NOTÍCIA
Organização pedagógica, acompanhamento contínuo e uso inteligente de dados levam cidades a 100% de crianças lendo e escrevendo na idade certa
Por Cintia Lapa*, diretora de Conteúdo e Performance Educacional da FTD Educação | Os dados de 2025 do Indicador Criança Alfabetizada, do Ministério da Educação, mostraram um avanço importante: 66% das crianças da rede pública, ao final do 2º ano do ensino fundamental, demonstraram habilidades básicas de leitura e escrita, superando a meta nacional de 64% e melhorando o resultado de 2024, de 59,2%.
Há uma recuperação concreta em relação ao período pós‑pandemia. Ainda assim, um terço das crianças segue sem alfabetização consolidada na idade correta. A questão passa a ser não apenas se conseguimos melhorar, mas quanto ainda podemos avançar e o que, na prática, muda essa trajetória.
Quando se observam redes municipais que adotam sistemas estruturados de ensino, a resposta se torna mais nítida. Em diversos municípios, as taxas de alfabetização na idade certa ultrapassam com folga a média nacional e se aproximam da universalização. Suzanópolis (SP) alcançou 100% de crianças alfabetizadas; Crucilândia (MG) registra 96%; Floreal (SP) reúne 93% de alfabetização e Ideb 9,3.
Esses resultados não são casos isolados: entre mais de 320 municípios parceiros da FTD Educação, 176 redes que utilizam o SIM Sistema de Ensino conquistaram o Selo Criança Alfabetizada, 87 delas com Selo Ouro, e mais de 90% dos municípios com mais de três anos de parceria superaram a média nacional do Ideb.
A diferença começa pela organização do trabalho pedagógico. Sistemas estruturados articulam currículo sequenciado, materiais didáticos de qualidade, plataforma digital, propostas de aula, avaliações e rotinas de acompanhamento em uma mesma proposta metodológica.
Em vez de cada escola ou professor decidir sozinho o que ensinar e quando, a rede passa a ter um referencial comum sobre as aprendizagens essenciais de cada etapa. Isso reduz a improvisação, diminui a fragmentação entre escolas e oferece ao professor um horizonte claro de expectativas.
Esses sistemas vêm, em geral, acompanhados de formação continuada e consultoria pedagógica conectadas à sala de aula. Não se trata de formações genéricas, mas de apoio ao uso do material, à leitura dos resultados de aprendizagem e ao ajuste das estratégias.
Municípios como Crucilândia, parceiro há três anos, mostram o efeito dessa combinação: mesmo com rede pequena e recursos limitados, conseguiram construir uma trajetória consistente de uso do sistema, com mais intencionalidade na alfabetização e taxas que hoje superam 96%.
Outro elemento decisivo é a incorporação do uso de dados à rotina pedagógica. Avaliações periódicas, ferramentas de acompanhamento da fluência leitora e plataformas digitais permitem monitorar o progresso das crianças em tempo quase real, em vez de descobrir apenas no fim do ciclo que uma parcela relevante da turma não se alfabetizou.

Para Cintia Lapa, um elemento decisivo dos sistemas estruturados é a incorporação do uso de dados à rotina pedagógica (Foto: Divulgação)
Quando a escola sabe, com base em evidências, quais habilidades estão consolidadas e quais não, pode organizar intervenções mais assertivas, como reforço focalizado, reagrupamentos temporários e ajustes nas práticas de leitura e escrita. Deixar de trabalhar “no escuro” impacta diretamente a curva da aprendizagem.
Sistemas estruturados não resolvem tudo. Eles não substituem boas condições de trabalho, salários adequados, gestão escolar comprometida ou políticas que enfrentem desigualdades profundas. Tampouco dispensam o protagonismo do professor, que continua sendo o agente central da aprendizagem. O que fazem é oferecer suporte mais robusto para que o docente não precise trilhar sozinho o caminho da alfabetização e possa concentrar energia na mediação pedagógica, em vez de dispersá‑la em produção fragmentada de materiais e rotinas.
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Para ir além dos atuais 66% e aproximar o país dos patamares já observados em Suzanópolis, Crucilândia e Floreal, alguns movimentos são indispensáveis. A consolidação da alfabetização é prioridade das redes, com metas claras, acompanhamento e suporte técnico, não como programa sujeito a mudanças a cada gestão. Também adotam referenciais pedagógicos consistentes – sistemas estruturados ou outras propostas baseadas em evidências – que alinhem currículo, materiais, formação e avaliação em torno do objetivo de que todas as crianças leiam e escrevam com autonomia até o 2º ano.
Outro passo é o fortalecimento da cultura de uso de dados. O Brasil avançou em avaliações em larga escala, mas ainda transforma pouco esses resultados em decisões de sala de aula, formação e apoio. Resultados não podem ser apenas números em relatórios; precisam orientar a ação pedagógica. Por fim, é essencial garantir continuidade: as redes que optaram por organização pedagógica consistente, formação e monitoramento permanentes, colhem os frutos nos resultados obtidos, uma vez que houve continuidade do trabalho ao longo do tempo. Superar a meta nacional deve ser ponto de partida, não de chegada.
A experiência de municípios com taxas de alfabetização acima de 93% mostra que universalizar a alfabetização na idade certa é uma possibilidade concreta. A adoção e o aperfeiçoamento de sistemas estruturados de ensino, articulados a políticas de formação docente e uso inteligente de dados, despontam como uma das estratégias mais eficazes para transformar essa possibilidade em realidade e assegurar que nenhuma criança fique para trás na etapa mais decisiva da vida escolar.
*Cintia Lapa é mestre em Engenharia de Produção, Mídia e Conhecimento, com ênfase em Tecnologia Educacional pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); especialista em Finanças pela Faculdade Católica de Administração e Economia (FAE); e licenciada em Matemática pela Universidade Federal do Paraná (UFPR).
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