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João Jonas Veiga Sobral

Professor de língua portuguesa e orientador educacional

Publicado em 20/02/2026

A pedagogia do desmonte da inteligência

O pensador Terry Eagleton lembra que nenhum sistema se fortalece tanto quanto aquele que convence seus cidadãos de que pensar é desperdício de tempo

Há uma convicção matreira — daquelas que enganam incautos — segundo a qual estudar teria se tornado dispensável. Afirma-se que o diploma universitário perdeu valor, que a universidade virou um capricho inútil, que a CLT atrapalha a prosperidade e que, no mundo moderno, o essencial é trabalhar e produzir. Proposições curiosas, mas apenas no nível dos automatismos sociais, em que ideias se reproduzem por imitação, não por reflexão. Domênico Losurdo, filósofo italiano, observaria, se vivo fosse, que estamos diante de uma regressão ideológica disfarçada de eficiência. Terry Eagleton, pensador inglês, lembra, com humor afiado, que nenhum sistema se fortalece tanto quanto aquele que convence seus cidadãos de que pensar é desperdício de tempo.

A desvalorização da universidade e da CLT forma uma parceria reveladora. Não surge isoladamente nem por acaso. Se a universidade garante o direito à reflexão, a CLT assegura o direito de não ser moído enquanto se trabalha. Ambas inibem a voracidade do mercado e, por isso, tornam-se alvos de quem deseja uma sociedade silenciosa, satisfeita com migalhas embaladas como oportunidade. Quando alguém declara que ´universidade não tem serventia´, não está discutindo educação — milita pela despolitização. Quando afirma que ´a CLT trava o progresso´, não trata apenas de economia — defende um trabalhador desprotegido e, portanto, obediente.

 

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Nada se compara, todavia, à voz oficial que utiliza o ensino técnico como justificativa para esse desmonte. O curso técnico — legítimo, importante, formador de inteligências concretas — passa a ser apresentado como rival da universidade, quando, na verdade, a complementa. Essa oposição forjada não revela um debate pedagógico, mas uma operação ideológica que visa neutralizar a teoria, enfraquecer o pensamento crítico e preparar o terreno para uma educação submetida à lógica do mercado. O objetivo não é valorizar a técnica, mas transformar uma possível correlação em conflito e criar sujeitos que executam sem compreender e cidadãos que aceitam medidas sem questionar.

A verdade é quase embaraçosamente simples: não existe técnica que dispense reflexão, nem teoria que sobreviva longe da prática. É por isso que o conceito de práxis — a ideia de que teoria e prática só fazem sentido juntas — permanece necessário, embora frequentemente mal explicado. Pensar e agir não são mundos separados; são etapas do mesmo processo. O técnico que interpreta normas e decide rapidamente, aplica teoria; o universitário que coleta dados e testa hipóteses, pratica. Aprender, pensar e agir são inseparáveis.

É nesse sentido que o ataque ao estudo assume formas persistentes. Separar teoria e prática não é apenas um erro; é um exercício de poder. Dividir aquilo que, na experiência humana, é unitário — pensar e fazer — permite formar sujeitos que executam sem compreender e outros que compreendem sem tocar o real. Duas rupturas convenientes para qualquer estrutura que deseje governar pela obediência infértil, nunca pela autonomia.

 

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Não deixa de ser incômodo que certas figuras públicas afirmem que estudar ´não é necessário´, bastando força de vontade, improviso ou talento inato para dar conta da vida e do ofício. O tom é quase paternal, como se oferecessem um atalho ao jovem. Mas a sedução desse trilho esconde o fato central: quando uma autoridade declara que aprofundar o pensamento é supérfluo, a afirmação converte-se em orientação oficial — e diretrizes oficiais têm o péssimo hábito de se tornar políticas públicas. Curiosamente, recomendações para ´estudar menos´ partem de quem estudou o suficiente para saber que a sugestão só funciona para os outros.

Reafirmar o valor do estudo não é resistência ao futuro; é responsabilidade política diante de um cenário que reduz a educação a métricas vazias. Seja a escola conteudista, montessoriana, técnica, universitária ou waldorfiana, todas têm como fundamento conduzir o aprendiz à indagação. Esse núcleo se perde quando a lógica tecnocrática transforma aprender em preencher planilhas e cumprir indicadores. Aprender nunca foi isso: é formar pensamento, construir sentido, propor

alternativas. É esse processo intelectual — e não o ritual mecânico de clicar em tabelas — que passou a ser visto com suspeita. Transformar o estudo em luxo e a reflexão em atraso tornou-se quase política de Estado. Nesse ambiente perigoso, a sociedade passa a confundir automatismo e cumprimento de protocolos com aprendizagem.

 

Coluna João Jonas Veiga Sobral

 

O ataque à CLT segue a mesma coreografia. A retórica é calorosa: ´flexibilizar´, ´desburocratizar´, ´modernizar´. Contudo, flexibilizar significa retirar garantias; desburocratizar, desproteger; modernizar, precarizar. A operação é transparente: retirar do trabalhador o chão jurídico que o impede de cair. A oposição à CLT nasce do mesmo impulso que rejeita qualquer instituição que imponha limites: o poder irrestrito é intolerável para quem deseja governar sem freios.

Losurdo insistia que a democracia exige instituições que dificultem o exercício arbitrário da força. Eagleton lembra que nenhuma sociedade que despreza o pensamento crítico e o trabalho protegido consegue produzir cidadania — apenas mão de obra. Não é coincidência que o ataque à inteligência e o ataque ao direito ocorram em uníssono. Precarização material e intelectual são irmãs siamesas.

Ao fim e ao cabo, resta o essencial: defender o ensino técnico é defender a inteligência prática; defender a universidade é defender a inteligência crítica; defender a CLT é defender a dignidade que permite a ambas florescer. Nenhuma delas é inimiga da outra. A oposição é falsa, interesseira e profundamente perigosa. Uma sociedade que desvaloriza o estudo, em qualquer de suas formas, começa a desaprender a pensar. Uma sociedade que desvaloriza a CLT, em qualquer de suas formas, começa a desaprender a se proteger. Quando desaprendemos esses dois princípios, deixamos de ser cidadãos. Tornamo-nos apenas recursos. E, por fim, menos humanos.

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