NOTÍCIA

Edição 319

Autor

Ana Gabriela Nascimento

Publicado em 19/03/2026

O dilema da proibição

Especialistas debatem a proibição a redes sociais para crianças e adolescentes em meio a cenário de mudanças no Brasil e no mundo. Nas escolas, educação midiática tende a ganhar mais espaço

A discussão sobre o uso de redes sociais por crianças e adolescentes deixou de ser um tema restrito a famílias e escolas e passou a ocupar o centro do debate público em diferentes países. A Austrália foi o primeiro país a anunciar a proibição do acesso a menores de 16 anos a plataformas de redes sociais, responsabilizando as empresas por impedir o cadastro desse público. 

Na Europa, diversos países avaliam medidas semelhantes, que vão desde limites etários mais rígidos até exigências de maior transparência sobre algoritmos e coleta de dados. Já nos Estados Unidos, multiplicam-se processos que colocam empresas como Meta e YouTube no banco dos réus, acusadas de estimular o uso compulsivo das plataformas e de contribuir para problemas de saúde mental entre jovens.

No Brasil, o caminho escolhido tem sido menos centrado na proibição e mais voltado à regulação e à corresponsabilização. O chamado ECA Digital entra em vigor em março deste ano. Ele atualiza o Estatuto da Criança e do Adolescente para o ambiente online e busca estabelecer novos parâmetros de proteção, ampliando o dever das plataformas sem retirar completamente crianças e adolescentes do espaço digital. A proposta reflete uma compreensão cada vez mais presente entre especialistas: o mundo digital não é um ‘extra’ da vida social, mas parte constitutiva dela.

Não há soluções simplistas 

 

Dilemas da proibição

O impacto das redes na adolescência é ainda mais complexo que na infância por ser um período biológico, cultural e social, diz a psicóloga Luana Galoni (foto: arquivo pessoal)

Reconhecer a vulnerabilidade de crianças e adolescentes é ponto de partida comum entre os especialistas, mas isso não significa reduzir o debate a explicações fáceis. A psicóloga, professora e escritora Luana Galoni lembra que o desenvolvimento infantil envolve limites neurológicos concretos. “Quando pensamos em crianças menores, o controle inibitório ainda está em desenvolvimento”, explica. Ou seja, esperar que crianças tenham o mesmo grau de autorregulação que adultos é ignorar aspectos básicos do neurodesenvolvimento.

 

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Na adolescência, o cenário se torna ainda mais complexo. “Não é só um período biológico. É um período biológico, cultural e social”, afirma Luana, destacando o peso dos grupos, da busca por pertencimento e da adequação social. Esse conjunto de fatores ajuda a entender por que as redes sociais exercem tamanho fascínio nessa fase da vida, e a causa de intervenções simplistas falharem. 

A jornalista, educomunicadora e escritora premiada Januária Cristina Alves faz um alerta semelhante ao criticar leituras que colocam toda a responsabilidade das tecnologias. “Eu desconfio muito dessas ideias monocausais. A culpa é toda das mídias, a culpa é toda do celular.” Para ela, o tom alarmista que muitas vezes domina o debate público contribui pouco para soluções efetivas. “A imprensa, eventualmente, cria pânico em torno do tema, e o pânico não nos ajuda a tomar decisões inteligentes.”

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Victor Vicente, diretor de projetos do Redes Cordiais, instituição sem fins lucrativos focada em disseminar a educação midiática, reforça essa perspectiva ao lembrar que os impactos das redes sociais não se restringem às novas gerações. “Esse não é problema só de uma geração. Crianças, adolescentes, mas também professores, famílias e adultos no geral, todos estão lidando com isso.” 

Dilemas da proibição

“Privar sujeitos desses espaços é uma decisão que precisa ser muito cuidadosa e participativa”, avalia Victor Vicente, do Redes Cordiais (foto: divulgação)

Na lógica da chamada economia da atenção, o tempo virou um recurso disputado por múltiplos atores, e não apenas pelas grandes plataformas. Embora rejeitem explicações reducionistas, os especialistas são claros ao apontar que existe um interesse econômico que estrutura o funcionamento das redes.

“Há uma estratégia no desenvolvimento dessas tecnologias para maximizar o tempo de consumo e de uso”, afirma Victor. Esse modelo afeta diretamente a forma como conteúdos são produzidos, distribuídos e priorizados. Ainda assim, ele destaca que a responsabilidade é distribuída. “Não tem só um culpado ou um responsável. É uma cadeia.” 

Criadores de conteúdo, anunciantes, empreendedores digitais e usuários também participam desse ecossistema. Para o campo educacional, essa constatação é fundamental: compreender o funcionamento das plataformas é tão importante quanto discutir limites de uso.

Escola é espaço fundamental para educação midiática 

Diante desse cenário, a escola surge como um lugar importante para avançar na construção de uma internet melhor. Para Januária Alves, isso não é novidade, mas uma atualização de uma missão histórica. “O que é a escola senão um laboratório para a vida?” Em um mundo marcado pela desinformação e pela circulação de imagens manipuladas, a capacidade de interpretar notícias, reconhecer deepfakes e formular perguntas críticas se torna ainda mais elementar.

Dilema da proibição

Educomunicadora  Januária Alves sobre o mundo digital: “O que é a escola senão
um laboratório para a vida?” (foto: arquivo pessoal)

Ela destaca que muitos jovens dominam ferramentas digitais, mas isso não equivale a pensamento crítico. “Não quer dizer que saibam interpretar uma notícia ou diferenciar uma imagem falsa de uma real”, pontua Januária. Por isso, a educação midiática tem integrado o conteúdo curricular de cada vez mais escolas. Mas há ainda muito o que caminhar, inclusive do ponto de vista da formação adequada para professores que, em geral, não contam com essa disciplina na universidade. 

Luana defende que aprender vai além de resolver problemas e passa por desenvolver competências para poder inventá-los, o que exige escuta e experiência. “Para uma aprendizagem significativa, a gente precisa ter tempo de construção para que crianças e adolescentes vivenciem o afeto, elaborem conflitos e construam sentido para o que aprendem”, afirma. 

 

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O funcionamento das redes sociais, marcado pela sucessão rápida de estímulos e pela sensação constante de que algo melhor está sendo perdido, entra em choque com esse processo. “Isso não é o tempo da experiência”, resume a psicóloga. 

Dilema da proibição

A jornalista Ana Clara Barreto é mãe de duas crianças e vê a escola como fundamental para trabalhar questões relacionais (foto: arquivo pessoal)

Do ponto de vista das famílias, o desafio é constante. Mãe de uma menina de sete anos e de um menino de 12, a jornalista Ana Clara Barreto relata que, mesmo com controle doméstico, a exposição é inevitável. “Minhas preocupações são a perda cognitiva do excesso de tela, os conteúdos inapropriados e outras situações como contato com estranhos e abusos de diferentes formas.”

Ela vê na escola um espaço privilegiado para trabalhar dimensões que extrapolam o controle técnico. “A questão relacional precisa ser abordada: o diálogo olho no olho, a convivência fora da tela. O alerta sobre exposição também é algo que pode ser trabalhado, e que também expor o colega por meio de fotos, prints de conversas e vídeos pode ser sério e afetar o outro”, considera Ana Clara.

 

Participação de crianças e adolescentes

Segundo Victor, um dos maiores desafios das políticas públicas é incluir crianças e adolescentes como sujeitos do processo. “Eles precisam participar dessas decisões de maneira mais protagonista.” Isso legitima as medidas e ajuda os próprios jovens a compreenderem por que determinadas restrições existem. Ele lembra que as redes sociais também são espaços de afirmação de direitos, expressão cultural e acesso à informação.

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“Privar sujeitos desses espaços é uma decisão que precisa ser muito cuidadosa e participativa.” O risco, segundo ele, é tentar resolver problemas reais sacrificando dimensões positivas da vida digital. Um ponto em comum perpassa as reflexões: soluções rápidas não vão dar conta da questão. A ideia de proibição total pode oferecer alívio imediato, mas dificilmente sustenta mudanças duradouras. 

Entre regulações, limites e disputas, a educação aparece como o eixo capaz de articular proteção, autonomia e participação. Formar sujeitos críticos, capazes de compreender o mundo digital parece ser uma das tarefas mais urgentes da escola. 

 

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