NOTÍCIA
Não é apenas inserir a cultura pop na aula; trata-se de dar aos alunos a oportunidade de explorar histórias, identidades e linguagens críticas
Por Tony DelaRosa* | Durante o show do intervalo do Super Bowl no domingo, minha família, uma mistura de filipinos e cubanos, estava uma bagunça linda e vibrante. Nos identificamos profundamente com o orgulho inabalável, a importância histórica e a riqueza cultural que o astro porto-riquenho Bad Bunny trouxe para a nossa sala de estar.

foto: reprodução/Youtube @NFL
Sorrimos e choramos, tudo isso enquanto dançamos salsa ao som da apresentação de Bad Bunny. Imediatamente mandamos mensagens para nossos familiares e amigos para convidá-los a compartilhar esse momento lindo: desde a apresentação inteira em espanhol até o cenário que homenageou a rica história agrícola de Porto Rico, e o artista entregando seu Grammy recém-conquistado a uma criança latina — um símbolo do jovem Bad Bunny e, talvez, do futuro da juventude imigrante.
Bad Bunny ofereceu uma lição primorosa sobre como construir um senso de pertencimento e questionar a democracia. Como educadora pública e pesquisadora sobre raça e bem-estar, acredito que sua apresentação deveria ser ensinada em todas as salas de aula esta semana para estimular discussões críticas sobre imigração, história e laços familiares em meio a uma era de divisão social e política. Algumas lições que todos podemos aprender com Bad Bunny.
Bad Bunny cantou em espanhol o tempo todo. No cenário global, isso desafia a expectativa de que o inglês seja o preço da admissão e do pertencimento. Muitos jovens imigrantes recentes que falam apenas espanhol merecem aulas que lhes permitam usar seu idioma para expressar plenamente a si mesmos, emocional e intelectualmente. Por outro lado, para os alunos que falam apenas inglês, isso os força a se colocar no lugar de seus colegas hispanofalantes para compreender a lição e ter empatia com suas diversas experiências. Uma pergunta que eu faria para iniciar uma discussão sobre pertencimento e poder multilinguísticos é:
“Quem se espera que se assimile através da linguagem ou do comportamento, e o que essa expectativa nos ensina sobre quem é considerado parte do grupo?”
A performance de Bad Bunny é um exemplo de arte política. Ela incorporou aspectos das lutas de Porto Rico contra o colonialismo através dos problemas na rede elétrica relacionados a “El Apagón” (O Apagão). Embora Porto Rico receba financiamento federal anualmente, frequentes apagões persistem devido ao apoio insuficiente para reparos e manutenção da infraestrutura a longo prazo. Uma pergunta que eu faria aos alunos sobre história crítica é:
“De que forma limitar o acesso à infraestrutura (ou seja, água, eletricidade e habitação) impede a sensação de pertencimento?”
A performance foi uma obra-prima em simbolismo. O campo de cana-de-açúcar inicial evocava a história do trabalho escravo industrial em Porto Rico e também era uma homenagem ao jibarro, ou seja, ao icônico compatriota porto-riquenho. A bandeira porto-riquenha azul-celeste com a qual Bad Bunny desfilou remete ao movimento pró-independência da revolta de 1868, o Grito de Lares, inspirado pelo Partido Revolucionário Cubano de Nova York. A bandeira nasceu na diáspora e, em tempos passados, hasteá-la era crime. Para abordar questões críticas sobre simbolismo, podemos perguntar:
“O que a sobreposição do canavial, do jibarro e da bandeira pró-independência revelam sobre contranarrativas, diáspora e pertencimento?”
Aliança e abrangência foram temas centrais na performance de Bad Bunny. Quase no final, Bad Bunny menciona explicitamente Cuba, Bolívia, Canadá, México, Haiti, Nicarágua, Jamaica e outros países, enquanto exibe suas bandeiras para mostrar a rica diversidade e a amplitude da América para além dos Estados Unidos. Essa descentralização dos EUA faz parte de sua crítica mais ampla ao governo Trump. Uma boa questão para discussão sobre alianças poderia ser:
Como os educadores podem promover o bem-estar de todas as identidades de seus alunos por meio do reconhecimento e do ensino explícito de histórias compartilhadas de opressão e riqueza cultural?
Além dessa apresentação no Super Bowl, espero que educadores invistam tempo em incluir mais trabalhos do Bad Bunny em seus currículos e planos de aula. Sua obra não se concentra apenas em questões porto-riquenhas e em questões mais amplas de pertencimento e democracia ligadas às comunidades latinas, mas também em outras relações coloniais, como em sua música Lo que le Pasó a Hawaii (O que aconteceu com o Havaí).
Seu trabalho demonstra alegria através da arte e da resistência. Ensinar sobre Bad Bunny não se resume a inserir a cultura pop na aula; trata-se de dar aos alunos a oportunidade de explorar histórias, identidades e linguagens críticas que ajudam a promover um senso de cura coletiva.
*Tony DelaRosa é cofundador da iniciativa NYC Men Teach Asian American e doutorando no departamento de liderança educacional e análise de políticas da Universidade de Wisconsin-Madison. Autor do premiado livro ‘Teaching the Invisible Race’.