NOTÍCIA

Opinião

Autor

Gustavo Lima

Publicado em 25/02/2026

Turmas multisseriadas: uma pedagogia para a diversidade das aprendizagens

Quando bem implementada, a multisseriação pode ser um fator favorável às aprendizagens

Por Tereza Perez e André Lázaro* | O fenômeno da urbanização no Brasil foi uma das características mais marcantes do século 20. Na década de 1960, a população urbana ultrapassou a rural e a ideia da vida no campo ganhou, injustamente, uma apreciação negativa, virando sinônimo de atraso e anacronismo nos tempos modernos. Hoje, observamos, entre outras consequências desse fenômeno, o inchaço das cidades e a substituição das pequenas propriedades rurais por latifúndios dominados pela monocultura.

Essas aceleradas transformações tiveram impacto direto nas escolas do campo. Em função da baixa densidade populacional em determinadas localidades, não havia quantidades de alunos da mesma faixa etária suficientes para compor séries e surgiu assim a alternativa das turmas multisseriadas. Atualmente são aproximadamente 1,2 milhão de estudantes, presentes em quase todas as unidades da federação (Censo, 2019).

As multisseriadas são muitas vezes vistas como uma solução precária à luz dos desafios que enfrentam para assegurar uma educação de qualidade: grande rotatividade docente pela precariedade do vínculo, falta de acompanhamento das secretarias de educação em função das distâncias, condições estruturais precárias, além da própria complexidade no manejo das aprendizagens de estudantes de idades e “séries” diferentes.

 

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Um olhar menos contaminado, no entanto, permite perceber a potência de um modelo que, em período de pós-pandemia e escancaramento das desigualdades de oportunidades, reconhece a diversidade inerente a toda sala de aula. A multisseriação, quando bem implementada, pode ser um fator favorável às aprendizagens.

Dessa forma, a ideia de que as turmas multisseriadas são um modelo a ser superado que deve avançar para o modelo seriado, vem sendo questionada por alguns autores (Terigi, 2014). Argumentam que a crise no nosso sistema de ensino tem origem em uma tentativa de homogeneizar os estudantes por desconsiderar a diversidade e a heterogeneidade presentes em toda sala de aula.

 

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É essa ideia de precariedade que guia a tendência de nucleação, iniciada nos anos 70. A nucleação consiste em deslocar estudantes de escolas com salas multisseriadas para escolas centrais na cidade. Assim, ao invés de se criar as condições para que essas crianças tenham um bom ensino no lugar onde vivem, opta-se por levá-las por transporte escolar para unidades muitas vezes distantes de suas casas, dificultando a participação das famílias na vida escolar dos filhos. A escola também é parte da vida comunitária no campo, exerce importante papel na socialização das famílias, é centro de articulação e convivência e tem impacto na economia local, já que emprega parte da população e compra alimentos de produtores locais para a merenda escolar.

A literatura acadêmica sobre o tema aponta, ainda, que a valorização da estrutura seriada – orientadora das políticas educacionais e dos planejamentos de ensino – faz com que práticas pedagógicas baseadas nesse princípio sejam reproduzidas em multisseriadas, o que limita a potência de uma sala composta por estudantes de diferentes idades e frustra a possibilidade de agrupamentos que ampliam as oportunidades de aprendizagem entre pares.

Dessa forma, é preciso reavaliar a tendência de nucleação que muitas redes estão seguindo e promover um deslocamento que traga a proposta das multisseriadas para o centro das políticas públicas educacionais. Este modelo pode inspirar estratégias pedagógicas capazes de dar maior sentido às aprendizagens de todas as crianças e adolescentes, o que garante, de fato, o direito à educação.

*Tereza Perez, diretora-presidente na Roda Educativa. André Lázaro, diretor de Políticas Públicas da Fundação Santillana, foi secretário da Secadi (Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão) do Ministério da Educação.


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