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Colunista

João Jonas Veiga Sobral

É professor de Língua Portuguesa e orientador educacional

Publicado em 28/02/2024

Estudantes são treinados para não pensar?

Escola não é um parque de diversões temático e tampouco um sítio onde se estudam conteúdos que devem ser memorizados a fórceps e devolvidos, sem lá muita reflexão, nas avaliações escolares

A função decisiva e basilar da educação escolar e do ensino é provocar nas crianças e nos jovens a necessidade moral de ser inteligentes e reflexivos diante dos dilemas e dos acontecimentos do mundo, o que lhes exigirá esforço, disciplina, dedicação, método e algum sofrimento. Por isso, com certeza a escola não é necessariamente o espaço cujo fim é fazer os estudantes se sentirem bem e felizes, ainda que evidentemente possa proporcionar o bem-estar e alguma felicidade. No entanto, é fundamental compreender que a escola não é um parque de diversões temático e tampouco um sítio onde se estudam conteúdos que devem ser memorizados a fórceps e devolvidos, sem lá muita reflexão, nas avaliações escolares.

Se a escola não é uma linha de produção fabril e sem sentido, ela não é também um pronto-socorro emocional a dar conta de todas as questões socioemocionais dos jovens, sobretudo aquelas cujos disparadores são as disfunções familiares e relacionais fora do ambiente escolar. E isso não significa que a escola não deva instrumentalizar os estudantes para que enfrentem essas situações e o mundo com equilíbrio emocional e com sensatez relacional. Ainda que as dificuldades e os transtornos emocionais extrapolem em alguns casos os limites da razão, há, sim, como lidar com inteligência boa parte dos dramas que afetam as angústias do viver.

A literatura está recheada de histórias em que as personagens lidam com o sofrimento, com as dúvidas, com os fracassos e com as frustrações que constituem a verdadeira realidade das agitações da vida. As ficções bem trabalhadas constituem-se em material consistente para ajudar qualquer leitor atento e crítico a compreender formas de encarar de frente alguns percalços da travessia no mundo.

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Para que a escola cumpra essa função máxima de ensinar a ser inteligente e reflexivo, é preciso que as instituições e seus profissionais estejam razoavelmente livres, autônomos e aptos a oferecer a lanterna que ilumine o intelecto dos jovens e as estradas do obscurantismo. Parece óbvio o que se propõe aqui, mas o óbvio precisa ser repetido e por muitas vezes conquistado.

Em alguns colégios de elite, de classe média e públicos, os professores se sentem acuados por duas lanças ferozes: uma vinda das famílias e da direção curvada à pressão que agem como sensores morais e ideológicos cerceadores do pensamento crítico e polêmico; e outra, desses mesmos agentes que esperam o cumprimento integral dos livros e das apostilas como se os cursos tivessem uma meta a ser atingida, como se o que se ensina é um produto em si mesmo.

Além disso, há uma obsessão pelos treinamentos para os vestibulares que exigem dos professores uma tarefa hercúlea de abarcar nas aulas tudo que se pede nos principais concursos e de adivinhar os temas de redação e as questões que serão cobradas. Tudo mecanicamente produtivo. E há casos em que alguns professores — por inapetência intelectual, por conformismo ou por necessidade de salvar a própria pele e emprego — acabam impondo aos seus cursos um ritmo intenso de aulas, provas e trabalhos que solicitam muito mais reprodução e memória do que pensamento crítico e criatividade.

Na outra ponta, há instituições de ensino que criam uma quantidade exagerada de avaliações processuais que raramente avaliam de verdade os processos de aprendizagem com inteligência e inventividade. São muito mais facilitadoras de pontuação para média mensal do que realmente instrumentos fomentadores de reflexão.

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O ambiente escolar, por sua vez, vivendo uma linha de produção frenética e de documentação — às vezes necessária, noutras meramente burocrática ou para defesa da escola — esgota o professor que mal dispõe de tempo e dinheiro para estudar, ler, pesquisar, acumular repertório (assistir a filmes, peças teatrais, visitar museus e exposições, viajar) e para verdadeiramente exercitar seu senso crítico. As salas de professores, muitas vezes, diferem pouco dos salões de beleza, dos botecos e das resenhas dos clubes sociais quanto à frivolidade dos assuntos nas conversas diárias.

As reuniões pedagógicas quase sempre práticas voltam-se para a rotina escolar e para o cumprimento de metas burocráticas. Há pouco espaço para discussões do fazer pedagógico e menos para o debruçar intelectual sobre os acontecimentos do mundo ou demandas sociais caras que envolvem o debate público ou políticas ou culturais ou científicas ou filosóficas. O dia a dia escolar é, normalmente, de uma anencefalia crônica e pragmática.

E para piorar, como pouco se discutem temas relevantes além dos basicamente procedimentais, o que mais ocorre em um ambiente pouco afeito à reflexão é um executar irrefletido de tarefas e um exercício da crença, da convicção e do achismo cuja fofoca de corredores, de café e de porta de escola usufrui de mais poder e influência do que qualquer elucubração séria e fundamentada.

Por incrível que pareça, nas escolas — da sala de aula aos corredores, à sala de atendimentos das famílias, dos professores e aos departamentos em que se instalam as cabeças que mandam — ocorre diariamente a ausência de racionalidade sistemática, de reflexão, de indagação, de autonomia crítica que nos fazem seres pensantes.

É como se na comunidade escolar famílias, estudantes, professores, coordenadores, orientadores e diretores passassem muitas horas do ano letivo se dedicando ao treinamento da não reflexão, vivendo todos numa solidificada entropia cerebral.

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