NOTÍCIA

Olhar pedagógico

Autor

Redação revista Educação

Publicado em 20/03/2026

Identidade e diversidade no currículo antirracista

Para a implementação do ensino das culturas afro-brasileira, africana e indígena, a reformulação do projeto político-pedagógico (PPP) pode ser o primeiro passo

Uma educação que atenda ao perfil populacional do país passa pelo ensino da cultura afro-brasileira. De acordo com o Censo Demográfico de 2022 do IBGE, 55,5% da população brasileira se autodeclara preta ou parda. A ausência destes conteúdos no currículo se constitui em omissão prejudicial à identidade de  crianças e adolescentes e de todos que têm seu processo de desenvolvimento em meio à  diversidade e pluralidade da sociedade.

Há vinte anos,  a Lei 10.639/03 tornou obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana no Brasil Em 2008, a  Lei 11.645 incluiu as culturas dos povos indígenas no currículo de todas as escolas do país. A implementação em cada escola, entretanto, não tem sido algo simples e demanda conscientização de gestores e docentes. Reformular o  Projeto Político Pedagógico (PPP) pode ser o primeiro passo.

Foi o que fez  a Escola Municipal Dona Leopoldina, situada no bairro do Alto da Lapa, zona oeste da capital paulista.  Ali, o grupo de crianças é um retrato da diversidade étnico-racial. Desde a implementação inicial da proposta, em 2024, passando pelas experiências desenvolvidas ao longo de 2025 e no início de 2026, a escola identifica avanços e desafios. Segundo a diretora, Claudia Maria, a consolidação de um currículo antirracista exige enfrentamento permanente de uma sociedade marcada pelo racismo estrutural. 

“É uma luta constante para construir ideias e desconstruir preconceitos, com as crianças e com as famílias. Por isso, é fundamental não desistir”, afirma. Para a gestora, no entanto, os resultados mais significativos vão além dos indicadores formais. Ela destaca que a proposta atingiu aquilo que considera essencial no ambiente escolar: o sentimento de pertencimento e alegria. “A escola ficou mais feliz. Estar aqui não é algo ruim ou imposto. É um espaço que faz sentido, que faz viver. Isso é extremamente satisfatório.” 

 

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Comunidade e pertencimento

Intitulado “Terreiro de Infâncias Cultivando um currículo afro-brasileiro na educação infantil”, a nova iniciativa valoriza os diversos aspectos da cultura afro-brasileira. O terreiro é compreendido como um local que abriga um universo simbólico rico em tradições como danças, cantos, poesias, mitos, histórias e formas de organização espacial que mantêm vivas as memórias ancestrais dos povos africanos no Brasil.

O nome Terreiro de Infâncias propõe um sentido de comunidade e pertencimento. Não se trata de uma referência religiosa, mas de um conceito ligado à cooperação, à ancestralidade, à resistência e à valorização cultural.

 O projeto anterior da escola, Viveiros de Infância, esteve em vigor entre 2012 e 2022 e é avaliado de forma positiva pela equipe. Com foco na autonomia e na liberdade das crianças, já incorporava a educação antirracista como um de seus eixos. A diferença é que o tema, antes transversal, passou a ocupar posição estrutural de todas as práticas pedagógicas. 

A mudança não significou a exclusão de outras temáticas, mas um aprofundamento das discussões já existentes. Um exemplo é o Projeto Especial de Ação PEA “Bate Macumba: A musicalização infantil com base nas culturas afro-brasileiras”, desenvolvido ao longo de 2024. Durante o ano, educadores e educadoras se reuniram semanalmente para estudar e planejar propostas focadas na promoção da equidade étnico-racial, incorporando referências musicais afro-brasileiras ao cotidiano das crianças com brincadeiras e vivências. 

 

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Educação antirracista

Espaços físicos da escola aproximam referências afro-brasileiras ao cotidiano das crianças (foto: Divulgação/SME-SP)

Os espaços da escola 

Os próprios espaços físicos da escola passaram a refletir essa perspectiva. A horta pedagógica, que conta com composteira e cisterna, foi batizada de Jardim de Ossaim, em alusão aos conceitos de ancestralidade e tempo presente nas tradições de matriz africana. De acordo com a mitologia Iorubá, Ossaim é o detentor do segredo das ervas e da cura.  

O espaço dialoga também com o trabalho das Mães Guardiãs da Alimentação Escolar, responsáveis por promover práticas de alimentação saudável e educação ambiental junto às turmas. 

Um dos parques da escola recebeu o nome de Parque Dandara, em referência a Dandara dos Palmares, símbolo da resistência negra no Quilombo dos Palmares durante o período colonial. Ao nomear seus espaços, a escola transforma o cotidiano em instrumento pedagógico. “Nós aproximamos as crianças de referências históricas e culturais essenciais para o reconhecimento de uma identidade”, finaliza a diretora. 

  


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