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Edição 320

Pedagogia empreendedora e inclusiva é realidade em Mafra, SC

A rede municipal de Mafra, em Santa Catarina, enfatiza a importância da educação inclusiva e o respeito às singularidades dos estudantes

Uma escola pública, rural e integral rumo à autossustentabilidade alimentar, que tem a pedagogia empreendedora como base, além de uma secretaria de Educação que enfatiza em toda a rede a importância da educação inclusiva e do respeito às singularidades e particularidades dos estudantes. Sim, a nossa educação pública pode dar certo — e já está dando. É o caso da cidade de Mafra (SC), na divisa com o Paraná.

Com 7 mil estudantes divididos em 30 escolas públicas municipais rurais e da cidade, uma dessas, citada no início desta matéria, tem se destacado: a Escola Agrícola Municipal Prefeito José Schultz Filho. Localizada na zona rural de Mafra, tem 141 estudantes do 6º ao 9º ano, a maioria, filhos de pequenos agricultores rurais. Entre as riquezas do currículo está a clareza de que a escola pode ser um ambiente potencializador dos saberes locais, impactando, então, o desenvolvimento da própria economia da região.

Escola agrícola de Mafra: pedagogia da alternância e pedagogia empreendedora (foto: divulgação SemedMafra)

“O currículo busca somar, e não excluir a realidade familiar, para que nossos estudantes percebam oportunidades dentro de suas próprias realidades. Assim, eles não precisarão sair de sua região em busca de trabalho [após a conclusão do ensino básico]”, reflete a secretária de Educação de Mafra, Jamine Emmanuelle Henning — na pasta desde 2021.

Inclusive, 99% de toda a merenda escolar das 30 escolas da rede é oriunda da agricultura familiar regional, respeitando uma das regras do necessário Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae). No município, há muitas famílias que vivem do plantio do fumo, do milho, do feijão. Nada mais justo, então, do que aproximar escola e campo, propiciando alimentação saudável e giro da economia local. “Compramos temperos, frutas, verduras, até peixe. E os próprios alunos acabam ajudando suas famílias nesse processo, a partir do que aprendem na escola”, garante a secretária.

 

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“Valorizamos o que é daqui porque essa ação retornará ao município. Por que comprarei uma fruta de outra cidade ou estado sendo que pode ser produzida aqui? Investir aqui para o dinheiro continuar aqui irá gerar desenvolvimento da nossa cidade”, instiga.

 

Pedagogia empreendedora

Na escola agrícola, além do currículo obrigatório, a cada ano as turmas se especializam em algo, por exemplo, em frutas, verduras, cultivo de flores, além do trabalho com animais que vão da vaca, coelho a frangos. Essas práticas são costumes das famílias dos estudantes. Há também a aprendizagem da agroindústria, como a preparação de compotas e queijos. E o que é produzido na escola também vai para iniciativas comprometidas com o bem-estar das pessoas e com a preservação ambiental. Por exemplo, as sementes nativas vão para a Associação dos Fumicultores do Brasil (Afubra) e o leite para cooperativas regionais.

Mafra

Na escola agrícola, além do currículo obrigatório, a cada ano as turmas se especializam em algo, como em verduras e frutas (foto: divulgação SemedMafra)

“Compatível à faixa etária, o estudante absorve conhecimento de tudo o que é possível aplicar a partir da realidade de seu espaço familiar. Ou seja, incentivamos a empreender a partir do que eles têm, modernizar, talvez. Sabemos que essa cultura [agrícola] é o pontapé para o desenvolvimento de nossa cidade e de muitas outras”, pontua Jamine Emmanuelle.

Após a conclusão do 9º ano, o ensino médio passa a ser obrigatoriedade do estado. Contudo, visando a continuidade da pedagogia empreendedora, desde 2025, Mafra tem a Escola de Negócios, em parceria com o Sebrae, sendo gratuita e com 50 vagas exclusivas para quem cursa o ensino médio (não sendo uma parceria entre município e estado).

Na Escola de Negócios, as aulas são no contraturno, uma vez por semana, em que várias disciplinas fazem um resgate do que foi aprendido anteriormente, no fundamental 1 e 2, mas agora sob um olhar mais ‘profissional’. Segundo a secretária, há também a possibilidade de estágios em empresas.

 

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Educação que acolhe

A gestão de Jamine Emmanuelle Henning preza por uma rede escolar inclusiva independentemente de laudo. Desde o ano passado, há o Espaço Vida, para suporte pedagógico e multidisciplinar, contando com psicólogos, psicopedagogos e assistentes sociais. 

Ao ser questionada sobre o que entende como educação inclusiva, a secretária afirma: “O AEE é o atendimento especializado e especificamente para as crianças que têm um lado indicando a necessidade de acompanhamento no contraturno. E aqui, buscamos sempre maneiras de inserção com os demais colegas. Já a inclusão, temos de pensar que ela não é só para alunos com deficiência ou autismo, por exemplo”.

Jamine resgata o caso recente de uma menina que ano passado estava sem dificuldade de aprendizagem mas que este ano passou a ter e, por conta disso, chegou um pedido de encaminhamento ao AEE. A secretária achou o caso estranho. Foi então que a equipe, ao se aprofundar, descobriu que a mãe da menina havia falecido. “O nosso olhar para a inclusão é incluir todas as necessidades, sejam elas temporárias ou permanentes. Vivenciamos diversas realidades. Há crianças que passam por maus-tratos, que são abusadas; e onde elas vão se manifestar? Na escola.”

 

Gestão escolar democrática

Mafra

Gestão do futuro deve ser criativa e aprender a trabalhar com
as diferenças, diz a secretária Jamine Emmanuelle Henning (foto: divulgação SemedMafra)

Para Jamine, uma gestão para o futuro deve ser, já no presente, democrática e desafiadora, “porque temos de aprender a fazer muito com pouco recurso. Para isso, deve-se fugir do tradicional, ser criativo e aprender a trabalhar com as diferenças. Afinal, se antes uma sala tinha uma criança com laudo, hoje, em cada sala há cinco laudos de estudantes com inúmeras particularidades que devem ser acolhidas”.

 

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Se o aluno é tecnológico, a gestão do presente e futuro também precisa ser: “Não podemos parar no tempo. Temos de nos atualizar. A nossa escola rural, inclusive, não está atrasada. Aqui conseguimos equilibrar e todas as escolas da rede possuem projetos, notebook e laboratórios de informática. Além disso, uma criança que muda de uma escola do interior para uma da cidade, da mesma rede, continuará o seu aprendizado. Conseguimos isso por meio da FTD, padronizando o sistema de ensino”, conclui a secretária Jamine Emmanuelle Henning.

 

Ouça o podcast da revista Educação

José Pacheco e as comunidades de aprendizagem: conversas que educam


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