, do MEC: O país demorou para colocar prioridade nessa agenda, que é política e técnica (foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

 

O programa tem ações previstas no eixo do desenvolvimento profissional docente (formação inicial e continuada); na orientação curricular e pedagógica, com a publicação de novos materiais e guias para a revisão curricular dos estados, e na governança e gestão, com comitês estaduais e pactuação de metas. Há iniciativas no campo da avaliação da aprendizagem, com uma plataforma de avaliação formativa, bem como no compartilhamento de boas práticas. Serão investidos, diz o MEC, R$ 156 milhões.

 

Educação superior: Um novo ensino para a matemática

 

Segundo Alexsandro Santos, devem ser formados 8 mil formadores de professores, em um curso virtual de especialização em formação docente, que terão a missão de orientar os professores de matemática das escolas.

Jorge Lira

Nas formações inicial e continuada, “a ideia sempre é propor tarefas, mas não há clareza entre os educadores de quais são as boas atividades, as relevantes”, aponta Jorge Lira, professor da Universidade Federal do Ceará (foto: reprodução/FGV)

 

Esse é um dos pontos-chave do programa. “Temos constatado em processos de formação profissional inicial e continuada que a ideia sempre é propor tarefas, mas não há clareza entre os educadores de quais são as boas atividades, as relevantes, as que mobilizam efetivamente conhecimentos e habilidades”, aponta Jorge Lira, professor titular do Departamento de Matemática da Universidade Federal do Ceará.  “Conhecimentos sobre dispositivos cognitivos que impedem desenvolvimento da aprendizagem, a leitura dos erros, das estruturas matemáticas, como se combina conhecimento profundo do currículo, avaliação, nenhum desses aspectos são bem tratados nas licenciaturas”, diz o pesquisador.

 

Problemas históricos

Mas, como chegamos a esse ponto? Não foi por falta de diagnósticos e pesquisas. Há pelo menos 40 anos, o Brasil produz muita pesquisa relevante no campo da educação matemática. Há décadas já existe, por exemplo, a crítica sobre a matemática centrada no treino e no aprendizado mecânico, apontando para a necessidade de ampliar a compreensão, foco em resolução de problemas e construção do sentido. “Houve contribuição expressiva para temas como concepções de aprendizagem, formação de professores, didática de tópicos específicos, como número, álgebra e geometria, linguagem, avaliação e currículo. Em muitos casos, essa produção ajudou a sofisticar o como ensinar e o que significa aprender matemática”, analisa a pesquisadora Kátia Smole, hoje diretora-executiva do Instituto Reúna, que desenvolve o movimento Gente que Soma.

Kátia Smole

“Não basta mais matemática: é preciso sequência didática e progressão bem desenhada, com objetivos claros por etapa”, orienta Kátia Smole, do Instituto Reúna (foto: arquivo pessoal)

Mas, nas palavras de Kátia, havia, como ainda existem, problemas estruturais que impedem a pesquisa de se transformar em boas práticas escaláveis — entre eles, a formação inicial dos professores desconectada da sala de aula, as condições de trabalho docente, a descontinuidade de políticas entre os sucessivos governos, a oferta de materiais, avaliações coerentes, e uma cultura de implementação. “Dizer que a pesquisa não atinge o professor é uma simplificação, pois a questão não é apenas chegar, mas virar rotina de ensino com suporte, coerência e tempo”, diz.

 

Pesquisa | cerca de 40% dos professores que ensinam matemática apontam condições de trabalho inadequadas

 

Nos anos 1990, parte relevante do debate era polarizada por tendências e grandes princípios, como o construtivismo ou a ideia de contextualização e de resolução de problemas. “Hoje, sem abandonar tais princípios, há um acúmulo maior de evidências sobre estratégias específicas, com maior rigor metodológico, meta-análises e estudos de intervenção. Isso desloca o debate do que é desejável para o que produz aprendizagem com consistência, especialmente em contextos de desigualdade”, sintetiza Kátia Smole.

A pesquisa evoluiu, segundo a diretora do Instituto Reúna, para mapear com mais detalhe obstáculos típicos, entre eles, a compreensão de número; por que frações e proporcionalidade são gargalos; como transitar do pensamento aritmético ao algébrico; e como desenvolver visualização e raciocínio geométrico. “Em síntese, não basta mais matemática: é preciso sequência didática e progressão bem desenhada, com objetivos claros por etapa”, diz.

Outros avanços se deram nas neurociências, na compreensão das dimensões socioemocionais e cognitivas da aprendizagem matemática, bem como no entendimento do erro como motor de aprendizagem. “Há evidências mais claras de que o erro, quando tratado de forma intencional, analisado e discutido, ativa processos cognitivos profundos, favorece a consolidação conceitual e o desenvolvimento do raciocínio matemático”, explica. Essas novas abordagens não substituem o imprescindível papel do educador, mas possibilitam não cair em falsas dicotomias, como a entre erro e acerto ou fluência versus compreensão.

 

Para além da pedagogia

A complexidade do tema da aprendizagem matemática no país, como acontece em outras dimensões da educação, extrapola o campo pedagógico. Há, por exemplo, uma cultura social que naturalizou a matemática como um bicho de sete cabeças, reservada aos predestinados e aos ‘mais inteligentes’. À parte o lado folclórico do medo da matemática, há consequências concretas, como a baixa expectativa que pesa sobre os ombros das crianças, especialmente as mais pobres. Por isso, o fosso da desigualdade só aumenta.

Os professores também apontam áreas em que precisam ser apoiados. Os resultados preliminares de uma grande pesquisa feita pelo MEC, no primeiro semestre de 2025, mostram que 40% dos docentes veem nas condições de trabalho inadequadas entraves para o aprendizado da matemática.

Ao mesmo tempo, é preciso que ressalvas sejam feitas. Em que pesem as condições privilegiadas, as escolas privadas também demonstram dificuldade com a aprendizagem da matemática — expressas nos próprios resultados do Saeb. Entre 2017 e 2023, a porcentagem de alunos com aprendizagem adequada nas escolas particulares caiu de 58,7% para 40,6%, entre os alunos mais ricos, e de 26,1% para 17%, no segmento de renda mais baixa, segundo dados do Anuário Brasileiro da Educação Básica.

“Muitas escolas particulares avançaram em áreas como linguagem, projetos interdisciplinares, STEAM [abreviação em inglês para Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática] e desenvolvimento socioemocional, mas a matemática exige algo adicional: clareza sobre progressões de aprendizagem, trabalho sistemático com fluência matemática, uso pedagógico do erro, tempo dedicado a consolidar fundamentos e alta qualidade didática ao longo de toda a trajetória escolar”, diz Kátia Smole.

 

Leia também: Como crianças organizam a própria aprendizagem em matemática?

 

Além disso, trata-se de um desafio global. A percepção de que a matemática é fundamental para a revolução tecnológica que vivemos vem estimulando um grande esforço internacional de revisão curricular nas últimas décadas.

“A matemática, muitas vezes considerada uma disciplina difícil de mudar, está passando por uma transformação. Além das áreas de conteúdo tradicionais, como quantidades/operações, geometria e medidas, o desenvolvimento do raciocínio matemático dos alunos tornou-se um objetivo fundamental para muitos sistemas educacionais”, informa o relatório Uma evolução no currículo da matemática, lançado pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE).

A nova política do MEC se alinha com esse esforço internacional de transformação do ensino da matemática — ciência cujo domínio pode vir a definir aqueles que serão protagonistas, autores e criativos ou meros consumidores passivos no mundo cada vez algoritmizado em que vivemos.

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